
A produção e disseminação de mentiras entre nós está produzindo consequências devastadoras na cultura ética e moral de nossa sociedade.
O Papa Francisco em diversas oportunidades tem manifestado grande preocupação com esta nova cultura que está se formando. E nos coloca como desafio o desmascaramento das “táticas de cobra”, que são os produtores das fake News, manipuladoras que fomentam a desunião para servir a interesses políticos e econômicos. Ele se refere ao primeiro momento de queda do homem, ainda no Jardim do Éden, quando a serpente produziu a primeira notícia falsa, levando Adão e Eva ao pecado: “Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele (deste fruto) comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal”. Esconde-se aí a sedução traiçoeira e perigosa que se abre no coração do homem com argumentos falsos e atraentes. Francisco nos interroga: “sou um cristão que caminha na estrada da vida ou da mentira?”
Como seria possível aplicar o dito do Evangelho de que “a verdade vos libertará?” Por outro lado, o consumo de notícias falsas é como comer fezes, nos alerta o papa.
Os cristãos entram nesse fim de ano no tempo do Advento, esperando o nascimento do Menino Deus. O Natal terá sentido verdadeiro se estiver inserido no contexto da verdade e não da mentira.
A prática religiosa cristã no Brasil atual necessita de um profundo exame de consciência. A que fim muitos líderes religiosos ordenados e muitos leigos atuantes serviram suas palavras e sua ação nas redes sociais? Penso que padres, pastores, bispos e lideranças que conduzem o culto religioso deveriam realizar atos penitenciais nas comunidades levando seus fiéis a pedirem perdão a Deus por tantas mentiras disseminadas no meio do povo. Mentir ou repassar mentira, conforme Francisco é pecado. E quem comunga em pecado comete outro pecado!
Sabemos perfeitamente que pedir perdão a Deus não se refere apenas a um discurso momentâneo de uma celebração. Sem as ações reparadoras do pecado, sem a penitência, de nada adiantarão todos os ritos e orações. O compromisso com a verdade na ação concreta deve ser a baliza ética e moral de todas as pessoas, especialmente para os cristãos. É muito significativo o que diz o Papa Francisco que, muitas vezes, é preferível um ateu que vive eticamente que um católico hipócrita.
A reparação penitencial para a mentira não pode ser outra coisa senão seu desmascaramento, sua nudez, como se sentiram Adão e Eva após o engodo em que se meteram com a serpente. É preciso desnudar a mentira. Caso contrário, ela contaminará a sociedade, a família, os grupos sociais, as comunidades religiosas. A mentira é a chave mestra da destruição de qualquer laço de união.
Qualquer casal que se envolver em mentira terá rompida a relação. Assim como a vida de um casal depende da verdade entre eles, a vida social dependerá cada vez mais da verdade que foi escondida com mentiras ou notícias falsas.
Edebrande Cavalieri é doutor em Ciências da Religião