
(*) Luiz Trevisan
Na costa do Chile, a cada ano a Cordilheira dos Andes aumenta um metro, e isso não tem nada de bruxaria chaman ou Halloween. À medida que os tremores se sucedem — maioria imperceptível — ocorre uma superposição das camadas terrestres. E está feito o milagre da natureza. Espirituosos, chilenos também fazem drinques como “terremoto” e “tsunami”, para celebrar a vida enquanto a terra treme, mas pouca coisa cai por conta do domínio da cultura dos abalos tectônicos. O último grande tremor por lá, 8.4 na escala Richter, em 2015, derrubou quase nada e isso é coisa de sociedade prudente e organizada.
A fruticultura e as vinhas são tratadas com tanto zelo que o viajante que carregar uma inocente maçã na bagagem será comparado a um terrorista. Na passagem pela fiscalização, é comum ver viajantes entregando sacos de cereais e outros produtos logo incinerados para evitar contaminações. Cercados pelo Andes de um lado, o Oceano Pacífico do outro e tendo o deserto do Atacama ao Norte e os lagos chilenos gelados ao Sul — que se constituem barreiras naturais às pragas —, toda fiscalização é intensificada nos aeroportos, portos e rodoviárias.
Ao percorrer Santiago, o turista terá a sensação de circular por uma cidade planejada, bem cuidada e com muitas obras em andamento. E onde paira uma sensação de segurança trazida tanto pela presença constante dos carabineiros – policial local – quanto pelo monitoramento feito por câmeras de vídeo e drones. Ninguém se atreve a avançar um sinal às 5 da manhã, mesmo com a rua deserta. Naturalmente que o bom padrão sócio-econômico e uma população na faixa de 5,5 milhões de habitantes não trazem o impacto da grande exclusão social registrada em outras capitais mais populosas.
Trabalhando como recepcionista do hotel Hyatt Place no bairro Vitacura, uma carioca resume: “Aqui é bem seguro e há boas oportunidades de emprego e renda. Já no Rio…”. Pelas ruas, haitianos atuam na limpeza, enquanto nos restaurantes outros imigrantes, muitos deles venezuelanos, trabalham de garçons ou desempenham tarefas auxiliares que não atraem aos chilenos. Coisa de país próspero. Ainda assim, o governo da Michelle Bachelet não escapa de críticas. Seu segundo governo já não é tão bem aceito quanto o primeiro. “Agora ela está mal-assessorada”, murmuram taxistas, categoria que costuma refletir o pensamento mediano.
Já o capixaba sujeito à sinistra BR-101, mesmo pagando pedágio, e às outras rodovias igualmente precárias, vai se sentir em outro mundo ao trafegar pela Rota 5 toda duplicada e bem sinalizada. A caminho do Vale Colchagua, região de vinícolas, já percorrendo uma rodovia secundária para Santa Cruz, existe um trecho sendo duplicado e que chama a atenção por dois detalhes: a obra avança a olhos vistos e a cobrança do pedágio é feita apenas de um lado. Para quem paga pedágio na ida e volta por uma rodovia sem nenhum quilômetro duplicado, fica palpável o nosso atraso rodoviário.
Outra comparação inevitável para os capixabas é o restaurante Giratório situado no centro de Santiago. Além de cardápio variado oferece uma apetitosa vista panorâmica da cidade em 360 graus, vive cheio, tem que fazer reserva com antecedência. Nossa única referência local é o restaurante giratório projetado para o alto do prédio da Findes, em Vitória. Consumiu uma grana preta e hoje é não passa de um monte de ferragem exposta. Cara e estranha aranha metálica a evidenciar o fracasso das coisas mal planejadas e executadas. Pagamos caro pelo nosso “jeitinho”.
Por isso e por tantas outras, durante uma city tour por Santiago, os brasileiros a bordo da van não resistiram a um uníssono “Fora Temer”, que é o bode expiatório da vez. Contudo, sabemos que Temer é apenas aponta de um imenso iceberg. Em nossas rotas repletas de desvios e imprudência avançamos parecidos com o Titanic, enquanto a turma do convescote faz festa com champanhe e a patuléia se amontoa nos porões.
