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Estado tem 523 pessoas que tomaram doses trocadas de vacina da Covid

Pelo menos 16,5 mil pessoas vacinadas contra a Covid-19 no Brasil têm registro de primeira dose da vacina da Coronavac e a segunda dose da ...

Estado tem 523 pessoas que tomaram doses trocadas de vacina da Covid
- Aplicação de dose da vacina contra a Covid-19

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Aplicação de dose da vacina contra a Covid-19 (Foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil)

Pelo menos 16,5 mil pessoas vacinadas contra a Covid-19 no Brasil têm registro de primeira dose da vacina da Coronavac e a segunda dose da Oxford/AstraZeneca ou vice-versa, de acordo com o Datasus, sistema de informações do Ministério da Saúde.

Só no Espírito Santo, são 523 casos registrados, colocando o Estado em 9° lugar no ranking, atrás do Paraná, Paraíba, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. 

A maioria (14.791) delas começou a trajetória vacinal contra Covid-19 com a Oxford/AstraZeneca e recebeu uma segunda dose da Coronavac. Uma parte menor (1.735 pessoas) recebeu primeiro a Coronavac e depois a vacina de Oxford/AstraZeneca, segundo o sistema. A troca aconteceu em praticamente todo o país, com exceção do Acre e do Rio Grande do Norte.

Desses mais de 500 casos, no Espírito Santo, 24 pessoas receberam a primeira dose da Coronavac e a segunda da AstraZeneca, enquanto 499 tomaram a primeira dose da AstraZeneca e a segunda da Coronavac.

Em coletiva de imprensa, na manhã desta sexta-feira (23), o secretário estadual da Saúde, Nésio Fernandes, afirmou que o número é baixo, mas que, mesmo assim, a situação é inaceitável.

“Nós temos o levantamento parcial, que representa menos de 0,05% das doses aplicadas. É um indicador muito baixo dessa troca de doses, no entanto não é aceitável que exista nenhuma porque nós temos condições de informar adequadamente aos sistemas do Ministério da Saúde e garantir que a população não tenha troca de imunizantes no momento da aplicação”, afirmou.

Ainda de acordo com Nésio, desde o início do Plano Nacional de Imunização (PNI) contra a Covid-19, o Estado recomendou aos municípios capixabas que as doses aplicadas e marcas das vacinas fossem registradas no sistema do Ministério da Saúde, preferencialmente, no momento da vacinação.

“Porque nós entendemos que o registro posterior das doses ele aumenta o risco de ter informação equivocada ou a perda da informação. Então é importante que os municípios capixabas, que a população, trabalhe junto a sua secretaria municipal de saúde, para que a vacina seja registrada no sistema do Ministério no momento da sua aplicação. Isso reduz muito o risco de cruzamento das doses com marcas diferentes das vacinas”, completou o secretário.

Por meio de nota, a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa) explicou que, nesses casos de troca da marca do imunizante, o Ministério da Saúde orienta que a segunda dose será considerada e o esquema encerrado. 

“O Ministério da Saúde diz que ‘a pessoa que tenha recebido a primeira dose de vacina Covid-19 de um produtor (fabricante) e com mais de 14 dias venha por um erro programático receber uma segunda dose de vacina Covid-19 de outro produtor (fabricante), a segunda dose será considerada e esquema encerrado’”. 

Protocolo Nacional

No Brasil, essas são as duas únicas vacinas disponíveis contra Covid-19. O protocolo nacional estabelece que os vacinados de grupos prioritários devem receber o imunizante disponível no posto no dia da vacinação (sem possibilidade de escolha). Na segunda dose, o fabricante precisa ser mantido.

As informações foram tabuladas pela reportagem no Datasus levando em conta todos os vacinados no país no primeiro mês da campanha vacinal (de 17 de janeiro a 17 de fevereiro) que retornaram para a segunda dose até 8 de abril. É um universo de aproximadamente 4 milhões de pessoas.

Ao todo, 16.526 pessoas foram afetadas no período analisado. Os dados mostram ainda que 7 em cada 10 trocas de fabricantes na vacina contra Covid-19 ocorreram em profissionais de saúde. Esse rastreamento é possível porque cada pessoa vacinada é registrada no Datasus com um código de identificação, no qual há informações sobre cada dose recebida, incluindo fabricante e número do lote.

Misturar dois fabricantes de uma mesma vacina é considerado um erro de imunização. “Quem tomou uma dose de um fabricante e outra dose de outro não tomou nenhuma dose completa da vacina”, afirma a imunologista Cristina Bonorino, professora titular da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e membro dos comitês científico e clínico da Sociedade Brasileira de Imunologia.

As vacinas não só têm intervalos diferentes –o da Coronavac é de até 28 dias, e o da vacina de Oxford/AstraZeneca é de três meses, segundo recomendação da Fiocruz, que a produz no Brasil– como tecnologias distintas.

A Coronavac, produzida no país pelo Instituto Butantan, usa o vírus inativado para levar à produção de anticorpos, a mesma estratégia usada para fabricar as vacinas contra a gripe. Já a vacina de Oxford é do tipo vetor viral não replicante (no caso um adenovírus de chimpanzé) capaz de infectar células humanas, mas que não forma novos vírus, impedindo que a infecção progrida.

Não se sabe ainda se a aplicação de duas vacinas diferentes pode gerar efeitos colaterais distintos dos descritos nos testes de cada imunizante.

Em nota à reportagem, o Ministério da Saúde informou que foi notificado sobre 481 ocorrências de aplicação de doses de fabricantes diferentes das vacinas da Covid-19. “A pasta esclarece que cabe aos estados e municípios o acompanhamento e monitoramento de possíveis eventos adversos a essas pessoas por, no mínimo, 30 dias.”

O órgão, no entanto, não respondeu aos pedidos da reportagem por mais esclarecimentos quanto aos mais de 16,5 mil registros de intercâmbio de fabricantes de vacina encontrados no Datasus.

Segundo a epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin, erros de administração na vacina poderiam ser evitados ou minimizados com uma coordenação maior do PNI (Programa Nacional de Imunização) em termos de supervisão, treinamentos e registros da campanha. “Tão sério quanto essa falta de coordenação é o fato de não haver orientação por parte do programa em como proceder quando essas situações ocorrem.”

Há trocas de fabricantes entre as doses da vacina em 1.645 cidades brasileiras –quase um terço do total de municípios do país. Santo André (Grande São Paulo) lidera o ranking nacional com 2.747 casos. Quase todas as ocorrências (2.739) aconteceram em um único posto de vacinação, a UBS Espírito Santo.

A reportagem esteve no local e contatou a Prefeitura de Santo André, que informou que teve problemas operacionais constantes. “Os mesmos referem-se ao sistema de migração dos dados e já foram reportados ao Programa Estadual de Imunização”. Não ficou claro, no entanto, como esses problemas resultaram em registros trocados de lotes e fabricantes nos vacinados.

O governo estadual São Paulo, por sua vez, disse, em nota, que não registrou problemas operacionais na migração de dados para o Datasus. “Desde a integração dos sistemas, a transmissão das informações recebidas pelo estado de doses aplicadas e registradas pelos municípios ocorre normalmente no repasse ao governo federal.”

A gestão de João Doria (PSDB) reforçou ainda que ministrar a vacina é responsabilidade dos municípios. Uma em cada quatro trocas de fabricantes na vacina da Covid-19 está no estado de São Paulo, num total de 4.471 ocorrências.

Entre as capitais, a cidade do Rio de Janeiro lidera as trocas de doses com 1.136 ocorrências –no estado, há 1.653 casos, de acordo com o Datasus. Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde do Rio disse à reportagem que “não foi notificada sobre trocas de vacinas na segunda dose tanto pelo Ministério da Saúde quanto pelas secretarias municipais de Saúde”.

Depois do Rio, as capitais com mais troca de fabricantes entre as doses são Goiânia (667 ocorrências) e Brasília (520 casos).

Notificações

Os dados do Datasus são preenchidos pelos profissionais de saúde nos postos de vacinação, sob a responsabilidade dos municípios. O Plano Nacional de Operacionalização da Vacina Contra Covid-19 determina que todos os profissionais da saúde que tiverem conhecimento de erros de imunização “devem notificar os mesmos às autoridades de saúde”.

O país tem experiência com vacinas com mais de uma dose. Antes da pandemia, pelo menos nove imunizantes disponíveis no calendário vacinal do SUS tinham mais de uma dose, como a meningocócica C (com duas doses) e a poliomielite (com três doses).

O jornal Folha de S.Paulo havia publicado que mais de meio milhão de brasileiros vacinados com a Coronavac no primeiro mês de vacinação no país não tinham recebido a segunda dose da vacina mais de 45 dias após a primeira dose, o que compromete a imunização.

Três dias depois da reportagem da Folha de S.Paulo, o Ministério da Saúde anunciou em entrevista coletiva que ao menos 1,5 milhão de pessoas que tomaram a primeira dose da vacina contra a Covid desde o início da vacinação no país não completaram o esquema vacinal com a segunda dose, considerando apenas o intervalo mínimo para retorno.

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