|
Texto Auxiliar:
Alinhamento Texto Auxiliar:
Link Externo:
Alinhar à esquerda: false
Alinhar à direita: false
Alinhar ao centro: true
Fullscreen:
Fullscreen Exit:
Estilo:
Sem educação sexual, as crianças estão mais expostas a abusos. Quem garante é a psicóloga, sexóloga e especialista em Educação Sexual Eliane Maio.
“Os abusadores sabem dessa vulnerabilidade, da falta de educação sexual das crianças, e se aproveitam da falta de conhecimento”, ressaltou Eliane.
Por conta disso, a educação sexual é vista como uma grande aliada contra os abusos. O problema, entretanto, é que não existe um canal de diálogo aberto para falar sobre o assunto. O motivo? Os pais também não foram educados sexualmente.
“É muito difícil ensinar aquilo que você não aprendeu. Quase ninguém teve educação sexual. Os pais não falam porque não aprenderam. Além disso, acabam vendo falsas informações sobre educação sexual”.
CONFIRA A ENTREVISTA:
A Tribuna: Qual a importância da educação sexual para as crianças?
Eliane Maio: Somos pessoas, culturalmente falando, sexualizadas. Não nascemos com a sexualidade. E, como somos seres sexuais, precisamos ser educados para isso, pois também somos educados para comer e dormir. Então, aprender a sexualidade faz parte.
Precisamos falar sobre isso de maneira saudável. E não é “falar de ideologia de gênero”, como muitos ainda acham, pois isso não existe. Essa é uma expressão que veio para assustar as pessoas, nos calar e continuar com toda a hipocrisia. Se continuar assim, sem educação sexual, as crianças vão continuar sendo abusadas, a gravidez precoce vai continuar presente, as doenças vão aumentar, assim como casos de abusos.
Uma criança sem educação sexual fica mais exposta a abuso?
A vida mostra sexualidade a toda hora. A palavra mais digitada e verbalizada no Google é “sexo”. Uma criança sem a educação sobre sexo vai procurar na internet por curiosidade, e ela não está preparada cognitivamente e emocionalmente para o que vai encontrar. Ela fica mais exposta para o assédio e o abuso sexual.
O adulto que comete esse ato faz porque sabe que a criança é inocente, pois ninguém educa, infelizmente. Educar é ensinar que todos precisam ter respeito pelo corpo da outra pessoa, que não pode tocar sem pedir permissão. A criança vai aprender essa ética. E vai aprender até a fazer a denúncia, pois muitos casos acontecem em casa.
Quando os pais devem começar a falar sobre o assunto com os filhos?
O primeiro passo é abrir espaço, abrir oportunidade sobre os assuntos. Existem livros fantásticos sobre o tema, que mostram como abordá-lo. Quando na TV, por exemplo, passa uma cena de beijo, não precisa mudar de canal, pois a criança capta que aquele é um assunto que ela não pode conversar sobre. É preciso falar para a criança que, se ela quiser, os pais estão ali para conversar e tirar dúvidas. O problema é que esse canal de diálogo não é aberto.
Cada fase da criança exige uma forma diferente de abordar o assunto?
É como a aprendizagem escolar: não fazemos a alfabetização aos dois anos de idade. São etapas cognitivas que precisam ser respeitadas. Alguns pais relatam que o filho já fez 10 anos e ainda não perguntou sobre o assunto, mas é porque ele já procurou em outro lugar. Se a criança não se sente à vontade para perguntar é porque os pais não abriram espaço, pois uma criança saudável pergunta sobre tudo e ama perguntar.
Tem diferença na forma de abordagem com menino ou com menina?
Não existe nenhuma diferença, pois somos seres humanos. O que nos difere é a parte biológica, a genitália, os hormônios, mas não há diferença para entender sobre o assunto.
Por que os pais ainda têm medo de falar sobre o assunto?
É muito difícil ensinar aquilo que você não aprendeu. Quase ninguém teve educação sexual. Certa vez, em uma palestra, perguntei à plateia quem havia aprendido sobre sexo com os pais. Pouquíssimos levantaram a mão, cerca de 10%. Não existiu o aprendizado familiar, na escola inexistiu, e os pais não vão em busca do assunto. Além disso, acabam vendo falsas informações sobre educação sexual e propagam que não se pode educar.
E na escola, como deve ser?
A escola tem todo o aparato científico. A família traz a informação afetiva, e a escola precisa trazer a informação científica. A criança capta bem isso, é uma aprendizagem para sempre. Na escola, as crianças precisam aprender sobre o corpo humano, inclusive o aparelho sexual.
Na educação infantil, ao trabalhar a parte do corpo, professores apontam o nome do olho, do nariz, da boca, mas pulam o nome dos órgãos sexuais, e quando colocam, é um apelido. Isso não é científico. E, aos poucos, nas fases seguintes, a escola vai falando sobre ética, respeito, sobre não encostar no corpo da outra pessoa sem pedir permissão, sobre respeitar o que cada criança é.
Professores estão preparados para o assunto?
Não podemos falar como é em todo o Brasil, mas pelos estudos que fazemos, avaliando as licenciaturas e as matrizes curriculares, observamos se existe disciplina sobre gênero, sexualidade, como os professores devem trabalhar, e cerca de 80% a 90% dos cursos não trazem nada sobre essa temática.
Sem essa temática, os professores não têm informação para saber trabalhar com isso. E não existe uma formação continuada.