- Vitória, ES 25°C

Vitória 25°C

Anúncio
Entretenimento

Saiba mais sobre “Preto”, espetáculo estrelado por Renata Sorrah

Em tempos de muita fala e pouca escuta, o espetáculo “Preto” funciona como um espaço para dialogar sobre as diferenças, ouvir o outro. “É maravilhoso ...

Renata Sorrah - Espetáculo “Preto”

Última atualização

Em tempos de muita fala e pouca escuta, o espetáculo “Preto” funciona como um espaço para dialogar sobre as diferenças, ouvir o outro. “É maravilhoso o lugar do teatro, essa coisa das pessoas poderem ir lá para te ouvir. O teatro é uma das coisas mais revolucionárias que temos, uma arma poderosíssima em nossas mãos. Então vamos conversar?”, convida Nadja Naira, uma das atrizes integrantes deste novo projeto da Companhia Brasileira de Teatro.

A atração, que conta com um elenco diversificado, incluindo a veterana Renata Sorrah, será apresentada neste sábado (03) às 21 horas e domingo (04) às 19 horas, no Teatro da Ufes, em Goiabeiras, Vitória. Os ingressos para a primeira sessão já estão esgotados. 

Renata Sorrah - Espetáculo “Preto” (Foto: Nana Moraes)

Dirigida por Marcio Abreu, a montagem se articula a partir da fala pública de uma mulher negra, uma espécie de conferência sobre questões que incluem racismo, a realidade do negro no Brasil hoje, o afeto e o diálogo, a maneira como lidamos com as diferenças e como cada um se vê numa sociedade marcada pela desigualdade.

Nadja explica que a peça é composta por uma série de situações e tentativas de diálogos, que às vezes podem ser tratados com um toque de humor e outras não, mas que sempre possuem o mesmo objetivo: causar a reflexão.

“‘Preto’ não tem gênero. Não dá para chamar de comédia ou drama. Mas uma coisa que a gente procura é o diálogo com o público, temos a oportunidade de conversar com as pessoas. Abrimos esse diálogo para que elas percebam que não estão ali simplesmente para sentar e ver o espetáculo e sair dali sem nenhuma pergunta. É uma peça de reflexão. Estamos propondo uma experiência estética e visual”, conta a atriz.

Confira a entrevista completa com a atriz Nadja Naira:

Como nasceu o espetáculo?

O texto veio de uma pesquisa de uma peça anterior nossa que se chama “Projeto Brasil”. Quando a gente montou o espetáculo, o tema era o país, e tudo que era possível colocarmos dentro desse nome. Quando começamos a levantar os temas, descobrimos que era muito difícil passarmos pelo racismo sem nos aprofundarmos um pouco. Então decidimos guardar o tema para fazer uma peça depois e falar, especificamente, a partir da ideia do racismo no Brasil.

Como o racismo virou apenas um ponto de partida de “Preto”?

Participamos de muitos debates, seminários e residências artísticas, em que encontramos pessoas diferentes e fomos percebendo que a questão do racismo estava sempre ligada às questões de diferenças e não só ao fato da pessoa ser negra. É porque ela é diferente que ela é vista de outra maneira. A partir daí foi essa palavra “diferença” que começou a empurrar a gente. O que é ser diferente? Por que a gente fala tanto de igualdade, dos direitos iguais, se somos todos tão diferentes? E a gente se viu num campo muito mais amplo que só a questão da negritude, do racismo do brasileiro. Somos uma companhia que se apresenta com um núcleo diferente em cada trabalho. E a gente tinha no nosso entorno a Renata Sorrah, que já tinha feitos muitos trabalhos, o Rodrigo Bolzan, que trabalhava conosco há muito tempo… Fomos juntando as pessoas e percebemos que seria insuficiente tocar no assunto do racismo sem falar da gente.

Então levam suas vivências para o palco?

Não tem como não levar já que nos vimos num coletivo muito diferente. Grace Passô e Renata Sorrah, por exemplo, são mulheres de origens muito diferentes. Cada uma tem sua história como profissional e sua vida pessoal… nós somos todos muito diferentes, de origens e histórias diferentes. Então esses depoimentos que fomos colhendo entre a gente acabaram indo para o espetáculo. As nossas grandes semelhanças e diferenças foram para a cena. Não é a história da vida Renata ou da Grace. No caso da Renata, a gente trabalha muito a coisa da memória. Como ela tem muito tempo de vida, ela tem mais histórias para contar do que eu ou a Cássia. Ela passou por situações que a gente não passou e as memórias dela têm o lugar da memória pública, de alguém que tem uma visibilidade muito grande. E é a memória da Renata Sorrah, não é a memória de qualquer pessoa.

A gente monta situações em que nós somos uma mulher branca e uma mulher negra, ou um homem branco ou negro. E a gente não tem nomes necessariamente. Nós tentamos simplificar a relação entre essas duas pessoas, mas que exponha suas diferenças, ou o que tem de parecido entre essas duas pessoas. Eles são apenas dois homens ou realmente são um homem branco e um negro? A gente trabalha sobre essas imagens. Tem muito da dramaturgia da peça que não está no texto, mas na imagem. A primeira imagem que você vê de uma pessoa talvez seja a imagem que fica. A primeira coisa que você faz é ler a roupa de uma pessoa, o cabelo dela, a cor que ela tem. A gente demora a ouvir a voz a pessoa, a entender as ideias dela. Muito do que a gente absorve de alguém está na imagem. Então a gente trabalha bastante isso, com essa ideia que a gente projeta nas pessoas.

E isso tem a ver com a ideia do racismo. Porque quando a gente olha uma pessoa negra, vem junto dessa imagem todo um histórico, mesmo que a gente não perceba. A gente culturalmente foi conduzido a pensar coisas. O que é uma mulher negra? Ela é mal sucedida ou bem-sucedida? Ela é uma funcionária ou proprietária de alguma coisa? Que espaço ela tem? Por que ela usa o cabelo assim? A gente trabalha bastante essa ideia da imagem de alguém. E a Renata nos ajuda muito nisso. A imagem dela é muito usada, muito conhecida, ela é a rainha do meme! (Risos) As pessoas julgam pela imagem.

As diferenças estão ali presentes de forma harmônica ou também apresentam conflitos?

Não tem só harmonia, a gente trabalha conflito também. O que a gente tenta é provocar o lugar da escuta. Hoje em dia é tão difícil escutar. As pessoas querem falar, falar, falar e é difícil terem tempo e condição de ouvir o outro. E só o fato de ser um teatro ao vivo, cara a cara, você fazer uma pergunta para alguém e tentar ouvir o que ela diz, já é algo positivo. Acho que esse é nosso objetivo hoje como artista no teatro: tentar provocar, despertar nas pessoas o lugar de escutar as outras.

Qual o retorno que o público tem dado?

Temos bastante retorno. Uma coisa interessante é como a comunidade negra vê o espetáculo. Porque a gente pega um título que é muito caro à comunidade negra, que é “Preto”. E quando a comunidade negra começou a ir ver o espetáculo, a gente não imaginava como seria a resposta deles, mas a mais interessante e a que vem sempre é a questão de representatividade. É você ver um negro em cena, questionando a posição dele, tendo espaço de afirmação, tendo a possibilidade de falar sobre as diferenças, questionar os brancos, já que nós brancos também estamos em cena.

Para quem luta pelo teatro negro ou para o militante da causa seria normal que uma peça que se chama “Preto” fosse produzida por uma companhia de atores negros e dirigida por um diretor negro. Quando eles chegam no teatro e veem atores brancos e negros dirigidos por um cara branco é um pouco estranho. Mas o resultado da conversa é muito legal. Porque as pessoas se veem não só representadas, como de forma real mesmo, porque eles não estão sozinhos no mundo. O mundo não é só preto. É colorido!

Ficamos quatro semanas em Belo Horizonte e no início a plateia era 80% branca. Na quarta semana, percebemos que esse mesmo número era de negros. Foi muito legal ver esse empretecimento da plateia. Talvez seja a coisa mais bonita que aconteceu em termo de resposta da plateia. Apareceram pessoas de todos lugares para ver, dialogar. “Preto” é uma provocação de conversa. Mostra que o trabalho tem conseguido atingir o que se propõe, a aproximação de pessoas que querem pensar sobre isso.

Apresentaram o espetáculo na Alemanha e na França. Ele foi recebido da mesma forma nesses lugares?

Foi recebido basicamente da mesma forma. Lá na Europa não tem a questão do racismo com relação ao negro como a gente tem no Brasil, mas existe uma questão de preconceito com o estrangeiro. Neste momento, eles estão recebendo muitos refugiados e o alemão ou o francês nativo tem preconceito com essas pessoas. Acreditam que vão tomar seus empregos, que não conhecem seus costumes… Ser racista e ser preconceituoso estão muitos próximos. Então quando falamos desse prejulgamento da pessoa na hora que ela chega, seja pela forma que ela se veste ou por sua religião, eles também têm. E é algo muito grave na Europa.

Como muita coisa do espetáculo não é palavra, mas são situações, ou imagens, está na área da performance, a gente não tem dificuldade nenhuma de comunicar para outra cultura, que também é ocidental. Nesse projeto rolou intercâmbio com a Alemanha, então de alguma maneira, a gente diminuiu um pouco a intenção de falar sobre racismo e falar sobre diferença. Foi por causa das nossas idas à Europa, que a gente acabou mudando essas palavras, fomos de racismo para diferença porque para eles faz muito mais sentido falar de diferença.

Serviço:
“Preto”
Quando
: Dias 3 e 4 de novembro. Sábado, às 21h, e domingo, às 19h
Onde: Teatro da Ufes (Goiabeiras, Vitória)
Ingressos: R$ 25,00 (meia)
Vendas: na bilheteria do teatro, de terça a sexta, das 15h às 20h, e no final de semana, das 15h até o horário da sessão
Informações: 3335-2953/ 3029-2765/ wbproducoes.com
Classificação: 14 anos

Leia também: Reflexões e loucuras com Renata Sorrah

Mais Lidas

Ver tudo ›

    Bem-vindo(a) ao
    Tribuna Online!

    Seu bloqueador de anúncios está ativo.

    A publicidade ajuda a manter nosso jornalismo. Libere os anúncios para apoiar o Tribuna Online.

    Obrigado por apoiar o jornalismo local.