por: Sérgio Lievore
A convicção da arte moralizada banirá obras subversivas como a música “Amélia”
O grande aumento no acesso à educação superior, ocorrido nos últimos anos, convida à ideia de que teríamos uma sociedade mais sensível ao aprendizado e à reflexão. A experiência tem mostrado o contrário.
A formação de novos letrados, que certamente não se confundem com intelectuais, a propósito da diferença referida por Milton Santos, levou a cultura brasileira a um regresso conservador e obscurantista.
Ganham força manifestações culturais simplórias como filmes e novelas com temas moralistas, intelectuais oportunistas dando palestras para ensinar a interpretar o mundo ou a difusão de textos indignados, pelo WhatsApp, vociferando contra a corrupção ou a crise dos valores familiares.
Os últimos dias conheceram um evento expressivo desse ânimo cultural: o caso da exposição patrocinada pelo banco Santander, que suscitou a fúria de uma horda virtual irresignada contra uma arte que considerava imoral, pedófila, de mau gosto e até mesmo, não se sabe por que razão, satanista! Também o Ministério Público, sempre destilando moralidade, se meteu na confusão.
O discurso de ódio e o moralismo rastaquera que campeiam na internet têm levado a um apequenamento do universo cultural. Tem-se perdido a capacidade de refletir de modo mais profundo.
Portanto, se há um quadro com uma referência à pedofilia, não pode ser compreendido como uma crítica à realidade, mas, sim, como uma apologia ao crime: tamanha tolice é um palanque armado para vigaristas da fé e escroques parlamentares.
Esses oportunistas sustentaram que a família brasileira, essa entidade sacrossanta, seria prejudicada porque alguma criança poderia ver a exposição e ficar chocada, ou coisa parecida.
Mas que tipo de pai levaria seu filho criança a uma exposição de arte erótica? O problema está realmente na arte?
Por que a intenção de que as famílias cristãs não sejam agredidas pelo incômodo da arte cheia de pecados vale mais do que a intenção que os artistas pecadores têm de fazer as suas obras pecaminosas? Aparentemente, ninguém foi coagido a ver os quadros.
Discutir se a arte é boa ou não é questão de opinião, mas é sintomático que ocorra uma mobilização tão significativa com o objetivo de reprimir uma manifestação cultural.
O precedente mais conhecido foi a reação indignada contra a Semana de Arte Moderna de 1922. Após quase cem anos, a mentalidade cultural não parece ter avançado muito. Segundo essa pulsão medieval, o papel das artes plásticas não pode ser maior do que o de uma simples fábrica de enfeites para as salas da classe média.
Numa comunidade em que se têm adultos jogando videogame e casais que espelham suas referências afetivas em novelas, os horizontes do esclarecimento se limitam e a arte deverá ser domesticada e seguir um manual tácito de bom gosto que apelará ao agradável e simpático, evitando qualquer tensão ou ruptura estética.
A convicção da arte moralizada banirá obras subversivas como a música “Amélia”, a peça “O Mercador de Veneza” ou o romance “Lolita”.
Que ninguém se surpreenda, o Brasil caminha a passos largos para chegar a esse nível rastejante de inanição civilizatória. O fundo do poço ainda não chegou. Haverá dias piores.
Sérgio Lievore é auditor de controle externo e doutorando em Direito
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