- Vitória, ES 23°C

Vitória 23°C

Anúncio
MUDANÇAS

Mario Sergio Cortella: “Pior do que aprender pela dor, é nada com ela aprender”

Educador, autor de mais de 40 livros, analisou as mudanças provocadas pela pandemia

Última atualização

Já faz mais de dois anos que o mundo foi surpreendido por um vírus e a sociedade teve de se adaptar às mudanças impostas pela covid-19. Foi preciso o isolamento social, o uso de máscaras, o trabalho e escola a distância, isso somado ao medo da contaminação.  

Tais mudanças velozes trouxeram a esperança de que a humanidade pudesse aprender e mudar a forma de se relacionar com o outro e com o mundo, diante do cenário turbulento que a doença trouxe.

Agora, em cenário mais seguro em relação à doença, o filósofo Mario Sergio Cortella, autor de mais de 40 livros, observa que houve aprendizado na sociedade em meio a dores e medos da pandemia. Mas não para todos.   

Cortella esteve em Vitória nesta quarta-feira (29) em um evento para convidados do Sicoob Leste Capixaba com a palestra “Cenários turbulentos, mudanças velozes: negação, proteção ou superação” e falou com a reportagem de A Tribuna sobre dor, medo e otimismo no pós-pandemia. 

    












|













Texto Auxiliar:
Alinhamento Texto Auxiliar:
Link Externo:
Alinhar à esquerda:
Alinhar à direita:
Alinhar ao centro:
Fullscreen:
Fullscreen Exit:
Estilo:


  








“Muitas pessoas alteraram o modo de ser e estenderam a solidariedade e cooperação no seu cotidiano””
Mário Sergio Cortella






|













Texto Auxiliar:
Alinhamento Texto Auxiliar:
Link Externo:
Alinhar à esquerda: true
Alinhar à direita: false
Alinhar ao centro: false
Fullscreen:
Fullscreen Exit:
Estilo:


  

– A Tribuna: Quando se fala em cenários turbulentos e mudanças velozes, não há como não relacionar com a pandemia e o período de confinamento que vivemos. Agora, que parece que o perigo maior já passou, qual a sua avaliação sobre as mudanças na sociedade nesse período? 

Mário Sérgio Cortella: Aprendemos especialmente que não somos tão poderosos como imaginávamos antes, podemos ser vitimados em larga escala. Também não somos tão frágeis como sentimos durante o momento mais desesperador, podemos resistir quando colaboramos na busca da solução. 

Como costumo dizer, o pior modo de aprender é pela dor, mas pior do que pela dor aprender, é nada com ela aprender.

Por isso, nossas fragilidades como sociedade, que ficaram mais evidentes nestes tempos, não perderam vigor agora que temos maior controle sobre a pandemia; é urgente que possamos socorrer as pessoas que estão mais alvejadas pelas circunstâncias atuais.

– O professor disse, no começo da pandemia, que não acreditava que sairíamos transformados, de forma coletiva, desse período. Qual sua opinião hoje? Vê alguma esperança ou acha que, infelizmente, estava certo?

Em algumas convicções na vida é melhor estar equivocado, e esta é uma delas para mim. Gostaria muito que esse prognóstico não se realizasse e, de fato, a coletividade humana saísse do horror pandêmico com valores de convivência mais revigorados.

Contudo, seria ilusório supor que todas as pessoas modificassem a perspectiva egoísta e, amiúde, exclusivista, e passassem a ter uma conduta comunitária generosa. Porém, se não são todas as pessoas, ainda assim, muitas alteraram seu modo de ser e estenderam a solidariedade no seu cotidiano e incorporaram a importância da cooperação para não demolirmos a humanização de nossas vidas.

O luto sofrido por muitos na pandemia pode afetar de que forma a sociedade? Podemos ter a esperança de uma sociedade mais empática?

Não tivemos tempo suficiente para vivenciar com mais carinho e profundidade todos os nossos lutos, dada a emergência advinda dos riscos iminentes e premência dos escapes imediatos. 

Por outro lado, não há como cada e qualquer pessoa passar incólume pelos traumas e dores a sua volta ou nela mesma. A exigência de uma convivência mais empática foi percebida e assimilada por bastante gente.

– Por que, mesmo com a turbulência, ainda é difícil para alguns o exercício de mudanças para um coletivo melhor?

A dificuldade em mudar neste caso, quando é preciso fazê-lo, costuma resultar de duas características em certas pessoas: a tolice intelectual, por não conseguir entender o valor da estrutura comunitária, que se expressa para ela na defesa do “cada macaco no seu galho”. Também a preguiça moral, por não ser capaz de generosidade e partilha. 

– O que as máscaras esconderam durante esse tempo, que será revelado agora com a volta ao novo normal?

O tempo emergencial mais agudo, no qual procuramos em meio à tempestade oceânica manter ao menos a ‘cabeça fora d´água’, permitiu a algumas pessoas esconder variadas dissimulações comportamentais e dribles éticos, dado que as atenções estavam mais voltadas para o urgente; agora começamos novamente a notar incongruências, disparates e despropósitos que ficaram na penumbra.

– No “novo normal”, quais serão os medos da sociedade? 

Ficamos muito impactados com o nosso despreparo para lidar com uma catástrofe sanitária que, de algum modo, se anunciava como possível a partir de estudos e análises anteriores. Penso que o medo mais forte, que resume todos os outros que poderiam emergir, é o medo de não dar tempo agora de nos prepararmos melhor. 

Ficamos décadas olhando para o alto e conjecturando que a maior ameaça viria do “espaço”, em forma de asteroide ou meteoro, por exemplo; nos distraímos com o que já estava entre nós, e o medo de que isso reviva com outras modalidades nos acompanha.

– Coletivamente, levaremos legados deste período?  

O otimismo crítico, isto é, aquele otimismo que não se autoengana com falsas capacidades e nem com aparentes invencibilidades, tem sempre de ser vitorioso. Afinal, a mais robusta marca humana é sermos capazes de procurar enfrentar o que parece não ter saída e derrotar o que se assemelhava impossível. No momento, suponho que o maior legado é a compreensão mais nítida do que escreveu Saint-Exupéry: “Cada pessoa é responsável por todas as pessoas”. 

quem é

Mario Sergio Cortella

 – Um dos filósofos mais conhecidos do Brasil.

– Mestre e doutor em Educação.

– Professor universitário e de pós-graduação. 

– Foi Secretário municipal de Educação de São Paulo (1991-1992).

– Autor de mais de 40 livros com edições no Brasil e exterior, entre eles “A Sorte Segue a Coragem!”,  “Por Que Fazemos O Que Fazemos?”, “Qual é a tua Obra?”, “Filosofia, e nós com isso?”  e “Ainda Dá! A Força da Persistência”.

Mais Lidas

Ver tudo ›

    Bem-vindo(a) ao
    Tribuna Online!

    Seu bloqueador de anúncios está ativo.

    A publicidade ajuda a manter nosso jornalismo. Libere os anúncios para apoiar o Tribuna Online.

    Obrigado por apoiar o jornalismo local.