
“É um trabalho que conversa com pessoas trans. Ele fala sobre nossos diálogos, nossas vivências. Tanto que convidei bastantes pessoas trans”, afirma o artista, que recebe a rapper e cantora capixaba MC Afronta na faixa “Fake City”.
“Fake City”, aliás, reflete, segundo o cantor, que em 2019 participou do reality musical “The Voice Brasil”, da Globo, sobre dificuldades de ser um corpo trans no País.
“A música fala sobre paranoia, que foi algo que passei depois de transicionar. Fala sobre ter medo de apanhar na rua”, diz o artista.
E, nessa “cidade falsa”, a ameaça é constante: “E olha ao redor, olha bem ao redor / ‘Tamo’ num ninho de cobras e pra sobreviver aqui / Ou tu morre ou produz o próprio veneno”, declama Afronta, deixando no ar que a tal “Fake City” pode ser muito bem a cidade de Vitória.
Porém, o trabalho de Dan não se apega apenas ao medo. “’Titan’ tem uma história só: o desenvolvimento de um indivíduo, a sua libertação e medos. Tudo junto”.
Além de MC Afronta, outros artistas ajudam o cantor a contar suas experiências: Pe Lopes, também ex-participante do The Voice, está em “Come”, uma faixa que fala sobre a liberdade.
Em “Foolish”, a cantora Luiza Dutra divide os vocais com Dan numa música que aborda a sagacidade de não ser enganado facilmente. E o apelo pop da faixa não é por acaso.
“Cada música do álbum tem uma pegada. Uma tem mais groove, outra é um trap e há outras folks. Com a Luiza, é um pop. Quis fazer uma faixa de cada estilo para mostrar às pessoas que não estou preso a apenas um estilo”, destaca Dan, que, no EP “Flor de Laranjeira”, lançado em setembro do ano passado, já flertava com a MPB.
E, mesmo que “Fake City” tenha acabado de sair, uma coisa o cantor já definiu. Nos seus próximos passos enquanto artista, a estética do álbum vai ser deixada de lado.
“Depois da transição, minha vida ficou mais tranquila. Sinto que estou mais seguro e mais leve. Levei isso para “Flor de Laranjeira” e a galera curtiu. Agora, quero levar para as pessoas calmaria, a meditação do Dan!”, brinca o artista, deixando claro que o passado, no fim das contas, é apenas passado.
“É uma pretensão minha ser um artista mais virtual”
AT2 O que significa lançar “Titan”, o seu primeiro álbum da carreira?
Dan Abranches Muitas coisas impediram esse disco de acontecer, inclusive a pandemia. Fiz as músicas em 2018 e 2019. Comecei a pré-produção nessa época. Neste ano, eu finalizei. E é um trabalho bem importante para mim como artista e pessoa. E fala muito com o público que eu quero chegar.
Esse é um trabalho que tem várias participações. Por quê?
No processo de produção, no meio do CD, comecei a fazer hormonização e minha voz mudou muito. Muitas músicas, eu não conseguia cantar, e tive que mudar o tom. Mas mantive o tom e chamei pessoas para participar comigo. Convidei a Luiza Dutra, que é uma cantora de MPB, e ela super curtiu. Convidei o Pe Lopes e a MC Afronta, para fazer uma poesia e um pedaço falado também.
A participação da MC Afronta é marcante. Como se conheceram?
Conheci há um ano e meio. Achei que ela tem um talento absurdo. Chamei para somar comigo e ela fez um verso para uma das músicas mais tristes do CD, que fala sobre paranoia e preconceito. Ela veio trazer a vivência dela. Além disso, estou produzindo um beat para ela.
Trabalhar com outras artistas é algo positivo para você?
Eu tenho muito isso: quero juntar com a galera e usar o que a gente tem, usar nossos recursos. Eu mesmo, para produzir minhas músicas, tive que comprar minhas paradas e aprender sozinho. Fiz o CD com os meus próprios meios.
Nem todo mundo tem acesso a um estúdio.
O acesso é bem restrito, é uma parada cara. Muitas vezes, você vai entrar, e vai ter um cara, geralmente um produtor, que não respeita a sua visão. E eu montei minhas paradas para ficar mais livre.
É um artista que já participou do “The Voice” e é conhecido. Então, os feats que faz também ajudam a dar visibilidade a outros artistas.
Para mim, é uma troca. Ter ido ao programa me fez ter um alcance muito alto. Além disso, as pessoas passam a respeitar o seu trabalho. Senti que meu trampo foi levado mais a sério depois do programa. E eu quero que a galera do Estado se una e cresça junto. Quanto mais a gente se misturar, mais a gente vai se espalhar e até sair mais do Estado. Vejo que ficamos muito trancados no Estado porque não existe essa mistura.
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A estética do álbum tem um ar de realidade virtual. Foi intencional?
Sim, a gente quis mesclar o virtual com o real. E é uma pretensão minha ser um artista mais virtual. Quero criar um personagem que vai andando pelo mundo.
Quem é esse personagem? Ou ele é você no mundo virtual?
Por enquanto, sou eu no mundo virtual, mas pretendemos evoluir essa história.
Como quer levar as músicas de “Titan” para o palco?
Curto fazer camadas e camadas sonoras. Sou fã de música progressiva. (Risos) E quis trazer isso para minha música. Esse projeto tem apoio da Secult. Vamos fazer um show de lançamento na primeira semana de setembro. Vai ser uma apresentação gravada, que irá ser transmitida online.