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Uma mulher não pode vacilar

Olhando e refletindo a respeito da conjuntura atual brasileira, veio-me à memória uma música antiga de Luiz Melodia – Juventude transviada – e sua ...

Última atualização

 (Foto: Divulgação)Olhando e refletindo a respeito da conjuntura atual brasileira, veio-me à memória uma música antiga de Luiz Melodia – Juventude transviada – e sua letra revigorou ainda mais a necessidade de dizer o que anda calado no meu peito: realmente “lavar roupa todo dia” deixando apenas a madrugada para sonhar parece ser o destino de tantas mulheres por este Brasil afora.

Elas sustentam famílias inteiras e ainda há quem diga que deveriam “ganhar menos porque engravidam”. Os rostos inchados não suportam ter que ir numa delegacia para a denúncia do “macho covarde” que lhe deu um soco. Que vergonha! Expor-se ainda mais no círculo ininterrupto dos diversos tipos de violência. A conquista da mulher de ter a sua disposição uma “Delegacia” especializada inicia-se em São Paulo em 1985.

O Estado do Espírito Santo carrega a marca de 9,4 mulheres assassinadas entre 100.000 enquanto que a média nacional é de 4,4 conforme o Mapa da Violência que pode ser conferido em www.mapadaviolencia.org.br. Estes dados deveriam envergonhar os “machos” capixabas que resolvem qualquer conflito com a mulher na base da força e da bala. De fato, a mulher capixaba não pode de forma alguma vacilar. A sua vida corre perigo em qualquer esquina, em qualquer lugar.

Como suportar que “cada cara representa uma mentira”? Somente a força do braço sustenta a “verdade” destes “machos”! “Nascimento, vida e morte”! Este seria o destino delas como fora ao longo da história? Por que existiram “bruxas” que foram queimadas? Sobre elas foram depositadas mentiras de toda espécie, inclusive religiosa e cristã. As mulheres também foram violentadas pelas diversas religiões, consideradas a causa do pecado no mundo e queimadas nas fogueiras da Inquisição.

O momento político atual do Brasil representa um grande movimento das mulheres na luta contra todo tipo de machismo, de intolerância, de discriminação, de violência física, simbólica, sexual, patrimonial e psicológica. Este momento, como diz a letra da música, “pode transformar”; senão “um dia vai chorar”! Não temos o direito diante desta realidade de reduzir o problema da violência contra a mulher a um posicionamento ideológico ou religioso. Não podemos inseri-lo no debate esquerda versus direita. E nem pode se reduzir a um “não” sem movimento construtivo de uma nova mentalidade. “Mirem-se no exemplo” de tantas mulheres que perdem a vida todos os dias ao nosso redor!Não se pode também entrar nesta armadilha ideológica diante das eleições. O “movimento das mulheres” é contra os diversos tipos de violência que alguns personagens candidatos carregam em sua história política. Se forem coniventes com os discursos de violência e intolerância, “um dia vocês vão chorar”, caso ainda lhes seja permitido chorar.

Se “vejo claras as fantasias” que permeiam os discursos machistas veiculados inclusive por mulheres, não me cabe ficar calado, pois tive uma mãe que não lhe foi permitido ser “recatada e do lar”, mas teve que enfrentar a roça de sol a sol, garantindo assim o sustento dos filhos que ficavam em casa sem babá ou empregada. O filho mais velho tomava conta dos menores. Nem sonhar de madrugada lhe era permitido, pois sobre seu corpo pesavam os esforços musculares da jornada diária. E o seu direito de sonhar? Nem isso!

Edebrande Cavalieri é filósofo

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