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Obras imaginárias

Durante o velório da irmã, um conhecido antigo confidencia, após detalhar os últimos dias da falecida, que havia se dado conta da finitude próxima e, ...

Jornalista, músico e colaborador do Tribuna Online

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Durante o velório da irmã, um conhecido antigo confidencia, após detalhar os últimos dias da falecida, que havia se dado conta da finitude próxima e, paradoxalmente, se sentia em condições de concretizar seu grande projeto de vida: lançar um romance. “Tenho a história toda montada, os personagens, os diálogos, desfecho…”. Por educação, me ofereci para ler o texto e dar um palpite. Ele retruca: “Ainda não, pois agora só me falta escrever o livro…” Tratei logo de desviar o foco da conversa, convencido de que aquele romance dificilmente chegaria ao papel. Afinal, o mais difícil estava por vir.

Na escola do romance realista, pelo qual enveredaram franceses e russos de boa pena, apregoava-se que o importante não era exatamente uma boa história para escrever, o maior desafio consistia em como contá-la. Flaubert passou muito tempo acalentando o desejo de escrever um romance sobre o… nada, nada mesmo. Pensando ou falando, lidamos todo o tempo com ilusões e meias verdades, como o romancista convicto do velório da irmã. Ou nos encontramos diante de tantas verdades cruas, como o drama dos refugiados sírios e africanos no continente europeu. Sem falar nas verdades absolutas e inócuas, assim bordão, “o que não tem remédio, remediado está”.

Há ainda verdades que saltam aos olhos, não exigem nem raciocínio, como a constatação de que governo que não corta despesa e compensa isso com aumento de imposto é governo inepto, fajuto. Igualmente pródigo é o governo especializado em enxugar gelo. Uns fazem isso com arte e boa capa publicitária, buscando apenas efeito midiático. Outros se enrolam na teia burocrática do serviço público. Um projeto tamanho médio, para sair do papel, leva no mínimo um ano e pico. E pensar que lá na década de 80 o ministro Hélio Beltrão, da Desburocratização, havia tentado desatar esse nó, porém ainda vivemos no país cartorial, das taxas, carimbos e emaranhados sem fim.

A teia burocrática, interesses contrariados e o factóide ajudam a entender porque não evoluem certos projetos que volta e meia ocupam o noticiário regional e enchem nosso arquivo: o teleférico no Convento da Penha, o mirante no alto do Penedo, o porto de águas profundas, o fim das taxas de terrenos de Marinha, o resort no Siribeira de Guarapari e nas Três Ilhas, a grade e a pista móvel da Terceira Ponte, a Ferrovia Litorânea. Só para ilustrar o primeiro item relacionado, a última tentativa de subir o teleférico no Convento da Penha derrubou até secretário municipal de Vila Velha.

E, liderando o ranking das obras e ações imaginárias, aparece a revitalização do centro de Vitória e a volta do sistema aquaviário na região metropolitana. Estes dois últimos projetos atravessam décadas e seguem praticamente intocados. Ainda na gestão de Luiz Paulo Vellozo Lucas, na Prefeitura de Vitória, cogitava-se a retirada dos fios dos postes e fachadas do centro da cidade, passando para o subsolo toda a fiação. Mais de 15 anos depois, este assunto segue na pauta do fio exposto. E ainda tem muito fio e fita para enrolar nessa história.

E o Aquaviário? Ventilou-se o projeto da retomada do sistema na Grande Vitória, contudo as embarcações prometidas ficaram à deriva. Neste caso, há quem diga que teria falado mais alto o interesse do transporte rodoviário que não quer a concorrência marítima nem em um sistema integrado. Daí, Vitória deve ser hoje uma das poucas ilhas urbanas do planeta que segue cercada de veículos por todos os lados enquanto o aquaviário continua à deriva e a ver navios. Por último, dizem, algumas barcaças turísticas estão a caminho. Só vendo, como diria aquele santo incrédulo.

A propósito, “Bebeto Ave-Maria”, um dos personagens marcantes da ilha, assim batizou o bar que abriu de frente para a baía de Vitória: “A ver navios”, isso num tempo em que não havia tantos guindastes gigantes no porto e os navios pareciam quase miniaturas diante dos atuais. Enfim, era outro tempo em que se podia jogar conversa fora na tranquilidade da calçada da Avenida Beira-Mar. Hoje, é impossível, a segurança também virou algo imaginário e o mapa da violência avança em todo lugar, alcançou o campus da Ufes, as moradias, os condomínios.

Nem dentro de casa e rezando há segurança: Nelson Antônio Ghisolfi participava de um culto em sua residência, no bairro Morro Novo, Cariacica, quando tombou atingido no peito por um tiro fatal. Foi mais uma bala perdida em outro confronto polícia-bandido.

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