Criminosos têm aproveitado a melhora no quadro da pandemia e, consequentemente, a volta das festas na Grande Vitória para aplicar diversos golpes, entre eles, o famoso “boa noite, Cinderela”.
Para isso, além de drogas ilegais, golpistas usam remédios de tarja preta e até medicamentos utilizados no tratamento de animais para deixar a vítima inconsciente e, assim, conseguir assaltá-la ou estuprá-la.
O problema todo está relacionado à mistura dos componentes que costumam ser adicionados à bebida alcoólica das vítimas. Segundo a polícia, as notificações mais frequentes envolvem o uso de medicamentos sedativos e ansiolíticos (drogas usadas para reduzir a ansiedade e a tensão, com um efeito calmante).
“O objetivo de quem aplica esse golpe é dopar totalmente a pessoa e essa ação é feita com alguns remédios de categorias diferentes, que, ao serem misturados às bebidas alcoólicas, acabam tendo seus efeitos intensificados, gerando amnésias etc. Todos vão fazer a pessoa perder o discernimento”, explicou o titular da Delegacia Regional de Vila Velha, Marcelo Nolasco.
Entre os locais escolhidos pelos bandidos para aplicar o golpe, o delegado citou as festas noturnas.
“Geralmente, ocorrem em boates, raves e bares. Escolhem as vítimas e, em um momento de desatenção delas, colocam as drogas nas bebidas. Por isso a importância de ficar de olho no seu copo e não aceitar bebidas de outras pessoas”, orientou o delegado.
Pós-doutor em Farmacologia, Thiago de Melo Costa Pereira lembrou de algumas substâncias que são usadas pelos bandidos para dopar suas vítimas, que, segundo a polícia, são na maioria dos casos, mulheres.
“Os famosos remédios de tarja preta, que servem como calmantes, principalmente para quem tem insônia, são os mais utilizados neste golpe. Além deles, há os remédios líquidos, de uso veterinário, como os anestésicos injetáveis dissociativos, indicado para cães e gatos, que também são usados”, aponta o especialista.
Na clínica do psicanalista e doutor em Dependência Química Francisco Veloso, a maioria das vítimas que caíram no golpe foi seduzida em bares noturnos, após ingerir bebidas alcoólicas.
“Essas pessoas falam que não se lembram de nada. O efeito desses remédios que são colocados na bebida é muito forte”, disse.
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Histórias de vítimas
Psicóloga dopada
Uma psicóloga, de 26 anos, teve a péssima experiência de ser dopada por um criminoso após um encontro em um bar da capital, há cerca de um mês.
A jovem, que estava com uma amiga no local e procurou ajuda de uma clínica psiquiátrica depois de ter sido vítima, contou que tomava uma bebida alcoólica leve quando apagou.
Ela relatou ao terapeuta que só se recordava do momento em que ficou desnorteada em uma rua próxima do local onde estava. Com vergonha, não procurou a polícia.
Enfermeira abusada após participar de festa
Após o término de seu relacionamento, uma enfermeira, de 32 anos, decidiu chorar as mágoas da separação em uma festa que aconteceu na Grande Vitória.
No local, ela acabou se encontrando com outras pessoas, que lhe ofereceram uma bebida.
Ao ingerir a bebida alcoólica, a mulher acabou dopada e estuprada.
Ela só foi acordar horas depois do ocorrido e confirmou o abuso ao realizar um exame. O caso foi registrado em delegacia, mas nenhum suspeito foi detido.
Dopada e aliciada em Portugal
Acreditando que iria realizar o sonho, de conhecer e trabalhar em outro país, uma adolescente, na época com 17 anos, foi enganada ao aceitar uma falsa proposta de emprego em Portugal.
Ao chegar no país, a menina foi dopada pelos criminosos, que se aproveitaram do momento em que ela estava fora de si para estuprá-la. Depois disso, a jovem foi obrigada a se prostituir por cinco anos, sendo liberada aos 22, quando voltou ao Estado.
Saiba mais
Golpe do “boa noite, Cinderela”
- Ocorre quando um criminoso coloca alguma substância na bebida, que atua no sistema nervoso central e deixa a pessoa desorientada.
- O objetivo, na maioria dos casos, é roubar ou estuprar a vítima.
Como atua a droga no organismo
Medicamento
- Normalmente, são usados comprimidos de combate à insônia, que possuem efeitos calmantes.
Mistura
- Para conseguir o efeito desejado, os criminosos misturam o remédio na bebida alcoólica, sem que os alvos vejam.
Álcool
- Quando misturado ao álcool, os efeitos do remédio se intensificam. A sonolência fica mais forte, além da perda de memória recente, chamada de “amnésia anterógrada”.
Comandos
- Mesmo sem ter consciência do que está fazendo, a vítima é capaz de obedecer a comandos, como passar a senha do cartão de crédito, dar o endereço e acompanhar o criminoso.
- Depois que o efeito passa, a vítima não se lembra do que aconteceu.
Morte
- Dependendo da quantidade de álcool e também do comprimido, a mistura pode causar uma intoxicação do sistema nervoso central, grave sedação, depressão cardiovascular, insuficiência respiratória e até a morte.
Vítimas
- Segundo a polícia, as principais vítimas deste golpe são as mulheres
- Caso não seja comprovado a finalidade roubo ou estupro, a pessoa responde por lesão corporal por ter agredido a saúde mental da vítima.
Dicas
- Não aceite bebidas oferecidas por estranhos em festas, bares e raves, uma vez que podem conter os medicamentos utilizados no golpe.
- É recomendado ficar sempre atento e segurando o próprio copo enquanto tem bebida, para evitar que substâncias sejam adicionadas em um momento de distração.
- Frequente os ambientes sempre acompanhado de amigos próximos, pois dessa forma é mais fácil se proteger e evitar o golpe.
Fonte: Polícia Civil e especialistas.