
Nos primeiros chutes na bola, ainda criança, na praia de Camburi, em Vitória, Letícia Villar nem sequer imaginava que um dia teria o mundo do futebol de areia aos seus pés. Algo que ficou real desde a manhã desta sexta-feira (27), quando a pivô de 24 anos foi anunciada pela Fifa como finalista ao prêmio de melhor jogadora do mundo da modalidade.
“Já dá para sentir uma euforia muito grande. Minha ficha não tinha caído, mas a partir do momento que eu fui contando para a família, amigos… Caraca, estou concorrendo entre as melhores, eu posso ser a melhor do mundo”, revelou.
Na briga com a capixaba, estão a inglesa Sarah Kempson e a holandesa Grytsje Van den Berg. O anúncio acontece dia 4 de novembro, em Dubai.
Cria do futebol de areia do Geração, Letícia foi reconhecida pelo desempenho no Velho Continente. Defendendo o Astra HFC, da Hungria, ela disputou a última edição da Liga dos Campeões da Europa, ao lado das capixabas Noele Bastos e Bárbara Colodetti.
Foram sete gols marcados, que ajudaram a equipe húngara a alcançar a nona posição no torneio.
Sem se considerar favorita, a jogadora espera que a indicação sirva para impulsionar o futebol de areia feminino no Brasil. Afinal de contas, a realidade ainda é difícil para as menina que sonham em jogar.
“Diante da realidade estabelecida para nós, mulheres, jogadoras de futebol no Brasil, ter um reconhecimento desses de ir para fora e hoje poder ser eleita a melhor… Eu não sei se é real, está caindo a ficha”, admitiu.
“É amor total pelo futebol”
A Tribuna — Como recebeu a notícia da indicação?
Letícia Villar — Fiquei sabendo logo que foi publicado no site. Uma amiga minha viu primeiro, me ligou na hora e falou ‘cara, olha o que tá acontecendo, você vai concorrer a melhor jogadora’. A gente ficou sem entender muita coisa, fui pega de surpresa, no susto. É um marco, a primeira vez que o prêmio será entregue.
Por que a surpresa foi tão grande?
Pra mensurar é através de dados, quantos jogos fez, quantos gols fez, contra quem jogou. A gente aqui no Brasil fica à mercê, porque não nos oferecem oportunidade de fazer pelo esporte. A gente tem todo um reconhecimento lá fora. Estou concorrendo com meninas extremamente competentes, que conseguem mostrar o talento que elas têm. Mas eu quero levar mais.
Espera que o cenário no futebol de areia feminino mude com a indicação?
Queremos uma resposta da Confederação quanto a nós. Hoje tem uma seleção sub-20 masculina, estão investindo na base, fazendo pelo esporte. E cadê o feminino? Por que não temos uma seleção brasileira feminina competindo? Queremos suar a camisa, incentivar meninas mais novas, trazer títulos para o Brasil. A gente que joga fora vê e sabe que temos condições de brigar frente a frente com outros países.
Essa sua relação é então de amor ao esporte…
É amor total, com o futebol foi sempre assim. Uma paixão e um hobbie levado extremamente a sério, nunca ganhamos nada com isso. Já fui vice-campeã brasileira, terceira colocada em um Mundialito no Rio. Mas vai ficando complicado, a gente treina, treina, treina, é campeã, mas quando precisa do apoio não tem.
E é possível viver do futebol de areia?
Formei em Administração, mas como sou louca, apaixonada, fissurada por esporte e viveria do futebol, estou fazendo outra graduação, em Educação Física, para viver nessa área.
Reportagem: Acácio Rodrigues e Felipe Pacheco
