
Para algumas famílias parece ser uma ação simples, mas para quem é autista é um grande passo, já que uma das principais características do autismo é a dificuldade de interação.
A mãe já gravava vídeos para a internet para apresentar as roupas que eram vendidas em uma loja que tinha, e após ver a mãe interagindo pelo celular, Maria gostou da ideia.
“Um dos problemas do autismo é também a dificuldade de interação. E ela me vendo fazer vídeos no Instagram, quis falar também, e isso está ajudando muito no desenvolvimento dela”, conta Manuely.
Maria foi diagnostica com autismo ainda bebê. A condição foi descoberta depois que os pais notaram certa agitação da pequena.
“Descobrimos o diagnóstico cedo, e começamos o tratamento logo no início, o que ajuda no desenvolvimento. Eu sentia que ela era muito agitada e não tinha o contato visual ao menos com a família. Chamávamos Maria Clara pelo nome, e ela não respondia. Primeiro precisei lutar para falar sobre o autismo. Foi difícil receber o diagnóstico, porque as pessoas têm preconceito com a síndrome”, lembra a mãe.
Manuely explica que, além de autista, a Maria é hiperativa e tem Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD), que é o transtorno oposto, de tudo dizer não. Para os autistas, os sentidos são mais aguçados, o que provoca as crises que podem ser confundidas com as “pirraças”.
“Ela tem crises, e as pessoas acham que ela está fazendo pirraça. São birras sem motivo, que no caso do autista é pelo nervoso. O som para ela é como se fosse 10 vezes mais alto do que você está ouvindo. O estímulo de luz é muito maior, e uma super lâmpada é como se fosse um farol no olhar dela. Então, ela vai absorvendo isso tudo, cria ansiedade e nervoso, e acontecem os surtos. É no momento de surto que as pessoas acham que é pirraça”.
A mãe conta que mantém uma rotina de terapias com fonoaudiólogo, psicólogo, terapia ocupacional e ABA, que é considerado um dos tratamentos mais completos para o autismo. “As pessoas julgam muito e falta empatia. No autismo, comemoramos desde as pequenas, as grandes conquistas”, diz a mãe.
Com ajuda da mãe, menino conta histórias em um livro

“A ideia de escrever o livro surgiu quando uma amiga minha, que é psiquiatra especialista em autismo, disse que eu devia aproveitar a minha facilidade de escrever para falar sobre o autismo leve, antigo Asperger”, conta a mãe.
“Depois que Raphael foi diagnosticado, algo que eu sempre desconfiei, percebi que eu também podia estar dentro do espectro do autismo e procurei a cada dia ler mais sobre a condição. Eu ainda não tenho diagnóstico, até o momento está em investigação”, disse.
Raphael adorou a ideia de desenhar e escrever o livro junto com a mãe. “Quando percebeu que o livro era sobre ele, ficou mais animado ainda. Ele me relatou coisas do cotidiano dele com a Leonor, que é a melhor amiga dele, e eu fui colocando no papel. Depois li para Raphael, e ele disse que estava bom. Então perguntei se ele queria fazer os desenhos do livro e ele topou”, lembra a mãe.
Com 8 anos, Raphael é considerado um escritor. O livro foi publicado na Amazon, e também é vendido por lá. Já foram mais de 40 exemplares vendidos.
Após aprender inglês sozinho, dublagem vira novo objetivo
O estudante e músico Gabriel da Silva Carvalho, de anos 19, morador de Guarapari, foi diagnosticado com autismo aos 17. Para ele que gosta de música, e já se apresentou em casamento, mesmo com a hipersensibilidade auditiva, foi mais fácil aprender o inglês.
A Tribuna – Como aprendeu a falar inglês sozinho?
Gabriel da Silva Carvalho – Não percebi como eu cheguei na pronúncia fluente. Não teve um passo a passo. Foi no mundo das músicas que passei a aperfeiçoar, cheguei nas pronuncias e nas regras. Os filmes e jogos também me ajudaram muito. Hoje eu assisto filme em inglês e sem legenda. É muito gratificante aprender uma língua nova. É como se você tivesse retirando uma pedra do meu caminho. Só assim é possível ampliar nosso conhecimento.
E como descobriu esse dom da música?
As pessoas gostam da minha voz. Tenho paixão pelo estilo vocal que vai ao extremo da sua voz. Tenho um alcance mais grave. No geral, eu acredito que eu tenho uma voz legal de se ouvir. Cantei em um casamento. Foi difícil me apresentar, mas eu me superei.
Como descobriu o autismo?
Eu tinha 15 anos quando meus pais começaram a suspeitar. Foi depois que o assunto passou a ser mais falado, principalmente na mídia. Tinha algumas características muito similares à comunidade autista, mas eles tinham dúvidas. Meus pais não sabiam como me contar, por medo da minha reação. Na escola, uma professora me direcionou para os especialistas e recebi o diagnóstico aos 17 anos.
O que sentia de diferente?
A hipersensibilidade ao barulho era algo que me fazia muito mal. Tive muitas crises sérias por causa do barulho, e não olho dos olhos das pessoas, porque acho algo muito íntimo. Passei a conhecer mais pessoas autistas, e isso me deixou mais calmo.
Quer fazer dublagem?
No teatro, na área de atuação, eu gostaria de trabalhar com dublagem. É como um jogo de RPG, que vou criar um personagem, fazer a entonação correta. Quero muito fazer dublagem e cursar teatro.
Autismo não é uma doença”
Especialista paramental e assistente terapêutico em ABA (Análise Comportamental Aplicada), Heliomar Jacob de Abreu diz que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não tem cura, mas, com tratamentos, pode ir diminuindo as limitações.
“O autismo não é uma doença, é uma maneira diferente de se comportar. A composição no cérebro é diferente, e com os tratamentos, entre eles o ABA, vamos ajudando o indivíduo a conviver em sociedade”, disse.
Dados publicados pelo Centro de Controle de Doenças e Prevenção do governo dos EUA, do ano passado, apontam que uma entre 54 pessoas no mundo é autista.
Autismo não é uma doença”
Especialista paramental e assistente terapêutico em ABA (Análise Comportamental Aplicada), Heliomar Jacob de Abreu diz que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) não tem cura, mas, com tratamentos, pode ir diminuindo as limitações.
“O autismo não é uma doença, é uma maneira diferente de se comportar. A composição no cérebro é diferente, e com os tratamentos, entre eles o ABA, vamos ajudando o indivíduo a conviver em sociedade”, disse.
Dados publicados pelo Centro de Controle de Doenças e Prevenção do governo dos EUA, do ano passado, apontam que uma entre 54 pessoas no mundo é autista.
ANÁLISE
Toda e qualquer criança requer, em algum momento, ser incluída

Hoje nós temos a Lei nº 12.764, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. A medida faz com que os autistas passem a ser considerados oficialmente pessoas com deficiência, tendo direito a todas as políticas de inclusão do País entre elas, as de educação.
A inclusão é importante tanto para a criança com autismo, como para qualquer outra, com ou sem necessidade educacional especial. Toda e qualquer criança requer, em algum momento, ser incluída”.
Thadyla Piumbini, psicóloga e pós-graduanda em Neuropsicologia e Reabilitação