Escrevi esta crônica e acho que o futuro não gostou de ser chamado de “burro”. E zurrou no meu computador ou ventou e de repente se extraviou. E eu, que sou perseverante, insisti com o tal burro e agora ele subirá a ladeira e não me criará mais transtorno.
Porque, leitores, as palavras precisam ser beatificadas de mistério, ou é ele que reveste a sombra das palavras, para que não duvidemos mais do que está sendo criado.
Todavia, jamais tive o burro como animal inferior. Ou ignorante, ou suspirante de dignidade. O burro é lúcido e resistente. E às vezes mais inteligente do que o homem que pasta a verdejante grama, pascendo empáfia, sonolento poder ou burocrata indolência. Quantas repartições são paquidermes, cultivando a intolerante demora nos trâmites. Ou quanto a Justiça se atrasa e os processos se amontoam nos armários, com a bonança jurisprudencial dos anos, como musgos ou ninhos de pássaros.

Sim, encolhemos de futuro. Entretanto, se o chamamos de “burro”, é porque nos carrega, vagaroso, pelos dias. Talvez o recolheçamos pelas grandes orelhas, sem o espanto com que o genial Jonathan Swift reconhecia alguns reis na sua época.
O poeta Paul Valéry é dúbio quanto ao porvir. Alega que não é como antes. Mas não sei como o futuro era antes ou continua sendo no instante seguinte e após a nossa existência. No entanto, leitores, ao burro conheço e pressinto que no seu lombo as léguas desaparecem. Ou é capaz de um peso tamanho, que nós humanos temos dificuldade de transportar.
Quando padecemos o que nos resta e ainda não alcançamos ser gratos pelo pouco de terra que nos leva. E por mais que o tempo passe, por mais que desconheçamos o que vem, o burro do futuro, mesmo que moroso, é o que amorosamente nos tolera.
