
Na mesma semana em que foi ameaçada de morte e teve seu carro arranhado após chamar a atenção de um estudante de 15 anos, uma diretora, de 41 anos, de uma unidade de ensino da Serra, falou sobre o desafio de educar em uma comunidade com vulnerabilidade social. “Os adolescentes são reféns do tráfico e nos fazem reféns deles”, disse.
A ameaça à diretora aconteceu na última segunda-feira a noite, após ela ter recebido a informação que alunos estavam fumando maconha na frente da escola. Após advertir um estudante, que não usava uniforme e nem estava com seu material escolar em horário de aula, ele a ameaçou, xingou várias vezes e ainda arranhou o carro dela e furou os pneus.
– A Tribuna: Já tinha passado por alguma situação semelhante?
Diretora – Não Eu tenho mais ou menos oito anos de gestão escolar. Ser diretora em uma comunidade não é fácil e a cada dia que passa a nossa sociedade está mais corrompida. O que vemos é que muitos jovens nesses locais faz uso de alguma droga ilícita, seja ela maconha ou qualquer outro tipo.
– E quais as razões para isso?
São várias. O que vemos é que esses adolescentes muitas vezes não têm o convívio das famílias, seja porque o pai abandonou a mãe, os pais trabalham o dia inteiro ou porque são frutos de uma relação de violência. Muitas vezes, tem histórico de relacionamento no meio de crimes, por exemplo, um pai é traficante, mãe é conivente e o menino é criado pela avó, por uma tia. Ou até mesmo em situações em que um pai praticou homicídio.
– E essas situações vocês convivem diariamente?
Constantemente. E isso tem criado uma sociedade intolerante, onde a realidade deles é o crime. Muitas vezes quando a gente se depara com uma situação que precisa repreender o aluno para tentar manter uma ordem, você percebe que alguns adolescentes que não sabem lidar com regras.
– E se torna um desafio educar?
Grande. E eu sou uma Diretora de uma escola grande, onde tenho os três turnos, em uma escola cercada por facções criminosas. Eu já presenciei alunos, alunos que eram bons e foram para o tráfico e já vi alunos que eram do tráfico saírem também para um caminho bom. A gente torce para que o último aconteça.
Na nossa Constituição, artigo 144, diz que a educação é dever do estado, mas responsabilidade de todos. Hoje a sociedade está com medo e está à mercê desse aliciamento, que resulta em homicídios, ameaças, impunições.
– E onde estão os adolescentes nesse cenário?
Os menores são os fatores mais vulneráveis, pois a lei faz com que, muitas vezes, ele nem fique aprendido. Os maiores no crime sabem disso, eles coptam o menor. E o adolescente cheio de poder nas mãos, ele nos enfrenta. Não aceita imposição de regras, pois ele não tem maturidade suficiente para saber o que são.
– E esse foi o caso do adolescente que a ameaçou na segunda-feira?
Sim. É um caso onde a família não tem controle nenhum sobre o filho. Depois os estudantes falaram que ele tinha raiva por eu ter transferido compulsoriamente ele no começo do ano para outra escola. É um adolescente que transgride todas as regras.
– Ele voltou depois?
Sim. Pois a lei não permite que eu negue uma vaga para ele. Ele voltou no período noturno no meio do ano. Isso torna a gente impotentes.
– Já pensou em desistir do cargo?
Eu já pensei várias vezes, mas sou tinhosa e ao mesmo tempo acredito no poder de uma educação melhor.
– E o que é necessário para ela termos uma mudança?
Para conseguir formar um cidadão crítico e consciente dos deveres e obrigações são necessárias mudanças de leis para, não só punir esses menores, mas para poder aumentar o poder aumentar o poder da educação sobre eles.
Temos que formar estratégias de combate à captação dos menores para o crime, investindo mais no esporte, ações sociais, como projetos de música, de dança. E principalmente, investir em tudo isso dentro das escolas públicas.
É um desafio grande querer moralizar algo dentro de uma sociedade que está tomada pelo crime e pela imoralidade.
Os adolescentes hoje sabem seus direitos, conhecem até a legislação, pois eles estão, a todo minuto, sendo orientados para ilicitude. E a educação onde fica? O professor não pode levantar muito a voz para esse aluno ou mandar ele sentar, pois é acusado de coação, abuso de autoridade. É complicado. Os professores acabam sendo reféns de alunos menores.
– E mesmo com todos os desafios, ainda vai continuar lutando pela educação?
Claro. Até porque tenho projetos desenvolvidos dentro da escola, de música, de reforço escolar, e até projeto em parcerias com igreja. A escola sozinha não consegue mudar uma sociedade, precisa de participação da sociedade A parceria dos pais também é fundamental, pois não existe escola funcionando sem essa parceria. Muitos pais acreditam que somos babás dos filhos. É complicado hoje estar na educação, mas temos que acreditar que tudo pode mudar para melhor, afirmo que é possível transformar as pessoas, investido cada vez mais na capacitação e valorização dos educadores, amamos a nossa profissão, o que precisamos é o respeito e o reconhecimento por todos da sociedade.
Prefeitura se pronuncia por nota
“O caso está sendo acompanhado pela secretaria de Educação. O regimento referência da rede municipal de ensino prevê penalidades após a avaliação dos fatos ocorridos. O aluno poderá, dependendo da situação, até ser transferido da unidade. A Secretaria informa, ainda que está agendado para esta quinta-feira, dia 5, às 17 horas, uma reunião para tratar do assunto na escola. Participam do encontro a Secretaria de Educação da Serra, o Ministério Público e a juíza e promotora da Infância e Adolescência da Serra.
Francine Spinassé