
Na verdade, em um passado não muito remoto, já foi. Hoje, infelizmente, estamos escolhendo a partir de outros critérios.
Em nossa sociedade hiperconectada, seleciona-se pela quantidade de seguidores nas redes sociais, número de curtidas, boa desenvoltura na frente das câmeras e fotos altamente questionáveis e condenadas pelo Conselho Federal de Medicina, como do “antes e depois”.
Isso é fruto da nossa era, do consumo, da busca ao modelo perfeito, do resultado rápido, de estar dentro das tendências. Definitivamente uma perda para a relação médico-paciente, que deveria ser pautada pela empatia, boa conversa e exame físico, para que, a partir daí, diagnóstico e tratamento fossem elaborados de acordo com as necessidades do paciente.
A tecnologia definitivamente não é uma vilã de nossos tempos. No entanto, tem nos proporcionado casos cada vez mais inacreditáveis de relação. Desde consultas por telefone, aplicativos de chat ou videoconferência. O que acaba por queimar etapas importantes para uma avaliação correta e um tratamento seguro.
Na verdade, a tecnologia e a inovação são fundamentais para o progresso da Medicina. Sem elas não conseguiríamos reduzir riscos de cirurgias complexas, tempo de internação e tantos outros benefícios ocorridos nos últimos anos.
Porém, seu uso pode ser deturpado, o que foi comprovado no noticiário das últimas semanas. Pacientes morrendo pelas mãos de profissionais que deveriam proteger suas vidas. Além das formas equivocadas de interação, podemos somar outros fatores que estão formando profissionais com capacidade técnica discutível.
O aumento do número de faculdades da Medicina não vem sendo acompanhado pela formação de bons professores e a criação de hospitais escolas. Assim, o mercado fica saturado com médicos cuja preparação é questionável. Isso gera uma competição cada vez mais feroz e faz com que a busca de pacientes se torne desenfreada e esvaziada de valores éticos e morais.
Outro ponto importante é a falta de regulamentação adequada do Ato Médico pelos nossos parlamentares. Ainda é preciso caracterizar legalmente o campo de atuação do médico, visto que novas profissões passaram a atuar em atividades que, anteriormente, eram exclusivamente médicas.
O lobby desses profissionais que cercam a Medicina e a falta de fiscalização de entidades governamentais e de classe deixam os pacientes mais vulneráveis a erro e risco.
Neste momento, é preciso colocar o pé no freio e reorganizar a casa. Voltar à Medicina que era calcada na base da confiança, como faziam nossos avós. Deixar de lado o modismo e as promessas de milagres que estão sendo propostos nas redes sociais. Retomar as consultas em consultórios primando sempre pela escuta empática, pontualidade e consideração com todas as “dores” dos indivíduos.
É somente assim que vamos fortalecer essa relação entre médico e paciente. Voltar a ouvir e ser ouvido, tocar e ser tocado. Voltar à nossa condição humana e resgatar valores que estão se apagando na sociedade.
Dr. Leonardo Lessa é cirurgião vascular e presidente da Associação Médica do Espírito Santo (Ames)