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A responsabilidade como virtude

Ao fim, nossa vida terá sido a soma de nossas decisões. Isso porque “o homem está condenado a ser livre. Condenado, pois ele não se criou a si mesmo, ...

José Antonio Martinuzzo

Última atualização

José Antonio Martinuzzo (Foto: Divulgação)Ao fim, nossa vida terá sido a soma de nossas decisões. Isso porque “o homem está condenado a ser livre. Condenado, pois ele não se criou a si mesmo, e, por outro lado, contudo, é livre, já que, uma vez lançado no mundo, é o responsável por tudo que faz” (Sartre).

A liberdade de nos inventarmos como sujeitos e comunidades, como qualquer liberdade, implica responsabilidades. A jogar luz nessa contingência, temos a distinção de Max Weber entre a “ética da convicção”, alheia às consequências do comportamento individual, e a “ética da responsabilidade”, atenta aos resultados de atitudes pessoais na vida coletiva.

Um exemplo do que exige ponderação entre convicção individual e responsabilidade coletiva é o voto. Por mais difícil que se coloque essa operação, ignorar que a minha escolha impacta a existência do próximo é fechar os olhos ao fundamento mais evidente da realidade: só existimos na contingência do outro – dos outros.

Falando em cegueira e decisões, retomemos o Sermão da Quinta Quarta-Feira da Quaresma, pregado, em 1669, por Padre Antônio Vieira. Para o jesuíta, há três espécies de cegueira a afligir a humanidade: a desatenção, a passionalidade e a ignorância.

Sobre as razões da cegueira da “diversão”, escreveu: “Divertia-os o ódio; divertia-os a inveja; divertia-os o interesse; divertia-os a soberba; divertia-os a autoridade e ostentação própria: e como estava a atenção tão divertida, tão embaraçada, tão perturbada, tão presa, por isso não viam o que estavam vendo”.

Acerca da passionalidade que turva a razão no enxergar, considerou: “As paixões do coração humano, como as divide e enumera Aristóteles, são onze; mas elas se reduzem a duas capitais: Amor e Ódio. E estes dois afetos cegos são os dois polos em que se resolve o mundo, por isso tão mal governado”.

A presunção fundamentalista sustenta a cegueira de terceira espécie: “O cego que conhece a sua cegueira não é todo cego, porque, quando menos, vê o que lhe falta: o último extremo da cegueira é padecê-la e não a conhecer”. Talvez seja por isso que a ignorância é ousada – talvez porque cega, mas crente de plena lucidez.

A faculdade de “pensar, querer e julgar” nos distingue como espécie portadora de um espírito potencialmente lúcido, livre e humano, conforme Hannah Arendt, que pergunta: seria possível que “o pensamento como tal estivesse entre as condições que levam os homens a abster-se de fazer o mal?”. Sua resposta: a “banalidade do mal” se funda na irreflexão, na decisão de não submeter os eventos concretos da vida à verificação do pensamento.

Tudo isso leva ao fato de que a responsabilidade é também uma virtude. Uma virtude que será extraordinariamente demandada, por exemplo, em qualquer cenário nacional que se desenhe, tendo em vista o que profetizou Dom João Batista da Mota e Albuquerque: “só o povo salva o povo”.

Nessa direção, enfrentando nossas cegueiras e nos responsabilizando fraternalmente, ouçamos Chaplin: “O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém desviamo-nos dele. Precisamos de afeição e doçura! Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido. Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar. E os desumanos”.

José Antonio Martinuzzo é doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória.

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