Se eu já não conhecesse essa frase teria certeza que foi escrita por ela ou para ela. Tive a grandiosa oportunidade de recentemente conhecer a história de vida da Roberta Bento. Já acompanhava o seu trabalho junto a sua filha no SOS Educação, ajudando famílias e escolas a superarem as dificuldades geradas pela relação muitas vezes negativa entre alunos e estudo. Só por isso, que não é pouco, eu já a admirava. Mas aí conheci as duas pessoalmente em um seminário em São Paulo e pude ouvir um pouco sobre sua vida. Sinceramente? Eu não tenho palavras para descrever o quão impactante e emocionante foi para mim.
Primeiro como ser humano, que muitas vezes reclama de situações banais do dia a dia ou não valoriza o que tem. E segundo como mãe, por reforçar algo que sei e pratico, mas que as vezes fica de lado. Precisamos acreditar e incentivar sempre nossos filhos. Por mais difícil que pareça ser a situação, se eles se sentirem confiantes e capazes, tudo tende a fluir. Muitas vezes protegemos demais, tememos que se frustrem e acabamos podando o seu potencial. Sem me alongar, quero se emocionem junto comigo com a história dessa grande mulher que hoje entra para o nosso time de #mãesqueadmiramos. Com vocês, Roberta Bento.
Quando você nasceu, o que os médicos disseram para seus pais?
Minha mãe teve um problema na hora do parto e a notícia que os médicos trouxeram foi desanimadora. Disseram que eu tive uma paralisia cerebral. Como sequela, segundo os médicos, eu teria dificuldade de fala e audição, problemas de aprendizagem e outras consequências que meus pais descobririam durante meu crescimento.
Como foi a sua infância?
Como os médicos previram, havia mais sequelas a serem descobertas. Os membros inferiores foram afetados. Não pude ir para a Educação Infantil por conta das cirurgias que precisei fazer nas duas pernas ao longo da primeira infância. Mas tive pais que foram maravilhosos e sempre me estimularam a tentar e buscar caminhos para tudo o que desejasse fazer.
Você só entrou na escola aos 7 anos. Por que?
Entrei direto no primeiro ano, aos 7 anos, depois de ter passado pelas cirurgias que amenizaram as sequelas dos membros inferiores. Felizmente nessa fase a fala e audição já tinham se desenvolvido completamente, sem as sequelas previstas. Embora não tivesse ido para a Educação Infantil por conta das cirurgias, tinha em casa muitos estímulos que me levavam a gostar de aprender.
Como foi sua adaptação e desenvolvimento escolar?
Desde o início, apesar de estar defasada em relação aos colegas da sala, pois eles haviam frequentado a educação infantil, sempre amei ir para a escola. Em pouco tempo não havia mais diferença e logo me tornei a melhor aluna da sala. Isso se prolongou por toda minha vida de estudante. Na formatura do Ensino Fundamental ganhei minha segunda medalha de melhor aluna da escola.
O tempo passou, você estudou, se formou em Letras, assumiu cargos importantes de liderança, mas ainda tinha um sonho, ser mãe. O que ouviu dos médicos ao contar sobre sua vontade e como reagiu?
Decidi que iria para a área de educação para devolver ao universo a oportunidade que a escola me deu. Profissionalmente me realizei, mas sonhava em ser mãe. Ouvi de vários médicos que eu não levaria uma gestação até o final, pois ainda tenho as sequelas da paralisia cerebral. Mas, depois da decepção veio uma força que hoje sei da origem, mas que na época era só uma conclusão meio lógica: “sou a mesma pessoa que não ia ouvir, falar, andar ou aprender. Será mesmo que não posso ter filhos?” Pensei… Engravidei, enfrentei momentos de tensão, mas consegui vencer esse desafio também!

Minha filha foi o segundo maior presente que ganhei nesta vida. O primeiro veio em equipe: foram meus pais e meus irmãos. Ela se formou em Pedagogia na USP e teve a ideia de ajudar famílias a resolverem os conflitos e estresses gerados dentro de casa devido à relação negativa que os filhos têm hoje com a aprendizagem e os estudos. Aceitei o convite para trabalhar com ela. Pedi demissão da empresa onde eu havia construído uma carreira em mais de 18 anos de trabalho e fomos para os Estados Unidos estudar a Neurociência Cognitiva. Lançamos o livro “Socorro, meu filho não estuda”, criamos nosso site com dicas para os pais, que estão também nas redes sociais. Fazemos palestras em escolas de todo o Brasil e oferecemos consultoria para escolas, na qual ajudamos pais e professores a ajustar a rotina de estudos e envolver os alunos, eliminando problemas de comportamento e baixo desempenho escolar.
Como é trabalhar e dividir isso tudo com a Tais?
É a realização de um sonho tão maravilhoso que, confesso, nem ousei sonhar. Mas a vida nos surpreende sempre. E aqui estou com minha filha, que por si só é a realização mais linda que eu poderia ter, ajudando tantos pais, professores e alunos a descobrir caminhos para serem mais felizes a partir de uma relação mais saudável com os estudos.
Sua mãe morreu há pouco tempo e você achou o laudo dos médicos de quando nasceu, que dizia o que você tinha. O que estava escrito e qual foi sua reação?
Somente depois do falecimento da minha mãe descobri o laudo que estava junto com minha alta médica do hospital. Esse documento minha mãe escondeu, cuidadosamente, a vida toda. Até então o que eu dizia quando me perguntavam era o que ouvi dos meus pais quando respondiam às pessoas: só um probleminha na perna, mas não é nada. O laudo médico que ficou escondido por 50 anos diz: “Paralisia cerebral com tetraplegia”.
O que a frase “não sabendo que era impossível, ela foi lá e fez” representa para você?
Representa minha história de vida. Mais que isso, essa frase foi, sem dúvida, o mantra inconsciente dos meus pais, que sempre me ensinaram a focar no meu potencial e não na minha deficiência!
O que falaria para uma mãe que tem um filho com alguma necessidade especial?
Para essas mães tão guerreiras e para todas as mães eu digo: acredite que seu filho tem força e capacidade de superação que você desconhece, mas que está lá, em algum lugar do cérebro e do coração dele. Demonstre que você acredita que ele é capaz e prepare-se para surpresas maravilhosas!



