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Momento de (s)arar

por: Pedro Paulo Biccas Junior "Crescer impõe desenvolver, esticar. O processo é contínuo" Mudanças climáticas bruscas são um tormento, maior ou ...

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por:  Pedro Paulo Biccas Junior

 

“Crescer impõe desenvolver, esticar. O processo é contínuo”

 

Mudanças climáticas bruscas são um tormento, maior ou menor, para todos. Os seres viventes do firmamento precisaram adquirir uma resistência resiliente para não padecer da criação aos dias mortais atuais.

Contudo existir e resistir nem sempre é o mesmo que viver. Algumas temporadas de sol incessante, baixa humidade e gente chata, diga-se de passagem, tornam-nos tão seco quanto a terra não arada sob o sol. A chuva até que vem, mas escorre rápido demais… a gente nem absorve. São meros goles substanciais e existenciais. Nada que vá tornar vistoso e de boa cepa este tronco, ou ramo, que seja.

É mais cômodo. De fato. Até concordo. Porém é de uma paridade tão vilania. Ou como diriam os mineiros: é de dar dó. Você rega, exerce suas obrigações ordinárias com a jocosa sensação de dever cumprido. Por vezes chove, outras não. Quando a natureza resolve descer água do alto, nem sequer aproveita-se o tanto que poderia.

Aquela água bate e escorre. Não tem como penetrar e perfazer esta casca tão dura. Outras vezes quando o céu se mostra irritantemente limpo, além de nossos impropérios murmurantes, jogamos aquele balde de agua, com ignorância peculiar de quem acha ruim ter de se manter vivo. Igualmente, quem sabe até de forma pior, o sumo da vida escorre e, muito, se perde.

Com isso começam a aparecer as mazelas da vida. As folhas e faces ressentidas e ressequidas. Algumas chegam mudam a cor. A amargura do caule e das veias é um pavor de se perceber. É a existência maior colocando a existência menor contra a parede. Ou sara ou some.

E para sarar? São casos em que na grande maioria das vezes já se sabe como, uma ajuda ou pitaco aqui outra consulta ali, mas no fundo é como emagrecer: basta correr e fechar a boca. Sem segredo, não tem mistério. É preciso colocar a mão na terra. Tocar aquilo que está seco e mal absorve mais o que cai do céu ou que sorve de outras mãos para beber. É tempo de arar.

Arar não é tão somente revolver a terra para descompactar o solo. É expor o subsolo ao sol. É trazer a luz aquilo que estava guardado a tanto tempo que o normal era fingir que nem existia mais. O sol sempre foi vida, sempre acompanhou a vida e sempre guiará a vida nesta existência da humanidade.

Existem agruras, como fungos e mágoas, que somente a luz e o calor bastam para (s)arar. Expor este subsolo, libera espaço, aquele que te fazia sentir apertaaaado dentro de si mesmo. Com isso, as raízes respiram, encontram espaço para crescer, é quase como viajar muito tempo em um voo comercial e depois conseguir esticar as pernas.

Crescer impõe desenvolver, esticar. O processo é contínuo. Cada momento de estagnação e a seca nos resseca e adoece de novo. Quantas vezes nesse processo é preciso jogar frutos intrusos ou raízes podres fora? Vai ser triste, por vezes até sorumbático e soturno e ainda nem se cogitou uma poda…Com o voo de Menotti Del Picchia me despeço:

Goza a euforia do voo do anjo perdido em ti. Não indagues se nossas estradas, tempo e vento, desabam no abismo. Que sabes tu do fim?
Se teme que teu mistério seja uma noite, encha-o de estrelas. Conserva a ilusão de que teu voo te leva sempre para mais alto. No deslumbramento da ascensão, se pressentires que amanhã estará mudo, esgota como um pássaro as canções que tem na garganta. “Não deixe que venha o sol se por sobre o vosso ressentimento” Efésios 4:26.

Pedro Paulo Biccas Junior é relações públicas e analista político

 

A seção Tribuna Livre é publicada diariamente no jornal A Tribuna. Colaborações para a coluna devem ser enviadas para [email protected]

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