- Vitória, ES 23°C

Vitória 23°C

Anúncio
Esportes

Kleberson relembra 2002 e se diz envergonhado por críticas sofridas por Felipão

Muitos se lembram da bola no travessão e da assistência para o segundo gol de Ronaldo, na final contra a Alemanha. Mas o lance que mudou a história ...

Última atualização

Muitos se lembram da bola no travessão e da assistência para o segundo gol de Ronaldo, na final contra a Alemanha. Mas o lance que mudou a história de Kleberson na Copa do Mundo de 2002 aconteceu na partida contra a Bélgica, seleção que volta a cruzar o caminho do Brasil em um Mundial.

Então com 22 anos, o volante começou a Copa do Japão e da Coreia do Sul na reserva. Ganhou a posição de Juninho Paulista depois que entrou, aos 31 minutos do segundo tempo, contra os Diabos Vermelhos, nas oitavas de final, em Kobe, no Japão.

O Brasil vencia por 1 a 0, mas a partida continuava difícil. Kleberson, então, partiu em velocidade pela direita e cruzou na medida para Ronaldo, aos 42 do segundo tempo, definir a vitória brasileira, por 2 a 0.

Hoje com 39 anos, aposentado, o ex-jogador vive na Filadélfia, nos Estados Unidos, de onde atendeu à reportagem de A Tribuna, por telefone. Confiante no hexa, ele – que também disputou a Copa de 2010 – espera mais um confronto difícil contra os belgas, mas aposta no mesmo placar de 2002.

Preparando-se para ter técnico, Kleberson também sai em defesa de Felipão, treinador do penta, que foi muito criticado após a derrota por 7 a 1 para a Alemanha, na semifinal da Copa de 2014, no Brasil. 

A TRIBUNA: O Brasil volta a encontrar a Bélgica, em um Mundial. Na primeira vez, terminou com o penta. Acha que pode ser uma coincidência boa?

KLEBERSON: Acho que é uma coincidência boa sim, de mais um bom duelo. Tivemos foi um jogo difícil contra eles, a equipe belga se posicionou muito bem na defesa, com uma linha de quatro e às vezes de cinco. Apesar da vitória por 2 a 0, a gente teve bastante dificuldade. Criamos várias oportunidades de gol, lembro que a principal foi uma tentativa de voleio do Rivaldo, que seria um golaço, mas não conseguimos fazer o gol no início, aí acabou que a Bélgica foi crescendo e se fortalecendo. Vai ser um duelo de duas grandes equipes. Esse Mundial vem tendo muitos jogos bons.

Como foi a preparação para aquela partida? O que Felipão falou? O atacante Wilmots era a principal preocupação?

Era sim. Ele já tinha feito um belo gol na Copa, de voleio ou de bicicleta, e a gente tinha essa preocupação. Mas Felipão alertou bem a nossa defesa para que ficasse, sim, bem atenta a esse jogador, mas que era mais para a gente impor nosso estilo de jogo que poderia fazer a diferença, no nosso talento.

Foi falta do Wilmots em Roque Júnior, no gol anulado? Eles reclamam até hoje…

Eles reclamam até hoje mesmo (risos). Acredito que tenha sido falta sim, se você reparar no lance, teve uma carga no Roque, apesar de ser leve, isso acabou dificultando e fez com que ele perdesse o tempo de bola. Essa foi a nossa sensação do lance, o que conversamos depois.

Você entrou e deu uma assistência perfeita para o gol de Ronaldo. Depois disso você virou titular. Qual foi a importância desse lance para a sua carreira? Qual foi a orientação de Felipão?

Ah, foi muito importante, sem dúvidas. Acho que a minha entrada naquela partida foi mais tática, não de performance, porque o Cafu era um jogador que gostava muito de avançar e nesse jogo ele não estava tendo essa chance de chegar ao ataque, e o Juninho era mais leve e gostava de jogar com a bola curta, mais no meio, então o professor Luiz Felipe precisava de alguém para marcar e que desse apoio ao Cafu, que pudesse sair. Foi o que aconteceu. Lembro que eu e o Cafu estávamos quase na mesma linha do campo, recuperamos a bola e tinha um espaço muito grande, aí eu vi o Ronaldo lá na frente com dois zagueiros, tentei ganhar profundidade e fazer a bola chegar ao Ronaldo e acabou acontecendo dessa forma, era uma coisa que também acontecia nos treinos. Esse lance significou muito para a minha carreira. Sei que a comissão técnica deu um voto de confiança em mim e eu estava bem preparado emocionalmente e aproveitei da melhor forma possível.

Muito se fala sobre a “ótima geração belga” atual. Acha que a Seleção da Bélgica hoje é mais forte que que aquela que vocês enfrentaram?

Olha, essa é uma pergunta bem difícil. Mas acompanhando a Copa, os jogos que ela teve, o ritmo que ela impôs, acredito que é digna de ser muito melhor que a de 2002. Ela joga muito bem e tem seus jogadores de qualidade, parece que tem mais paciência para trabalhar a bola. O Lukaku é o grande destaque deles. É um atacante forte, de área, que se posiciona muito bem e é uma referência.

Assim como o Brasil, em 2002, a Bélgica também joga com três zagueiros. Quais os pontos fortes e os pontos fracos desse sistema?

A diferença de jogar hoje com três zagueiros é que as equipes fazem uma linha de cinco que dificulta muito a entrada dos jogadores técnicos dentro da grande área. Se você pegar os scouts da Seleção Brasileira, você vê que nosso estilo de jogo é de chegar mais na área, nossos jogadores têm essa característica, então vai ser muito difícil.

A partida contra a Bélgica foi a mais difícil daquela Copa? Alguns de seus companheiros acham. E você?

Como eu entrei no segundo tempo, tenho uma visão diferente de quem estava dentro do campo desde o início. Entendo que foi o jogo difícil e que a gente não conseguiu fazer os gols logo no início, mas para mim o jogo mais difícil foi contra a Turquia, na semifinal. Foi bem difícil, pela pressão, um jogo tenso, os turcos querendo ganhar de nós a qualquer custo, devido ao ocorrido no primeiro jogo. Apesar da Turquia não ter capacidade técnica como a Bélgica, mas eles se fecharam e nós tivemos que contar com a qualidade técnica do Ronaldo, com aquele gol (de bico), para vencer a partida.

Quando você ficou sabendo que seria titular contra a Inglaterra?

Um dia antes do jogo, depois do lanche da noite, umas nove, dez horas da noite. O professor Luiz Felipe passou por mim no corredor, nem sei se ele estava preparado para falar aquilo naquele momento porque foi muita coincidência, aí ele só chegou e falou: “Guri, te prepara que amanhã você vai jogar”. Virou as costas e saiu. Para mim foi uma emoção muito grande, fiquei bastante feliz, depois ele veio no outro dia e conversou mais comigo, para jogar como eu estava jogando no Atlético Paranaense, livre, a mesma coisa, dando suporte ao ataque.

Sua melhor partida individual foi contra a Alemanha, né? Você jogou demais!

Sem dúvidas, amigo. A final foi um dia muito especial para mim, guardo com muito carinho, não é tão simples para um jogador ter uma oportunidade de jogar uma Copa do Mundo, onde os melhores jogadores estão ao seu lado, a favor ou contra, e fazer uma performance como eu fiz. Tudo poderia ser ao contrário, eu poderia ser criticado como inexperiente para uma final, de ter atrapalhado a Seleção, mas eu estava muito bem.

Contra a Alemanha, tivemos mais dois lances que marcaram a sua grande exibição naquele Mundial: aquela bola no travessão e a assistência para o segundo gol de Ronaldo. Quais as suas lembranças desses dois lances?

Até hoje eu lamento que essa bola do travessão não entrou (risos). Esses lances são marcantes para mim, não tem como não ficar na lembrança, são coisas que aconteceram, um presente de Deus, ter participado do último gol da Copa foi sensacional para mim. O último gol do Ronaldo foi sensacional, subi pela direita, dei o passe, o Rivaldo deixou ela passar e o teve a tranquilidade e a qualidade do Ronaldo para finalizar.

Rola alguma resenha com o Ronaldo, já que você deu duas assistências para ele naquela Copa?

Sim (risos). De vez em quando, quando a gente se encontra, eu falo: “Ó, você sabe que só foi artilheiro por causa daquelas minhas duas assistências, né?”. E ele ri, ele é um cara fantástico. Acho que a alegria que a gente tinha, a satisfação de jogar pelo Brasil, eram todos os jogadores com o mesmo pensamento, isso foi importante. Muito se fala da família Scolari, de como jogávamos, a alegria que tínhamos.

Como foi a sua preparação individual para a final?

Eu estava muito tranquilo. O ambiente dos jogadores experientes em volta te tranquilizava. Depois do lanche da noite nós conversávamos e contávamos piadas, então te descontraía. Achei que fosse ter dificuldade para dormir, mas descansei bem, dormi bem. Quando levantei de manhã, parecia que eu sentia que as pessoas que torciam para o meu futebol estavam comigo. Pensei nas pessoas próximas, minha namorada, que hoje é minha esposa (Daiane), meus pais, funcionários do Atlético, torcedores, o povo do Paraná. Todos que estavam torcendo por mim, tanto que até hoje quando vou de férias para o Brasil, muitas pessoas agradecem, era uma força que eu tinha naquela Copa.

Como era formar dupla com Gilberto Silva?

Foi fenomenal. Gilberto é mineiro, um cara tranquilo, me ajudou muito, conversamos muito dentro de campo, também com Ronaldinho Gaúcho, éramos os mais novos e formávamos uma espinha dorsal do time, que dependia da nossa velocidade, foça e criatividade, para que pudesse surgir o talento de outros jogadores como Ronaldo, Rivaldo, Cafu e Roberto Carlos. Eu e Gilberto foi uma dupla que funcionou muito bem. Gilberto e Edmilson me deram total liberdade contra a Alemanha. Os alemães fizeram uma marcação forte em Rivaldo e no Ronaldinho Gaúcho e tentou bloquear os laterais, mas ficou um grande espaço para que eu pudesse chegar mais à frente para finalizar.

Qual era o maior desafio para você, na sua função tática, daquele esquema do 3-5-2? E quem hoje desempenha um papel mais parecido com o seu?

Era chegar à frente como surpresa, uma formação que o Atlético já jogava, comigo chegando como surpresa. Então meu maior desafio era impor isso aí dentro da seleção, com jogadores de tanta qualidade na frente. O Paulinho hoje, na Seleção, joga mais ou menos como eu em 2002, de chegar como surpresa.

O Brasil está com pinta de campeão?

Acho que sim, vem amadurecendo, jogando muito bem, demonstrando sua qualidade. Gosto da formação que o Tite usa, a maneira dele de trabalhar com os jogadores, desde a época do Corinthians. Admiro muito o trabalho do Tite. Mas as outras equipes estão jogando muito bem, muitas por uma bola, querendo prorrogação e pênalti. É um Mundial de muita tática e de surpresas, mas como brasileiro a gente espera que a Seleção vá bem e vejo esse favoritismo nela, pelo talento e criatividade que tem. Seria muito bom ser campeão novamente.

Você está se preparando para ser treinador. Está estudando muito esta Copa?

Sim. A gente acaba analisando todas as equipes, assistindo jogos. Fico até chateado quando não tem jogo na Copa (risos). Quando a gente escolhe essa profissão, ser técnico, começa a analisar o jogo de uma maneira diferente. Primeiramente o jogador, a individualidade do atleta, mas também a questão tática e técnica. A gente vê sistemas interessantes nesta Copa.

Vai usar o 3-5-2, da Copa de 2002, nas suas equipes, agora como técnico?

Depende muito. Tive muito sucesso no 3-5-2 na minha carreira, acho que valoriza os alas e os jogadores de meio-campo, as criações de jogo, mas também entendo que tem outras táticas interessantes, como o 4-2-3-1 ou o simples 4-4-2. Então depende muito da equipe que você tem, mas realmente o 3-5-2 me marcou muito. Nesta Copa, por exemplo, a gente vê uma Inglaterra jogar em um 3-4-3, o que é muito diferente.

A sua convocação para a Copa do Mundo de 2010 te surpreendeu?

Apesar de muitas pessoas acharem que eu não precisaria estar dentro daquele grupo, minha convocação não me surpreendeu. Foi pelo o que eu fiz dentro da Seleção naquele período. Lembro que em 2006 fiquei de fora e em 2007 voltei ao Brasil com objetivo de jogar em uma equipe de alto nível, com muita torcida, e tive um desempenho muito bom no Flamengo. O professor Dunga confiava em mim, além da minha experiência. Mas acontece que naquele Mundial, diferente do que em 2002, que o Felipão tinha uma forma de jogar e precisava de mim, em 2010, o Dunga não precisava muito daquela minha função como em em 2002 e tinha também o Ramires que entrava muito bem.

Como você avalia as críticas que o Felipão sofre depois do 7 a 1? 

Eu como brasileiro, como atleta que teve oportunidade de jogar uma Copa do Mundo – a gente sabe como é -, eu me senti muito envergonhado coma as críticas que o Felipão tomou naquela época, não só ele, mas todos os treinadores brasileiros foram criticados, como não estudiosos, que jogadores que paravam de jogar atuavam como técnicos. Depois do 7 a 1, fomos muito criticados, foram colocados em cheque pessoas honestas que trabalham, que se dedicam ao máximo, então eu me sinto muito envergonhado pelo que aconteceu com o Luiz Felipe. Estou morando há cinco anos nos Estados Unidos e vejo um patriotismo muito grande, eles reconhecem o mérito das pessoas que fizeram um bem por seu país, e essas pessoas fizeram um bem gigantesco pelo nosso futebol, então é lamentável essa questão da crítica, como foi.

O Flamengo parece estar caminhando para o título brasileiro?

O Flamengo mudou muito desde a época que eu estava aí. Hoje tem uma estrutura fantástica, uma preparação, algo que realmente um clube como o Flamengo precisava. A cobrança por um título no Flamengo é muito grande, pela torcida, imprensa, porque foi investido muito dinheiro. Vejo o Flamengo em uma crescente muito grande, apesar de não ter conquistado um título de grande expressão ainda, vem jogando um futebol que é acostumado a jogar, mas vejo que vai depender da questão do Flamengo crescer em uma reta final. Lembro que em 2009 a gente não tinha começado bem e sofremos pressão, mas a partir do momento em que a torcida e a imprensa começaram a destacar mais os pontos positivos do time, nós começamos a crescer. Quando a gente ia ao Maracanã, a gente já sabia que ia ganhar o jogo, que a torcida ia descer com tudo nos apoiando quando tivesse perdendo, e foi o que aconteceu. Vejo que pode ser assim neste ano, que o Flamengo tem condições de ganhar o título, de ganhar com folga, com pontos à frente, mas depende muito do talento dos jogadores.

E a situação do Atlético Paranaense, na penúltima colocação do Brasileirão. Isso te entristece? Acha que o time consegue se recuperar para não cair?

Ainda é um começo do campeonato, mas não foi o que os torcedores esperavam, também a comissão e próprios jogadores. Mas se você pegar as análises dos jogos, acho que o Atlético conseguiu fazer o que realmente queria, posse de bola, mas pecou, de repente, no último chute, de finalizar melhor.

Como está sendo seu trabalho no Philadelphia Union, com jogadores mais jovens? 

Sou bem respeitado aqui nos EUA, o clube me dá total liberdade para trabalhar com qualquer categoria. Apesar de não estar em uma equipe principal, sempre tenho contato com a comissão técnica do time principal, que joga a MLS. Sou Head Coach, do Philadelphia Union Academy, categoria doze anos, e tem sido uma experiência fantástica. Você vê no olhar deles, o quanto eles te admiram, quando começo a contar histórias, que jogava dentro de campo, dos jogadores em minha volta…A maioria nem era nascido ainda, eles vão muitos pelos vídeos e falam: “poxa, eu vi que você jogou, que fez gol, que jogou com esse jogador, que foi campeão”.

Obrigado, Kleberson, pela entrevista. Que o Brasil passe pela Bélgica! Arrisca um placar?

Eu que agradeço a oportunidade. Coloca aí, 2 a 0 para o Brasil.

PERFIL
Kleberson
Nome: José Kleberson Pereira
Idade: 39 anos
Onde nasceu: Uraí/PR
Clubes onde jogou: Atlético/PR, Manchester United, Besiktas, Flamengo, Bahia, Philadelphia Union/EUA, Indy Eleven/EUA e Fort Lauderdale Strikers/EUA
Títulos com a Seleção: Copa do Mundo (2002), Copa América (2004) e Copa das Confederações (2009)
 

Mais Lidas

Ver tudo ›

    Bem-vindo(a) ao
    Tribuna Online!

    Seu bloqueador de anúncios está ativo.

    A publicidade ajuda a manter nosso jornalismo. Libere os anúncios para apoiar o Tribuna Online.

    Obrigado por apoiar o jornalismo local.