“Temporal baixou, e a cidade se alagou.” O samba eternizado pela voz de Jovelina Pérola Negra pode resumir o que ocorreu no Sambão do Povo na madrugada desse domingo (4). E a chuva deixou a Independente de Boa Vista na vantagem pelo troféu de campeã do Carnaval de Vitória de 2018.
Mas é o suficiente para apostar? Não, não é. A Mocidade Unida da Glória (MUG) também fez bonito na avenida, ainda que no molhado. Já a Unidos da Piedade, favorita para trazer o título de volta para a capital, deverá sofrer pela ausência do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, mas também corre por fora.
Com os engarrafamentos, perdi a Andaraí. Ao conversar com quem assistiu ao desfile, tomei conhecimento de problemas com um dos carros alegóricos, o que, embora seja um obstáculo na luta pelo troféu não tirou o brilho do belo desfile da escola de Vitória, nas palavras de outros foliões.
Agora já era hora da Novo Império e sua bateria nota 10! A escola versou sobre suas origens, a história do Sindicato dos Estivadores e seu centenário. Uma bela apresentação, cheia de garra, samba no pé e componentes com a letra do hino na ponta da língua.
Mais simples, porém, do que as agremiações que ainda estavam por vir, e com alguns problemas nas fantasias que dificultam a disputa pelo campeonato.
Agora, pisava na avenida a pioneira do samba capixaba: tendo flores como enredo, a Piedade levantou o público com seu samba cheio de poesia e melodia. Em minha avaliação, no entanto, faltou mais abundância do tema principal da apresentação.
Sem a programação completa do desfile em mãos (poderia haver a distribuição para o público, fica a dica para a organização), a impressão foi de que faltaram flores na avenida. A escola acabou saindo sem seu principal casal de mestre-sala e porta-bandeira, o que deverá implicar em perda de importantes pontos na disputa pelo título.
A Boa Vista, em seguida, fez sua magistral apresentação, ainda que longe da perfeição. O samba simples, de refrão pouco criativo, mas eficaz, levantou o público como ainda não havia acontecido.
Os carros alegóricos primorosos – escondidos por uma nuvem de fumaça inexplicável, o que pode levar à perda de pontos – e as fantasias cheias de luxo indicavam que a grande candidata ao título é a escola de Cariacica.
Alguns presentes comentaram sobre problemas com a bateria e a evolução, mas a torcida não se fez de rogada: a tricolor foi única que recebeu da galera os gritos de “É campeã!”.
O desfile terminou, a noite se zangou e então choveu, choveu! Mas folião que é folião grita “Chove chuva, chove sem parar”? Não, não: como na máxima futebolística, “bola pro mato que o jogo é de campeonato. Há um troféu em jogo, e os efeitos de um aguaceiro são nada positivos para uma escola de samba.
Ainda assim, a MUG entrou com tudo. Carros maravilhosos, muito luxo, mas um samba que não empolgou o público, já todo molhado, como a antecessora. A escola da Glória, porém, está na briga!
Depois disso, o autor deste texto se juntou à maioria dos foliões que deixavam o sambódromo, mas não para ir embora, e sim rumo à concentração da Unidos de Jucutuquara.
Enfrentou as poças de água e a fantasia encharcada para sambar e bradar a plenos pulmões o hino da escola de sua comunidade diante das arquibancadas vazias, mas sob o incentivo de quem estava nos camarotes, mesmo perto do sol nascer.
Perdeu o desfile da Pega no Samba, mas está ciente de que as duas últimas agremiações a se apresentarem no Grupo Especial estão fora da briga, devido ao temporal que caiu no Sambão do Povo e provocou problemas em vários quesitos. Mas ganhar é o menos importante: o Carnaval é alegria, poesia e paixão.
Rafael Guzzo é editor de Economia, ex-jurado do Troféu Tribuna e folião apaixonado pela Mocidade Independente de Padre Miguel
