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“Não podemos ser prisioneiros dos desejos dos outros”

Tentar agradar as pessoas ao redor é uma tendência natural do ser humano e que cumpre função social. Atender às vontades dos outros a qualquer custo ...

Lourenço afirma que a entrega plena pode minar a felicidade individual

Última atualização

Tentar agradar as pessoas ao redor é uma tendência natural do ser humano e que cumpre função social. Atender às vontades dos outros a qualquer custo que é o problema, pois a pessoa acaba se tornando prisioneira dos desejos alheios.

Foi avaliando esse comportamento que o neurocirurgião Leonardo Lourenço traçou um paralelo com o Gênio da lâmpada da história do Aladim, que está descrito em seu livro “Síndrome do Gênio da lâmpada”.

Lourenço afirma que a entrega plena pode minar a felicidade individual (Foto: Divulgação)Para o médico, todos têm em si um pouco do personagem mítico. É o agir de modo a atender as expectativas dos outros enquanto sufoca a própria liberdade.

“Temos tendência a dar importância às relações sociais”, afirma o neurologista, que destaca que isso não é necessariamente ruim.

“A grande questão que pode trazer sofrimento é estar aprisionado compulsivamente e sem escolha real”, acrescenta.
Leonardo então propõe uma autoavaliação para entender o porquê de se submeter aos desejos dos outros.


QUEM É


Leonardo Lourenço

  • Médico neurocirurgião, comunicador e consultor de neurociência.
  • Especializado em neurocirurgia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, com especializações hospitalares pela Harvard Medical School e Mayo Clinic.
  • Membro titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, da Sociedade Brasileira de Coluna e da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor.
  • Autor dos livros “Síndrome do Gênio da Lâmpada” e “Noocídio: quem sou eu sem os meus problemas?”.

A Tribuna – O que é a “síndrome do gênio da lâmpada”?

Leonardo Lourenço – A ideia do livro surgiu em uma conversa despretensiosa com uma amiga sobre a histórica do Aladim, nessas situações em que refletimos de forma imaginária o que pediria se tivesse direito a três desejos: se faria pedido egoísta ou altruísta, pensando em algo para a humanidade, se usaria um, dois ou os três desejos…

Ao longo da conversa me deu um estalo de que nunca na minha vida (apesar de já ter refletido sobre os pedidos antes) me coloquei no lugar do gênio. Ele é o personagem que tem todos os poderes do mundo para atender pedidos dos outros. Ao mesmo tempo, é prisioneiro de uma maldição e não tem felicidade em si mesmo.

A ideia da síndrome é descrever o quanto nós temos esse modo de agir semelhante ao Gênio, de atender as expectativas dos outros e que sufoca a própria liberdade. Entregar pedidos além do que seria a própria capacidade e o quanto sofrimento gera ao se colocar em uma situação como essa.

O meu livro “Síndrome do Gênio da Lâmpada” pega tanto a parte literária quanto a mitológica, desde mitologia árabe e muçulmana até a atualidade, chegando ao Aladim da Disney. Em paralelo com a parte da neurociência com exemplos reais.

Pode explicar a relação desse comportamento com a neurociência?

Existem vários aspectos que mostram essa relação. Posso citar, por exemplo, o viés de conformidade, um jeito mental tendencioso de ver as coisas. É a nossa tendência agregar a opinião e os valores do grupo no qual estamos imersos.

Isso vem da questão do ser humano ser basicamente social. Nossa vida ocorre em grupo, clã, família… Desde quando o homem começou a se desenvolver como espécie. Trata-se da força de bando.

Cem mil anos atrás, o homem tinha o cérebro não muito diferente de hoje. Se a pessoa fosse por algum motivo excluída do grupo, suas chances de sobrevivência cairiam muito.

Por isso, temos tendência a dar importância às relações sociais. Assim, aceitamos nos submeter a regras, convicções e paradigmas para nos sentirmos incluídos.

A questão é como transitar entre o se sentir socialmente integrado, mas sem comprometer a individualidade. É o que metáfora do Gênio vem descobrir.

Então agir assim é natural de todos, certo? E existe um perfil de pessoa com maior inclinação para isso?

As duas coisas estão corretas. Existe tendência natural humana disso acontecer, desde bem cedo. Nascemos em uma família e, dentro deste grupo, somos “convidados” a ocupar certo lugar, empurrados para “dentro da lâmpada”.

Muitas vezes, a família vê conveniência de que alguém ocupe o papel de submisso para outros descarregarem a raiva. Em outros, alguém tem o papel de coitado para que outros membros cumpram papéis de salvadores. Ou um “doido” na família para os outros significa sanidade atestada.

A questão de pertencimento vem junto com certas obrigações implícitas. Mas isso naturalmente vai acontecer de acordo com dinâmica do sistema.

Essa marca fica na pessoa por muito tempo até que ela refaça o personagem. A depender da característica pessoal, alguns vão ter mais ou menos inclinação de ficar “preso dentro da lâmpada”. Ou vão ter maior ou menor habilidade para se libertar.

Só que entendo que é impossível ter alguém que não padeça de alguma forma “dentro da lâmpada”.

Existem então aspectos positivos e negativos. Qual o limite? É se sentir “prisioneiro”, como um gênio da lâmpada?

Nenhuma função na qual entramos compulsivamente é completamente negativa ou positiva. A grande questão que pode trazer sofrimento é estar aprisionado compulsivamente e sem escolha real.

Uma vez me questionaram se o fato de atender solicitação não poderia ser visto como ato de compaixão e altruísmo. Sim, pode sim. Existem aspectos bons. A questão é o quanto de livre-arbítrio tem na entrega.

A entrega pode minar a felicidade individual e dificultar a possibilidade de ter uma vida mais plena e próspera. A ideia não é não ajudar, e sim avaliar quais pedidos atender sem ferir a própria liberdade, garantindo o protagonismo na própria vida.

Como se libertar do aprisionamento?

A primeira pergunta a se fazer para sair da lâmpada é “por que continuo aceitando a me submeter a esse personagem?”. Por mais que tenham questões negativas, esse “dentro da lâmpada” pode trazer sensação de segurança, de identidade, de personalidade. Isso torna conveniente estar aprisionado.

Quando perguntamos o porquê, vemos também que essa situação afeta oportunidades boas, que se perdem por estar fixo nesse papel. Somos impedidos de progredir para um estágio maior ou de compartilhar uma coisa boa porque estou confinado. Nenhum de nós tem culpa por ter se metido dentro da lâmpada; isso ocorre devido a aspectos biológicos, familiares, sociais e culturais.

Quando se torna sufocante estar nessa posição, aí sim vem as questões “como e o que faço para sair?”. Aí é hora de começar a desfazer condicionamentos; olhar para a própria história sob uma diferente perspectiva.

O que mais as pessoas podem descobrir a partir dessa nova percepção?

Como muitas vezes, sem perceber, escondemos a nossa alegria. Isso porque achamos que, ao sermos felizes, podemos amplificar a tristeza do outro. Então nos silenciamos. Mas, na realidade, quando somos felizes, é como se déssemos uma autorização social para que todos se libertem de suas lâmpadas.

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