A baixa taxa de proteção da vacina da Coronavac em idosos que têm mais de 80 anos, observada em um estudo internacional, com participação da Universidade de São Paulo (USP), abriu um debate nacional sobre a necessidade de revacinação nesse grupo de pessoas.
No Estado, especialistas já avaliam a possibilidade de aplicação da terceira dose neste público.
“É possível que haja necessidade de um reforço da vacina daqui a alguns meses ou ano. Não só por essa questão da eficácia oferecida pela Coronavac e demais vacinas nesse grupo de pessoas, mas também pelas novas variantes que estão surgindo e que não sabemos ao certo se são combatidas pelos imunizantes”, aponta o infectologista Paulo Peçanha.

Acreditando ser importante a dose de reforço da Coronavac em idosos, a também infectologista Ethel Maciel traz um ponto importante para o debate: a falta de doses do imunizante no Estado.
Ela acredita que, antes da 3ª dose na população idosa, toda a população maior de 18 anos deveria ser vacinada, pelo menos, com a primeira dose.
“Acredito sim, que eles (idosos) deveriam receber a 3ª dose, mas nós precisamos vacinar mais grupos, mais pessoas. A vacina é uma estratégia coletiva. Se a gente vacinar mais grupos, vamos diminuir a transmissão”, disse.
O presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, que também não descarta a possibilidade de um reforço da vacina no futuro, diz que é necessário esperar por mais dados para pensar em estratégia de revacinação.
“O estudo não mostrou o grau de proteção do imunizante contra internações e óbitos. Esse resultado vai ser muito mais importante. O que a gente quer ver, na vida real, é como foi a proteção das formas moderadas e graves da doença”.
Enquanto os estudos sobre a eficácia da vacina continuam, o infectologista Lauro Ferreira Pinto chama a atenção para as medidas de prevenção da doença.
“Precisamos ter cautela em relação às medidas de prevenção da doença. Muitos vacinados não estão tendo”, disse o médico.
Butantan diz que não existe necessidade de fazer o reforço
Após a repercussão envolvendo a eficácia da vacina Coronavac, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou, na tarde de ontem, que os idosos não precisarão receber a 3ª dose do imunizante. O imunizante é aplicado atualmente no esquema de duas doses.
Em um vídeo, publicado nas redes sociais, ele garantiu que a Coronavac, vacina desenvolvida em parceria com a biofarmacêutica Sinovac, tem alta eficiência, inclusive para a população idosa.
“Portanto, fiquem tranquilos, a vacina é eficiente e neste momento não existe necessidade de se preocupar com uma terceira dose, como foi propalado recentemente. Isso não corresponde aos fatos”, declarou Dimas Covas.
A afirmação foi feita dias após a divulgação de uma pesquisa, feita por pesquisadores brasileiros, que apontou que a vacina foi 28% efetiva no “cenário mundo real” (de contaminação da doença) contra o novo coronavírus, considerando apenas pessoas vacinadas com mais de 80 anos.
O presidente do Instituto comentou a pesquisa.
“Digo a vocês que todos os estudos que o Butantan tem feito, e são muitos, aqui no Brasil, na cidade de São Paulo, no município de Serrana, no estado do Ceará e no Chile mostram que essa vacina tem uma alta eficiência”, disse.
Chile
No mês passado, um estudo sobre a eficácia da vacina foi realizado no Chile. Ele apontou que o imunizante teve 67% de efetividade na prevenção de casos sintomáticos de coronavírus e 80% para evitar mortes.
SAIBA MAIS
Eficácia varia segundo faixa etária
Estudo
- Um estudo internacional, feito em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) apontou que a proteção da vacina Coronavac cai conforme a idade da pessoa.
- Pelo menos 15.900 pessoas com 70 anos ou mais no estado de São Paulo foram alvos do estudo.
- A taxa de proteção da vacina em idosos acima de 80 anos é de 28%.
Taxas
- Na faixa etária de 75 e 79 anos, a porcentagem aumenta para 48,9%.
- E na faixa etária dos 70 aos 74 anos, para 61,8%.
- Na maioria dos casos, portanto, o indicador foi superior ou muito similar à eficácia verificada nos estudos clínicos do produto no Brasil (50,7%). A maior preocupação é com relação ao grupo de idosos maiores de 80 anos.
Debate
- Um debate nacional sobre a necessidade de revacinação em idosos foi criado após esse estudo.
Especialistas
- No Estado, especialistas já avaliam a possibilidade de aplicação da 3ª dose do imunizante.
- Um dos autores da pesquisa, o infectologista Julio Croda, da Fiocruz, disse que os dados do estudo foram compartilhados com o Ministério da Saúde e que a pasta estuda a necessidade de revacinação do grupo.