
Pesquisa revela que maioria dos jovens da Grande Vitória dirige sob efeito de álcool e faz sexo logo no primeiro encontro
O jovem M., de 23 anos, abre os olhos numa maca. Estava há cinco dias desacordado. Sua primeira ação é, como quem precisa de alívio, mover rapidamente as palmas das mãos. Depois sente seu próprio toque nas canelas e suspira. Não estava paraplégico como pensava.
É o primeiro episódio que sua mente registra depois de um apagão quando viu seu carro sendo imprensado num poste de energia.
Sua história começa cinco dias antes, quando o relógio marcava 23h numa boate em Itapuã, Vila Velha. Começava a balada de M. Alternando entre doses de vodca e arremates de energético, seguiu bebendo até 4h quando trocou os copos pela chave de seu carro e saiu pelas ruas da cidade com altas doses etílicas no corpo. “Estava muito bêbado”, admite.
“Deixei uma menina em Boa Vista e estava a caminho de um baile funk na Praia de Itaparica buscar dois amigos. Chegando lá, fui fazer um cruzamento e quando dei por mim um carro veio com tudo do lado do carona, me arrastando até o outro lado da rua, me imprensando junto ao poste. Depois, não lembro mais de nada. Mas me contaram que ele fugiu”, recorda.
M. faz parte da estatística de jovens que encaram uma vida de periculosidade quando a noite cai e a cidade é tomada pelas baladas.
Pesquisa inédita encomendada por A Tribuna e realizada pela Faculdade Pio XII com 600 jovens entre 18 e 30 anos em locais de grande circulação de Vitória, Vila Velha, Cariacica e Serra revela: 61% dos homens já beberam em noitadas e depois insistiram em dirigir alcoolizados pela Grande Vitória.
E mais: 68,24% não hesitam em circular altas horas da madrugada, após noites de esbórnia, em carros com motoristas que estão alcoolizados.
Entre as mulheres, o número só cresce: 76,71% admitem que entram ou costumam entrar em carros com motoristas bêbados depois de baladas. Entre as jovens, aliás, 21% chegam a ser autuadas pelo crime de dirigir embriagado em blitz de Lei Seca.
Porcentagens que reverberam numa juventude sob perigo constante. O jovem M., que teve seu carro condenado após o acidente, reconhece: “Tive uma outra chance de vida depois daquele dia”.
E não à toa: sua noite de vodca terminou com um dos ossos do crânio quebrado e inconsciente na mesa de cirurgia
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Vítima de motociclista embriagado
S., 26 anos, seguia sua rotina normal para uma sexta-feira à noite: às 22 horas, havia saído de uma aula e, a caminho da casa, em Santana, Cariacica, desceu de sua moto para conversar com amigos próximo a uma pizzaria e ficou no acostamento. Depois, não viu a ambulância que o socorreu, o desespero de quem estava ao redor, nem a pressa até chegar ao hospital. Só acordou sob fortes dores e com o fêmur quebrado.
Havia sido atingido por um motociclista embriagado, que, cortando um ônibus pela direita, o atingiu em cheio. Caiu no chão. Ele e as motocicletas. S. foi mais uma vítima de jovens que insistem em beber e dirigir depois de baladas, que acabam causando acidentes a terceiros.
“Apenas lembro que não tive reação. O que eu sei do acidente, é porque me contaram. Dizem que já caí no chão com a perna quebrada, tamanho foi o impacto. No hospital, a dor era tanta que eu não conseguia me mexer. Só pedia remédio para cessar”, lembra.
Depois, o saldo de prejuízos foi maior: dois dentes e a ponta do dedo indicador também acabaram quebrados. No total, foram 25 dias de recuperação num leito hospitalar. Os custos, todos dele.
Além de embriagado, depois descobriu-se que o motociclista calçava chinelos durante a pilotagem e não tinha Carteira Nacional de Habilitação. Nem a moto que ocasionou o acidente pertencia ao motociclista infrator.
“Ele é muito humilde, não tinha plano de saúde, acabou quase perdendo a perna e não tinha como arcar nem com seus custos, quanto mais com os meus. Aos poucos, depois da dor, a ficha foi caindo. O grande problema é que se ele beber e insistir em dirigir e se machucar sozinho, beleza. Mas ele sempre sofre alguém junto”.
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“Eu bebi só uma cervejinha”
Enquanto a reportagem seguia em busca de histórias de jovens em noites de risco na Grande Vitória, encontramos uma cena corriqueira: uma esteticista de 28 anos parou pela primeira vez numa blitz da Lei Seca, em Itaparica, Vila Velha. Ela se negou a soprar o bafômetro. “Bebi só uma cervejinha, mas não vou soprar para tentar a sorte”, disse, já calculando o preço da multa, que é de R$ 2.934,70.
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Sexo sem proteção e risco de abuso

“Com as mãos ele tocava nos meus seios. Depois esfregou suas partes íntimas em mim, forçando um ato sexual”. A jovem dançarina R., de 20 anos, estava numa boate alternativa em Jardim da Penha, na capital, e havia ingerido uma garrafa de bebida feita à base de folhas de catuaba e 1,5 litro de cerveja.
“Estava tonta. Não tinha forças, nem reflexo. Não conseguia mensurar o que estava acontecendo”, lembra. “Ele era conhecido de uma amiga, nunca tinha visto antes, começou pedindo um abraço e daí, percebendo que eu estava sob efeito do álcool, começou a fazer esses movimentos sexuais e me induzindo a beijá-lo”.
Esse é só um dos pequenos relatos que R. pode passar horas lembrando. O traumático episódio de assédio, que quase beirou em estupro, pincela bem o quadro da sexualidade entre os jovens nas baladas capixabas. A pesquisa inédita encomendada por A Tribuna evidencia um quadro de sexo com desconhecidos, sob efeito de álcool e sem a devida proteção.
Entre os homens, por exemplo, o índice de relações sexuais no primeiro contato alcança os 75,71%. Entre as mulheres também é alto, passando da metade das jovens ouvidas: 53,42%.
Dos entrevistados do sexo masculino, 15,72% admitiram não se prevenir contra doenças sexualmente transmissíveis ao fazer sexo com desconhecidos depois da balada. Entre as mulheres, 32,88% das jovens admitiram que, ao transar com desconhecidos depois da balada, dizem só se proteger com anticoncepcionais, abrindo mão de camisinha, por exemplo.
Montante de riscos, que variam de gravidez indesejada a doenças sexualmente transmissíveis como Aids, gonorreia e sífilis, que são turbinados em ambientes regados a álcool, meia-luz e som alto.
“Hoje para uma menina ir para a balada tem que ter um número considerável de pessoas junto e ao menos uma pessoa tem que ficar sóbria, privando-se de diversão, para garantir a própria segurança. Com o álcool, a vulnerabilidade é duas vezes maior. E por isso é muito comum os homens pagarem bebidas paras as meninas com o intuito que elas se soltem e fiquem mais suscetíveis aos abusos”, acredita a dançarina.
R. sabe dos riscos e conta que as tentativas de abuso são constantes. “Um menino me puxou sem eu ver e começou a sarrar a genitália dele em mim. São noites de revolta, nojo e insegurança”.
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Desmaiada em meio ao tiroteio
Tudo começou como uma brincadeira para a universitária J., de 22 anos: beber um copo de tequila para cada conhecido que comemorava aniversário no mesmo dia que ela, durante sua festa na Praia da Costa, em Vila Velha.
Intercalando a “missão” com goles de cerveja, acabou desmaiada, em coma alcoólico, dando início a uma via-crúcis por quatro hospitais, entre públicos e privados, que aceitassem interná-la e não apenas medicar com soro.
Entre um vômito e outro, terminou a madrugada no Pronto-Atendimento da Glória, ainda desmaiada, enquanto a avenida Carlos Lindenberg, na altura do PA, era tomada por uma saraivada de tiros provocada por uma briga que vinha se arrastando por motoristas àquela altura do sábado. Os quatro amigos que a acompanhavam acabaram tendo que passar pelo fogo cruzado.
“Foi a primeira vez que entrei em coma alcoólico, mas posso dizer que é uma sensação horrível, porque você sai do seu próprio controle. É como se sua mente estivesse ali, mas seu corpo não, porque ele está mole e não há controle. Para a minha memória, aquelas horas não existiram. Hoje, já conhecendo meus limites, sei até onde posso ir. Mas é um risco que, por estar fora de si, você não calcula os estragos, nem comensura o que passou”, tenta explicar.
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“Família tem que educar”, diz sexóloga
Ao analisar a pesquisa, Sirleide Stinguel afirma que a educação sexual que precisa ser ensinada nas escolas e em casa
A pesquisa encomendada por A Tribuna acende o sinal de alerta para a sexóloga Sirleide Stinguel. Mesmo com todos os riscos já conhecidos da sociedade e passíveis de prevenção e ensino, ainda há uma grande parcela de jovens que não usa camisinha ao transar depois das baladas pela Grande Vitória.
Analisando os números do levantamento, a especialista diz que “não adianta ter consciência da necessidade da prevenção e ainda assim assumir o risco”.
“Todo esse cenário de jovens preocupados com o risco das doenças sexualmente transmissíveis, mas que não se previnem, como mostra a pesquisa, reflete a uma questão de educação sexual que precisa ser investida não só dentro das escolas mas também pela família em casa. O jovem hoje vive uma liberdade de expressão sexual maior e muitas vezes desorientada, pois a família em seu tempo de juventude não teve esse comportamento. Logo, exemplo e orientação são a base”, reitera.
Em relação ao número ainda maior de homens assumindo sexo no primeiro encontro em relação à porcentagem de mulheres, segundo Stinguel, a explicação está no fato de que mesmo a mulher tendo consciência de viver a sua sexualidade de forma prazerosa, ainda existe o tabu sobre o que o parceiro vai pensar sobre a entrega ao sexo no primeiro encontro.
“Já o homem não tem essa mesma preocupação. Para ele é mais fácil assumir que, sim, transa com desconhecidos durante o primeiro contato, até porque sempre foi incentivado a isso culturalmente falando. É o machismo ainda arraigado na nossa sociedade”.
Contra as mulheres jovens, segundo ela, ainda pesam outros preponderantes.
“O nascimento de filhos fora do casamento sempre foi motivo de escândalo social, fazendo as pessoas se interessarem mais nessa proteção, mesmo com todas as propagandas de Infecções Sexualmente Transmissíveis. A pesquisa nos mostra que ainda existem pessoas que ignoram os riscos de doenças, por variados motivos, e o maior deles é as mulheres acharem que o método é masculino e então cabe à eles a responsabilidade”.
Por fim, Stinguel afirma, que, acima de tudo, “um dos pilares da qualidade de vida está em viver a sexualidade de forma prazerosa, satisfatória e segura”.
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Geração estaria mais imediatista

A grande questão do comportamento de periculosidade dos jovens na vida noturna, na visão do coordenador do curso de psicologia da Faesa e terapeuta comportamental, Luciano de Souza Cunha, gira em torno da característica de preocupação com as consequências de suas ações a curto prazo.
“O jovem tem o péssimo hábito de tentar julgar as situações por aspectos que são superficiais. A gente tende a olhar para uma doença sexualmente transmissível, por exemplo, achando que elas têm cara, mas a maioria dos homens que responderam que fazem sexo no primeiro encontro e sem camisinhas esquecem que a maior incidência de vírus HIV está em mulheres heterossexuais casadas”, pontua ele, que completa.
“O perigo, portanto, está no fato de que jovens estão preocupados em prazer momentâneo e não nas consequências futuras. É porque se trata de uma geração imediatista, onde tem que se fazer tudo que dá prazer. Mas, na prática, não pode ser só assim”, analisa.
Para Cunha, vale lembrar também que o álcool afeta de certa forma o poder de decisão dos sujeitos.
“Com isso, o jovem fica menos suscetível ao pensar no que vai acontecer depois. Ele pode pegar um táxi ou Uber ao invés de dirigir bêbado, mas opta por ir no próprio carro, primeiro porque é mais prática, mas muito também que vivenciamos uma baixa sensibilidade em relação ao outro”.
Ele afirma que falta preocupação em entender que também se coloca a vida do próximo em risco. “Visualizamos um cenário de jovens mais imediatistas, buscando tudo o que querem a todo mundo, bebendo, perdendo a capacidade de autocontrole e com menos pensamento no próximo e em suas consequências. A saída é ter autocontrole, precisando abrir mão do que é vantajoso a curto prazo”.
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Foco em festas da região serrana

- Diante o alto número de jovens capixabas relatando que dirige e bebe após baladas ou que pega ou costuma pegar carona com motoristas embriagados, a reportagem procurou o Batalhão da Polícia de Trânsito.
- Por meio de nota, o Batalhão informou que, no período noturno, o foco de suas ações são as operações voltadas para o consumo de álcool e direção, a famosa operação Lei Seca, em saída de bares, restaurantes, shows e boates.
- O batalhão lembrou ainda que durante todo o mês de maio, na Campanha Maio Amarelo, o BPTran e o Detran realizaram diversas ações educativas de prevenção.
- Além das ações realizadas na Grande Vitória, também estão sendo realizadas as blitze da Lei Seca na região serrana, neste período de férias e festividades nos municípios da região.
- Desta forma, A “rota do frio” vai contar com o reforço do efetivo policial que atua geralmente na Grande Vitória.
- Por fim, o Batalhão da Polícia de Trânsito informou que tem realizado blitz com suas equipes e durante o período matutino operações de fiscalização de trânsito em geral visando a coibir as infrações.
Fonte: BPTran.
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Análise de Robson Carlos de Souza

“Colocar a própria vida em risco significa falta de amor próprio”
“Dos 295 entrevistados do sexo masculino, percebe-se que 23,05% saem com desconhecidos depois da balada. Já 57,95% fazem sexo no primeiro encontro e 26,10% não usam camisinha, podendo assim contrair doenças.
Outro dado alarmante é que 60% pegaram carona depois da balada com motorista que ingeriu bebida alcoólica. Mesmo com a lei de álcool zero, as pessoas bebem e dirigem e 21% foram flagrados no bafômetro.
Não se pesquisou a razão dos jovens terem esse comportamento, mas é necessário maior conscientização e cuidado com a questão de sair com desconhecidos, pois não se sabe quem está ao seu lado e real intensão.
Pegar carona com pessoas que bebem e dirigem tem risco elevado de acidente que pode ter sequelas graves e até perder a vida. É preciso entender que a lei deve ser respeitada e cumprida, quem bebe e dirige afronta a lei, e deve ser punido com rigor, pois pode causar acidentes com danos irreparáveis.
Fazer sexo no 1º encontro sem camisinha é perigoso, visto que muitas vezes mal se sabe quem é o parceiro. É importante lembrar que se vive uma vez só, e, colocar em risco a própria vida, pode significar falta de amor a si e aos entes queridos.”
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Reportagem especial de Lucas Rezende para o jornal A Tribuna do dia 16/07/2017

