
Interrompo a “série” sobre as depressões/melancolias. Desta vez para falar sobre jovens em sua relação com a geração que lhes antecede. O assassinato de dois jovens por um colega de classe em uma escola de Goiânia, semana passada, me leva a indagar sobre esta tragédia que, hora ou outra, aqui ou acolá, se repete.
Aos fatos, a maioria de nós teve acesso. Mas o que me leva a tentar ir além do fascínio a que toda cena de horror nos convoca tentando elaborar algo, foi a declaração do pai de um dos jovens feridos mortalmente: “Está faltando à nossa sociedade ensinar à criança o valor do próximo, o valor da vida. Hoje, temos órfãos de pais vivos. Os pais não dão mais atenção aos filhos dentro de casa. A cidade vai se transformando num lugar de filhos fracos emocionalmente”.
Muitas são as reflexões a que podem nos levar o dito desse pai que acabou de perder seu filho. Porém, me chama a atenção o “hoje, temos órfãos de pais vivos”, cuja consequência, desta “orfandade”, é a “fragilidade emocional” de filhos que têm ficado à mercê de sua precariedade/agressividade.
Evoco, uma vez mais, Sigmund Freud em “Mal-estar na civilização” quando nos lembra que não há anseio maior para o humano que aquele por um Pai, que cuide, proteja, governe, oriente e garanta seu Destino. Certo, aí se origina a loucura nossa de cada dia bem como suas formas graves. Contudo, não é por acaso que somos habitados por tal “anseio”. O que está nele em questão é nosso profundo desamparo/prematuridade original e, por isso, nossa radical dependência das gerações anteriores para que nos tornemos humanos.
Isso: crianças e jovens dependem de que um outro lhe transmita algo que não nasce conosco, que depende da cultura, que vem de fora e que somente nos chega a partir de um acolhimento em uma linhagem geracional e, que se diga, pelo viés da palavra.
“Fale comigo!”, talvez seja esta a primeira demanda de um bebê quando vem ao mundo, tamanha é sua sede e fome que não são somente do leite, mas de palavras, e dirigidas a ele, esse recém-chegado à vida, pois são elas que nos adotam nos inserindo no campo humano. Inclusive, o próprio leite que alimenta, os braços que seguram, só podem fazê-lo, só recebem sua função de afetar o bebê se as palavras estiverem ali, em torno do berço. E delas vamos precisar desde o nascimento à morte: não há vida sem as palavras capaze s de nos arrancar de nosso desamparo radical.
Não há vida orientada, civilizada, sem os trilhos da palavra do Outro: pais, professores, governantes e todos aqueles que, por ventura, estão em posição de autoridade frente a uma criança, a um jovem, quer dizer, aquele que está em um momento de passagem, da vida infantil para a adulta e, por isso mesmo, em situação de angústia frente ao novo que lhe atualiza seu desamparo original, frente à diferença sexual, às exigências de ter que responder por um lugar que pode lhe ser assustador, aterrorizante.
Daí a importância de ter podido, a partir da presença falante de seus pais, principalmente, ter construído, sim, um narcisismo, uma imagem inconsciente de si tecida com palavras e com o olhar do outro que não se abalaria com “gozações” e “depreciações”, mesmo as mais pesadas.
Mas hoje, o que se passa? No mais das vezes, as palavras têm sido substituídas por objetos, por quinquilharias que nada contribuem para a construção simbólica de si. O resultado é a “fragilidade emocional” dos jovens, resultante do abandono, pobreza simbólica que os deixa na errância e deriva de sua agressividade infantil cuja lógica é “ou eu, ou o outro” que, na juventude, podem encontrar as armas dos adultos que permitem a passagem ao ato violento. Por isso, não se esqueçam, pais, crianças e jovens dependem de sua presença, da presença de suas palavras!
Darlene Tronquoy é psicanalista, professora e membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória.