
Essa técnica de governo tornou-se realidade institucional a partir do século XVIII, graças ao esforço intelectual de funcionários públicos, consultores administrativos e professores universitários.
O objetivo foi conhecer, instrumentalizar, enriquecer e fortalecer o Estado ante os desafios resultantes das novas configurações políticas atinentes à consolidação das Monarquias modernas.
Os homens incumbidos de elaborar uma teoria da gestão pública tiveram que responder à seguinte questão: “que programa deve um governo sábio adotar a fim de ser suficientemente abastecido com dinheiro e, assim, capaz de cumprir os deveres do Estado em suas várias ordens de importância?”
A esse respeito, Veit Ludwig von Seckendorff (1626-1692) apregoava que a única maneira de garantir o financiamento adequado da máquina do Estado consiste em conjugar os interesses do governo com os anseios dos indivíduos. Para tal, urge desenvolver a capacidade produtiva destes a fim de que a nação escape à dependência exterior.
Por outro lado, Johann Heinrich von Justi (1717-1771) acreditava que, assim como a Economia (ou Haushaltungskunfts) ocupa-se de ensinar como os meios de vida das pessoas podem ser preservados, incrementados e razoavelmente aplicados, assim também sucederia com as Ciências do Governo (Regierungswissenschaten), relativamente aos bens do Estado.
Outrossim, Justi analisa os problemas econômicos tendo em vista um governo que aceita as responsabilidades inerentes ao melhoramento das condições de vida e aperfeiçoamento moral dos indivíduos, obrigando-se a criar empregos, prover meios de subsistência para todos, aprimorar os métodos e organização da produção para um fornecimento suficiente e satisfatório de matérias-primas e alimentos.
Joseph von Sonnenfels (1733-1817), por seu turno, sustenta a tese de que os objetivos primordiais do Estado podem ser divididos em quatro temas: proteção externa, segurança interna, diversificação de ocupações produtivas e incremento da renda.
Essas quatro áreas compõem o conteúdo da Ciência do Estado (Staatswissenschaft) e, ao mesmo tempo, as linhas de especialização das quatro ciências especiais que formam a Ciência Política ou arte do governo — Ciência da Polícia (Polizeiwissenschaft), Ciência do Comércio e Ciência das Finanças.
O objetivo da política econômica seria prevenir a diminuição da oferta de bens por meio da regulação proficiente dos mercados e do comércio.
Devido ao seu vasto período de efetividade, o Cameralismo produziu efeito de longo prazo, principalmente, no que diz respeito à condução das políticas públicas e econômicas dos Estados alemães.
Até hoje, as Ciências Camerais são estudadas como disciplinas universitárias, que visam à instrução de quadros administrativos aptos ao serviço público e à formação daqueles que ocupam cargos políticos.
Flávio dos Santos Oliveira é bolsista pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Políticas (Ufes)