Gravações telefônicas obtidas durante as investigações da Polícia Civil reforçaram indícios da ligação entre os acusados de participação na morte da médica Milena Gottardi.
Além dos depoimentos, conversas entre Hermenegildo Palauro Filho, o Judinho, e Valcir da Silva Dias, apontados como intermediários no crime, reforçam o papel dos acusados e o plano de fuga deles.
A reportagem teve acesso a conversas transcritas de interceptações telefônicas que constam no relatório do titular da Delegacia Especializada de Homicídio contra a Mulher, delegado Janderson Lube.
A primeira conversa foi no dia 20 de setembro, um dia antes da prisão de Valcir, de Esperidião Frasson e Hilário Frasson. Nela, Valcir conta para Judinho que irá falar com um advogado e se entregar.
Ao ser questionado por Judinho sobre quem seria o advogado, ele diz: “Hilário está arrumando”.
Para a polícia, os diálogos confirmam a associação entre os investigados e a “perpetuação” da associação até mesmo para a defesa deles.
Ainda na conversa, Judinho tenta convencer Valcir a não se entregar e pergunta o que o cúmplice pretende dizer à polícia, pedindo para não envolver seu nome.
Outro diálogo entre os dois intermediários no dia seguinte, mesma data em que Valcir foi preso, mostra Judinho alertando o comparsa. “Cuidado com esse comandante nosso”, disse Judinho se referindo a Hilário ou Esperidião. Ele completa dizendo que foi o “comandante que jogou areia em tudo”.
Para a polícia, a conversa reforça os indícios de mando por parte de Hilário e Esperidião. Com relação à fala de Valcir nas gravações de que Hilário estaria arrumando um advogado para ele, a defesa de Valcir, Carlos Eduardo Lyrio, negou que já tenha entrado em contato com Hilário e disse que “está surpreso” com o diálogo.
“Abro meu sigilo telefônico e bancários nos últimos 10 anos se preciso for. Nem o Valcir eu conhecia até o dia do depoimento dele na delegacia. Eu só entrei no caso, porque conhecia uma pessoa da família dele”, explicou.
Defesas sem detalhes da denúncia
Procurados, os advogados Hiran Luís da Silva, que defende Espiridião Frasson; Leonardo Rocha de Souza que defende Bruno e Dionathas; David Passos que representa a defesa de Hermenegildo, e Luiza Nunes Lima, que participa da defesa de Hilário Frasson, afirmaram que ainda não tiveram conhecimento da denúncia do Ministério Público do Estado na íntegra e, por isso, preferiram não se
manifestar.
Já o advogado de defesa de Valcir da Silva Dias, Carlos Eduardo Lyrio, disse que “ficou claro que a suposta participação de Valcir não ficou provada no local do crime”.
“Os laudos técnicos demonstram isso. O que Valcir confirma unicamente em sua defesa é que foi procurado por uma pessoa. E indicou outra pois não possui a natureza de criminoso”, defendeu.
Conversa com advogado
>VALCIR: E aí, está aonde?
>JUDINHO: Estou por aí afora. Falar muito por telefone não, né?
>VALCIR: Deixa eu falar pra você, eu vou me entregar amanhã, tá?
>JUDINHO: Rapaz, não faz isso não.
>VALCIR: Vou. Já estou em Timbuí já.
>JUDINHO: Tá doido.
>VALCIR: Vou conversar com o advogado amanhã. Vou com o advogado.
Carro procurado
>VALCIR: Eu vim embora. Estou em Timbuí, cheguei aqui agora e não tem ninguém aqui em casa, acredita?
>JUDINHO: Não rapaz, eu sei, mas sai fora daí rapaz. Eles estão atrás do seu carro, sabe que é um carro preto… não sei o que, não sei o que lá. Você vai fazer o que aí? Vai botar o nome de quem?
>VALCIR :Meu amigo, vou falar que eu não estava lá, que não sei de nada.
Medo de Dionathas falar
>J UD IN HO :Eles estão com coisa, o problema…. Você sabe por que tem que sair fora? Porque Dionathas vai dar um depoimento amanhã ou depois aí, desse trem.
>VALCIR: Não, mas já vieram aqui em casa hoje de novo. Entraram aqui. Vão levar o (diz o nome de uma pessoa) preso se eu não aparecer, rapaz, está ficando doido.
>JUDINHO: Deus me livre!
Sem nomes
>JUDINHO: Hein, se você puder não coloca o meu nome nesse trem não.
>VALCIR: Não, eu não vou botar o nome de ninguém.
>JUDINHO:(…)
>VALCIR :Deixa comigo. Eu não boto o nome de ninguém, eu morro, mas não boto o nome de ninguém.
Sem se entregar
>JUDINHO: Está arriscado o moleque (Dionathas) botar meu nome no trem lá. Que eles estão querendo botar nós… que diz, que os policiais falou que nós somos os bichos dentro de Timbuí… Agora eu vou te falar a verdade, eu não me entrego não, Valcir.
>JUDINHO:(…) mas eu não me entrego não. Daqui eu vou pra frente, entendeu?
>VALCIR :Eu vou lá na polícia pra ver o que vai dar.
>JUDINHO:Mas não vai hoje não, p…
Advogado
>VALCIR :Não, eu vou conversar com advogado amanhã.
>JUDINHO:Quem é o advogado?
>VALCIR :Hilário está arrumando aqui.
>JUDINHO:Então, mas cuidado aí…
>VALCIR :Segundo (…) estou te falando, não estou sabendo de nada. (Nome da pessoa) que me contou.
>JUDINHO:Eu sei, fala
>VALCIR :(Nome da pessoa) me contou que Hilário está arrumando um advogado aqui, que é pra mim vir aqui que ele quer falar comigo, vamos ver. Se ele não arrumar um em Santa Teresa, vou mandar aí, mandar ir lá, resolver esse negócio pra mim.
Sem dinheiro
>J U D IN H O : O que eu posso falar é o seguinte: que (pessoa do sítio onde moto foi guardada) falou que eu pedi para guardar a moto, que tem uns 30 dias que eu pedi pra guardar a moto lá, entendeu? Eu estou aqui rapaz, você sabe por que eu estou aqui? Eu estou aqui, estou a pé, sem um real no bolso, sem um real e a pé. O (nome de uma pessoa) aqui, rapaz, não tinha jeito de sair comigo aqui porque não tinha dinheiro aqui, coitado. Sabe o que ele fez hoje? Vendeu uma vaca que ele deu dois conto por
1.400 real pra poder arranjar o dinheiro, entendeu?
>Eu.. você pode coisar aí, se precisar de qualquer coisa, entendeu? Vou ver se corro lá em cima vender um trem, vender qualquer coisa, aquela carreta do seu (nome de uma pessoa), se precisar de dinheiro, se precisar de alguma coisa, entendeu? Eu não vou abandonar, não abandono você, não, rapaz.
>VALCIR: Tá. Deixa eu te falar, eu vou sumir com esse chip, tá? Eu vou arrumar outro telefone pra nós entrar em contato aí.
DATA :21/09/2017 (Quinta-feira dia, em que Valcir e os dois mandantes foram presos)
>HORÁRIO:0 8 h 24
(Esperidião Frasson já tinha sido preso. Valcir, foi encontrado pela polícia logo depois da conversa)
Prisão de Esperidião
>VALCIR: Estou esperando o (nome da pessoa que iria buscá-lo) aqui no mato pra mim sair, p…
>JUDINHO: Aqui, dizem que pegaram o velhão (Esperidião) quatro horas da manhã hoje.
>VALCIR: Prenderam?
>JUDINHO: Dizem que prenderam. Se eu fosse você ficava na sua, não vai se entregar assim não.
>VALCIR: Não estou sabendo.
>JUDINHO: (…)
>VALCIR: Estou indo para Vila Velha.
>JUDINHO: Cuidado você ficar andando, passando dentro desse centro, passando no pedágio aí que eles filmam tudo. Por que você não arranja outro canto?
>VALCIR: Eu vou conversar com advogado, se qualquer coisa ele falar que vai agarrar eu rapo fora.
>JUDINHO: Hein, qualquer coisa sai daqui e vai pra qualquer canto aí rapaz, pra Minas, Bahia…
>VALCIR :Eu vou voltar para o mesmo lugar, eu vou.
>JUDINHO: Se eu fosse você não tinha saído de lá não, rapaz. Nossa mãe!
Comandante
>VALCIR :Eu só vou lá em Vila Velha, e eu acho que já deu pepino que eles não chegaram aqui ainda.
>J UDI NHO :Você está aí pertinho mesmo?
>VALCIR: Eu estou aqui na linha perto de moreno aqui.
>JUDINHO: Então tá bom. Qualquer coisa… você fica ativo aí. Cuidado com esse comandante nosso (Hilário ou Esperidião), que esse comandante nosso que botou areia nos trem tudinho aí.
>VALCIR: Então tá, pode ficar tranquilo.
OBS.: Os trechos foram transcritos mantendo erros nas falas dos envolvidos. E alguns nomes não foram citados, por se tratarem de pessoas não investigadas.
Reportagem de Francine Spinassé, Lucas Rezende e Katherine Paiva para o jornal A Tribuna deste sábado.
