Quase tudo o que você queria saber sobre a Rússia e nunca teve oportunidade será respondido nas próximas semanas. Por causa da Copa do Mundo, estamos diante de uma autêntica overdose russa, com direito à salada, vodca, cossacos dançando com sabres, aqueles palácios imponentes, as igrejas monumentais com suas torres bizantinas em formato de bulbo e cores fortes. É uma nova Rússia no ar, ensolarada, céu limpo, com direito até aos banhos de mar em praias que só podem ser frequentadas algumas semanas do ano. Nesta época, água na faixa de 22 graus, chega ao máximo de 27 nos dias mais quentes de julho e agosto. E quem lá iria saber que russo também tem verão e vai à praia? Ainda que em vez de areia pisem cascalhos.
Moscou parece uma cidade feita para impressionar: a imponência do Kremlin, a beleza da catedral de São Nicolau, a monumental Praça Vermelha, as obras de arte dos vitrais e metrô, a música russa com seus pianistas famosos, a leveza do balé Bolshoi, o realismo do cinema de Eisenstein. E a literatura envolvente de Dostoiévski, Gorki, Maiakovski, Nabokov e Tolstói dando tratos a uma língua áspera, que parece repleta de pregos e pedras, tipo as praias do Mar Negro.
Existe um conceito-clichê de que o norte-americano conhece geografia graças às suas invasões bélicas ou às pataquadas dos seus líderes, como o recente encontro entre Trump e o ditador da Coreia do Norte, aquele baixinho com cara de lunático que adora aparecer entre mísseis e bombas, e que agora parece ter virado o mais novo amigo de infância do presidente dos EUA. Nesse ritmo, o ditadorzinho ainda se torna pop-star de alguma produção hollywodiana. Sim, eles sabem ganhar dinheiro com tudo.
Já o brasileiro sabe ganhar dinheiro com ”jeitinho” e aprende geografia nos jogos da seleção, principalmente durante a Copa do Mundo. A primeira vez que ouvi falar da Rússia as imagens eram outras, de um continente gelado, longas estepes, o vento siberiano, os dias nebulosos. Era uma nação liderada por pessoas vestindo casacos pesados, semblante sombrio, entre conspiradores, golpes, atentados e revoluções. Tempo do bloco soviético, dos comunistas no poder, da guerra fria sazonal e do “perigo vermelho” a atormentar famílias alarmadas pela propaganda rival de que “comiam criancinhas”. Afeito aos trópicos, suas delícias e dores, acabei riscando a Rússia do meu mapa de futuras viagens logo que soube que era entrar literalmente numa fria.
Claro que ficava piscando o lado sedutor do desconhecido e diferente. E tome vodca, batatas e o caviar da história. Os palácios ocupados pelos bolcheviques, o culto a Lênin, a corrida espacial – “A terra é azul”, descreveu Gagarin –, e os crimes de Stalin. A propósito, existe uma passagem que poucos sabem sobre o controverso líder: filho de mãe católica, quando criança Stalin foi enviado ao seminário para virar padre. Saiu de lá ateu e pronto para pegar em armas e derrubar a realeza. Sanguinário e mão-de-ferro, porém nem tudo é inteiramente ruim, pois tirou a Rússia do atraso agrário, fomentou o avanço industrial e foi fundamental na condução do Exército Vermelho que ajudou a derrubar Hitler.
É claro que agora muita coisa vai ficar de fora das reportagens filtradas e pré-editadas por batalhões da mídia ávida por futebol e algumas histórias. Por certo, vão permanecer na penumbra as armações de Putin para se perpetuar no poder, as ações da máfia russa, a refinada prostituição, os jogos de azar, os novos ricos e os órfãos de Lênin. Sem contar detalhes históricos ainda hoje pouco focalizados, como o cerco a Stalingrado imposto pelos nazistas durante a Segunda Guerra, um dos mais cruéis e sombrios episódios da natureza humana. Isolada pelos alemães, faminta, a população de Stalingrado se via obrigada a profanar e canibalizar cadáveres novos durante as longas noites brancas. E basta lembrar ainda a invenção da roleta-russa para saber com quem estamos lidando.
Bem, agora, sete décadas e meio depois, a Rússia parece uma festa: são dois milhões de turistas por lá nesta época, vida noturna feérica, estádios monumentais – quantos elefantes brancos russos vêm por aí? Bom, isso é problema deles. De pepinos e elefantes, bastam os nossos, que a coisa aqui já ficou russa antes mesmo da Copa. E que a seleção do Tite seja feliz garantindo festa verde-amarela.
Mas, confesso, até agora o que mais me impressionou mesmo foi saber que russo vai à praia e que em certos dias de verão a gelada Sibéria se torna sufocante e repleta de mosquitos. Haja sorvete, ventilador, cortinado e repelente. Bem assim, tipo tropical, com vodca só em noturnos drinques bem coloridos e bastante gelo.
