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Jovem de Vitória dribla o tráfico e vira promessa do judô brasileiro

Bertilho Machado, judoca, convocado para a seleção brasileira escolar. Foto: Leone Iglesias/AT “Já tive muita oportunidade de seguir o mundo do ...

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Bertilho Machado, judoca, convocado para a seleção brasileira escolar. Foto: Leone Iglesias/AT

“Já tive muita oportunidade de seguir o mundo do crime, mas para mim isso fica de lado”.

A frase é de Bertilho Vinícius dos Santos Machado, de 16 anos. O garoto mora na Rua Waldir Meireles, no bairro Consolação. À sua volta estão os morros da Floresta, da Gurigica e do São Benedito, locais onde a violência é movida pela guerra do tráfico de drogas com a polícia.

Na infância, jogava na posição de lateral-direito no time do Santa Cruz, equipe amadora do bairro onde vive. Torcedor do Flamengo, não levava jeito para o futebol.

Mas o filho de dona Ângela, que serve cafezinho em uma escola da capital, e seu Abitencoort, açougueiro de supermercado, encontrou no judô um caminho diferente.

Bertilho na laje de sua casa, no bairro Consolação, em Vitória. Foto: Leone Iglesias/AT

Todos os dias, Bertilho desce 60 degraus, do segundo andar de sua casa, um triplex, até a rua, em meio a entulho de construção e paredes sem reboco. Cursa o segundo ano do ensino médio no Colégio Estadual, em Vitória, e se dedica aos treinos.

Hoje, lidera o ranking capixaba na categoria sub-18, pelo peso meio-médio (-81kg) e ensina o esporte para crianças.

“Gostei logo de cara (aos 8 anos). Na época tinha muito amigo meu que fazia judô e me chamou. Já não era muito bom de futebol. Competi a primeira vez quando tinha 9 anos”, contou Bertilho.

De sorriso aberto, ele conta com entusiasmo a experiência que teve entre os dias 12 e 16 de julho. Treinou ao lado das campeãs olímpicas Sarah Menezes (ouro em Pequim/2008) e Rafaela Silva (ouro nos Jogos do Rio de Janeiro/2016), na base da Aeronáutica, no Rio de Janeiro.

Turma que treinou ao lado das campeãs olímpicas. Foto: Lara Monsores/CBJ/Divulgação

Isso porque ele e mais 54 jovens brasileiros foram selecionados pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) para compor a seleção brasileira escolar.

“Treinei com a Rafaela Silva, mas já entrei tremendo (risos). Quando ela segura o quimono, você sente que é uma outra pegada, de um jeito diferente. Ela não conseguiu me imobilizar (risos) e nem me estrangulou, um virava para o lado e ou outro virava para outro”, lembra o judoca.

O menino do Bairro Consolação descobriu o esporte no Instituto João XXIII, entidade sem fins lucrativos que fica na região. Pena que o amigo que o aconselhou, não seguiu a mesma trajetória.

“Por incrível que pareça, hoje em dia está nesse mundo que a gente vê”, lamentou Bertilho.

Fã do grupo de rap Racionais Mc’s, o judoca Bertilho Vinícius se inspira na música Negro Drama. E assim como diz a letra da canção predileta, o menino pode dizer: .

QUEM É ELE?

Bertilho Machado

Nome: Bertilho Vinícius dos Santos Machado

Idade: 16 anos

Onde nasceu: Vitória

Onde mora: Bairro Consolação, em Vitória

Altura: 1,82m

Peso: 74 kg

Modalidade: judô

Categoria: peso meio-médio (-81kg) sub-18

Conquista: líder do ranking capixaba na categoria sub-18

Bertilho Vinicius é instrutor de judô no Instituto João XXIII. Foto: Leone Iglesias/AT

“Quero ser uma referência no judô”

A TRIBUNA – Qual é o seu maior sonho?

BERTILHO MACHADO – Quero chegar à seleção brasileira, mas não penso só assim. Muitas pessoas se destacam, mas não são reconhecidas. Quero ser uma referência no judô. Fora do esporte, meu sonho é terminar minha casa, faz nove anos que começamos a construir e nunca conseguimos terminar.

Que ensinamento você traz do treino com as campeãs olímpicas?

Elas têm muita responsabilidade. A gente pensa que são pessoas diferentes, mas são normais. Se você for treinar, vai e treina. Apanha, bate e aprende. Você não vai só para apanhar, nem só para bater. Você vai aprender alguma coisa.

Você se dedica nos treinos até mesmo em casa. Qual história nesses nove anos de judô te inspira a continuar no esporte?

Teve uma vez, que meu pai virou para mim em véspera de campeonato e falou: “boa luta”. Aí eu pedi para me desejar sorte. Nisso, ele respondeu uma coisa que levo até hoje: “para quê sorte, se você treinou?”.

Bertilho Vinicius na porta de sua casa. Foto: Leone Iglesias/AT

Como é sua paixão pela música?

Ouço muita música popular. Gosto muito de jazz, mas gosto de escutar um pouco de tudo. Sou fã de Racionais, principalmente  da música Negro Drama. Já cheguei ao ponto de passar mais de quatro horas estudando música. Entrei na banda tocando tarol, toquei corneta e depois passei a tocar trompete. Gosto muito de instrumento de sopro, mas o que mais me puxa hoje é o judô.

O que você gosta de fazer antes de pisar no tatame para lutar?

Gosto de ficar mais concentrado, parado, é uma mania minha. Aqueço bem, olho no olho do adversário. Fico encarando. A maioria das vezes ele não vai preparado psicologicamente e já tento mexer com isso. Também faço oração no início da luta.

Inspiração para o sobrinho e a comunidade

Bertilho Vinicius e seu sobrinho Kayke. Foto: Leone Iglesias/AT

Enquanto o tio posava para as fotos da reportagem de A Tribuna, o pequeno Kayke Gabriel Barbosa Fraga, de 12 anos, dizia que tinha esquecido seu quimono, mas que gostaria de estar ao lado de Bertilho. Quando o judoca resolveu ir até sua casa para fazer mais poses, o garotinho não pensou duas vezes e o acompanhou.

“Eu comecei a fazer judô por causa dele. Minha mãe já era do esporte, mas eu gosto de luta”, disse Kayke.

A assistente social do Instituto João XXIII, local onde Bertilho aprendeu e treina judô até hoje, explica como o trabalho na entidade ajuda os jovens como o judoca a seguir um caminho diferente do que a realidade de onde vivem apresenta.

“Para dar outra oportunidade às crianças e famílias que participam do projeto, a gente tenta que eles conheçam a música, o esporte, atividades com alto custo e que desfrutam com oficinas ofertadas, para abrir o leque e a visão. Poxa, posso ser diferente, ter uma vida diferente e não preciso seguir o que vejo no meu bairro”, disse Mônica Bolzan, de 31 anos.

O sensei (professor de judô) Moacyr Ramos da Hora Júnior, de 39 anos, se sente orgulhoso de ver Bertilho Machado na seleção brasileira escolar.

“Faz parte do Instituto desde pequeno e de repente tem a oportunidade de colocar a mão no quimono de uma campeã olímpica. Temos mais de 120 alunos, 50 atletas, e ele foi convocado para um treinamento importante como ele”, afirmou.

Além de Bertilho Machado, a estudante Samanta Reis Rodrigues, da Escola Francisco Alves Mendes, de Cidade Continental, bairro da Serra, participou do treinamento com as campeãs olímpicas.

Reportagem de Acácio Rodrigues, publicada na edição de segunda-feira (18), em A Tribuna

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