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Saúde

“Religião e espiritualidade garantem saúde melhor”, diz especialista

A religião e a espiritualidade impactam a saúde das pessoas e chegam a ser relevantes para tratar ou evitar doenças como depressão e possibilidades ...

Alexander Almeida: “Se a pessoa tem depressão, não pode se perguntar entre fazer atividade física ou psicoterapia ou medicação. Pode ser tudo isso. Uma coisa não exclui a outra”

Última atualização

A religião e a espiritualidade impactam a saúde das pessoas e chegam a ser relevantes para tratar ou evitar doenças como depressão e possibilidades de suicídio.

Quem afirma é o coordenador e fundador do Núcleo de Pesquisa e Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em Minas Gerais, Alexander Moreira Almeida.

Em Vitória para a XII Jornada da Associação Médico-Espírita do Espírito Santo, que aconteceu até domingo (23) na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o médico psiquiatra diz que há inúmeros estudos sobre o tema e, de um modo geral, as pessoas com maior nível de envolvimento religioso têm mais saúde.

“Não necessariamente, mas de um modo geral. Principalmente, na área de suicídio, depressão ou mortalidade em geral. Mais ainda no que tange às doenças mentais”, explica ele, que conversou com A Tribuna.

Alexander Almeida: “Se a pessoa tem depressão, não pode se perguntar entre fazer atividade física ou psicoterapia ou medicação. Pode ser tudo isso. Uma coisa não exclui a outra” (Foto: Thiago Coutinho/ AT)

A TRIBUNA – Há realmente uma ligação entre doenças e espiritualidade?
ALEXANDER MOREIRA – Sim. Espiritualidade impacta a saúde das pessoas. Religião é um fator relevante para tratar doenças. E deve ser levada em consideração quando eu avalio um paciente. Hoje em dia, tem milhares de estudos sobre o tema e, de um modo geral, as pessoas com maior nível de envolvimento religioso têm mais saúde. Principalmente na área de suicídio, depressão ou mortalidade em geral. Mais no que tange às doenças mentais.

Como é esse envolvimento?
É a pessoa frequentar regularmente um grupo religioso ou o quanto a pessoa procura vivenciar no seu dia a dia a sua religiosidade e o quanto isso influencia sua visão de mundo, suas decisões, e como enfrenta seus problemas. Há mais diferença em como as pessoas lidam com sua religião, do que qual é a religião.

Quais os efeitos práticos?
Pessoas com maior nível de envolvimento religioso e espiritual tendem a ter menores níveis de depressão e melhoram mais rápido. Há também menores taxas de suicídio. Nos Estados Unidos, foi feito um importante estudo com quase 90 mil pessoas, que foram acompanhadas por 14 anos.

Analisou-se a taxa de mortalidade por suicídio. O que se encontrou foi que as pessoas que frequentavam pelo menos uma vez por semana um grupo religioso apresentavam índices sete vezes menores de suicídio do que aquelas que não frequentavam.

Outra área bem fundamentada é a de uso e abuso de álcool e outras drogas. A educação religiosa na infância também está diretamente associada a menores índices de problemas com dependências químicas. Qualidade de vida e bem-estar também estão associados à religiosidade. Outra variável consistente é a mortalidade geral: quem tem maior envolvimento religioso tende a viver mais.

Há aspectos negativos nessa relação religião e saúde?
Há o “lado negro da força”. Algumas forças de religiosidade estão associadas com mais depressão, pior mortalidade e pior qualidade de vida.

Como isto se manifesta?
Vamos dar dois exemplos. No caso positivo, frente a um problema qualquer, a pessoa vai tentar entender que “Deus dá o frio conforme o cobertor”, que isso tem um propósito, uma lição e um aprendizado, e que tem de fazer a sua parte, não tem controle total, mas faz sua parte, e entrega nas mãos de Deus.

E o exemplo negativo?
Tenho um problema e já acho que Deus está me castigando, que ele abandonou ou que Deus vai resolver tudo sozinho. Ou então, quando há uma ênfase de negação de tratamento médico e psicológico. Em vez de haver uma integração entre medicina e fé, a pessoa escolhe só uma coisa ou outra.

Ou seja: não dá para jogar a medicina para escanteio nesse processo.
De forma alguma. A gente tem uma ideia equivocada de escolher uma coisa ou outra. Se a pessoa tem depressão, não pode se perguntar entre fazer atividade física ou psicoterapia ou medicação.

Pode ser tudo isso. Uma coisa não exclui a outra. E também não se trata do profissional ser religioso ou instigar uma religiosidade do paciente.

Há uma recomendação de que essa abordagem deve ser centrada no paciente: se a religiosidade é importante para o paciente, preciso conhecer e abordar.

Mas pode instigar a religiosidade no paciente?
Se ele não tem uma religiosidade, a princípio, não. Mas se impactar a vida dele, tenho dever de usar isso de forma positiva para seu tratamento.

A religião, portanto, é um trunfo no tratamento de certas doenças?
É um aspecto do indivíduo. Tenho de abordar o ser humano como um todo. Essa é a boa prática médica. Interessa-me quem é aquela pessoa que está na minha frente, se tem algum conflito religioso ou não, por exemplo.

Mas muitas religiões entregam um discurso de salvamento certeiro, com base em campanhas, lenços, doações. Como evitar que a espiritualidade acabe virando um efeito placebo?
O extremismo está em todos os lugares. Mas a maior parte das comunidades religiosas tem entendido o tratamento em conjunto. Não devemos jamais optar entre uma coisa e outra. O ideal é somar.

Religiões também possuem discursos dos dias melhores, no crer para ver. É por aí que ajuda no tratamento de doenças?
Não há dúvida mais de que a religião impacta no tratamento. Há hipóteses, como essa visão de mundo das religiões, vendo a vida com propósito. Há uma visão positiva de futuro. Outra possibilidade é o suporte social, as comunidades religiosas valorizam a família, o apoio mútuo, um pertencimento. Práticas de leituras religiosa também estão em estudo.
 

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