Mesmo após a aplicação da segunda dose da vacina contra a Covid-19, as pessoas devem manter o distanciamento e o uso de máscara, além de outras medidas para evitar a disseminação do coronavírus.
É o que explica a médica Ana Paula Burian, infectologista, pediatra e coordenadora do Centro de Referência de Imunobiológicos Especiais (CRIE/ES).
Ela afirma ainda que países onde as pessoas se vacinaram e voltaram a aglomerar estão tendo novas ondas de contaminação do vírus.

“A Organização Mundial da Saúde (OMS) se refere a duas grandes coisas que mudaram a expectativa de vida. Uma foi o acesso à água potável e a condições de saneamento. Depois vieram as vacinas. Pessoas morriam com diarreia; hoje tem vacina para rotavírus. O mesmo com outras doenças”.
Em entrevista à reportagem de A Tribuna, Burian pontuou as dificuldades que o Brasil enfrenta para vacinar a população contra diferentes doenças e a importância de superar esses obstáculos.
A Tribuna – Neste momento, qual tem sido o maior desafio da campanha de vacinação contra Covid-19?
Ana Paula Burian – O maior desafio é as pessoas entenderem que precisam tomar as duas doses e manter os quatro passos de proteção contra a Covid: vacina, uso de máscara, distanciamento social e hábitos de higiene.
No mundo inteiro, países que estão obtendo sucesso são os que estão seguindo os quatro passos. Onde se vacinaram e voltaram a aglomerar estão tendo novas ondas de contaminação. Após a vacina é preciso manter o distanciamento
Sobre uma vacina ser melhor que outra, qual a sua opinião?
Temos vacinas em diferentes perfis de eficácia e de reação. Entretanto, a escolha da vacina nesse momento atrapalha muito.
Quando, em 2017, teve o surto da febre amarela, eram dois laboratórios produtores da vacina e ninguém nem se lembra quais eram. Ninguém escolheu qual vacina tomar.
Era simplesmente ir direto para a primeira vaga que surgisse. A discussão agora está indo para o âmbito político. A ciência não pode se misturar com a política na hora de definir fatos sobre problemas de saúde.
Naquele momento, conseguimos não misturar ciência e política, deu supercerto e nos livramos da febre amarela com uma campanha de vacinação ágil e célere.
Qual a orientação para quem teme ter reações?
Toda vacina pode dar reação. A grande maioria das pessoas não tem reação nenhuma ou tem leve, que seria dor no local da vacina, o braço ficar inchado ou avermelhado, febre baixa ou dor no corpo. Eventualmente vão ter dor no corpo mais intensa, febre mais alta ou sintomas mais importantes.
Quando se aplicam poucas doses, é raro ver uma reação mais importante. Quando se aplicam centenas de milhares de doses, o raro passa a ser visto com mais frequência.
Estudos mostram que, mediante os riscos da doença da Covid, a vacina é amplamente indicada.
Também temos de que lembrar que a vacina acaba sendo refém do sucesso do trabalho dela.
O que isso quer dizer?
À medida que a gente vai vacinando e alcançando o sucesso em eliminar aquela doença, as pessoas vão deixando de temer a doença e de se preocupar com a vacina. Entretanto, há doenças que ainda acontecem no nosso meio que não chegam à população de massa.
Por exemplo, ainda se morre de tétano no Brasil; tem câncer de fígado por doença hepatite B; tem casos de câncer de colo de útero, de laringe e de pênis por HPV; tem óbitos por influenza.
Muitos casos poderiam ser prevenidos com vacinas que são oferecidas gratuitamente nos postos de saúde.
Quais as consequências de não se vacinar?
Quando as pessoas não se protegem, a gente começa a ver casos. Em 2020, mesmo com todos trancados em casa, o Brasil teve em torno de 8,5 mil casos de sarampo com mortes de crianças.
O Brasil já tinha conseguido certificado de erradicação do sarampo. Só que pela baixa cobertura vacinal, a doença se alastrou de novo. Tem doenças que são de ação imediata e outras mais tarde.
No caso da gripe, é uma doença respiratória que gera busca por consulta médica e que confunde o diagnóstico com Covid. Se estivesse vacinada, ficaria até mais fácil fazer o diagnóstico diferencial.
A HPV, por exemplo, pode ter verrugas de forma imediata e evoluir para câncer daqui 20 anos. A hepatite B pode evoluir com cirrose ou câncer de fígado anos à frente.
A OMS se refere a duas grandes coisas que mudaram a expectativa de vida. Uma foi o acesso à água potável e a condições de saneamento. Depois vieram as vacinas. Pessoas morriam com diarreia; hoje tem vacina para rotavírus. O mesmo com outras doenças.
O que tem feito cair a cobertura vacinal?
A queda na cobertura vacinal tem acontecido em uma progressão desde 2017 e preocupa muito o Programa Nacional de Imunizações em função de vários fatores.
O agendamento de vacinas dificulta o acesso, seja porque não consegue agendar ou porque um idoso ou uma pessoa mais humilde não tem acesso ou domínio da tecnologia; os horários de vacinação de algumas unidades não favorecem quem trabalha fora; campanhas de divulgação já não acontecem mais como antes; entre outros fatores.
Sempre que se vê óbito por uma doença, todo mundo se desespera. É isso que está acontecendo com a Covid. Só que ninguém está buscando a vacina contra a gripe. E vamos ter problema por isso.
Qual é a cobertura ideal?
Cada vacina tem um número aproximado. Na grande maioria é acima de 90% do público. Já alcançamos esse sucesso no passado, mas vêm caindo há algum tempo.
Também importante é que a cobertura seja homogênea. Não adianta vacinar um prédio inteiro e o prédio do lado só vacinar 30%. A doença continua circulando.
Qual informação mais é importante passar às pessoas?
É muito importante divulgar os Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (Crie). O Crie é um projeto do Ministério da Saúde desde 1993. Aqui no Espírito Santo só temos um e ainda liberamos vacinas para o Estado inteiro.
Todos nós já fomos ou seremos pacientes dos Cries em algum momento.
Os centros oferecem vacinas para doentes crônicos, adultos e crianças, com calendário especial de vacinação para cada doença. Ou seja, que é de acordo com as vulnerabilidades que aquela doença provoca.
Esse é um serviço que grande parte da população não conhece.