A violência e os maus-tratos contra a população idosa no País chamam atenção pelo alto número de casos registrados. De julho de 2020 até o dia 17 de outubro deste ano, o Disque 100, do Ministério da Mulher e dos Direitos Humanos, recebeu 106.860 denúncias de violação contra este público, identificando pelo menos 376.584 violações.
No Estado essa realidade não é diferente, já que nos últimos dez meses pelo menos 558 registros de violência contra idosos foram feitos nas delegacias capixabas. O número equivale a dois casos por dia, segundo a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp).
Entre as principais formas de violência estão a física, com 505 casos, maus-tratos (42) e abandono (11). Essa última prática violenta, inclusive, teve aumento em relação ao mesmo período de 2020, quando foram registrados nove casos.
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Atuando diretamente com pessoas idosas, a assistente social da Prefeitura de Vila Velha Andrea Guignoni acredita que o número de casos deste ano, principalmente os de violência financeira e física, esteja relacionado com a pandemia de covid-19.
“A pandemia causou muito desemprego e os únicos que não perderam suas rendas foram os idosos. Então, muitos integrantes de diversas famílias se aproveitaram disso, provocando violência financeira contra idosos”, disse Andrea.
Já a coordenadora dos Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos da Serra, Roseane Costa da França, disse que, “com a pandemia, a violência financeira se agravou muito, mas o acesso à informação tem feito com que muitas pessoas denunciassem os casos às prefeituras e à polícia”.
Na maioria dos atos praticados contra pessoas acima de 60 anos, o crime é cometido por algum familiar e dentro da casa das vítimas. Por esse motivo, a secretária municipal de Assistência Social de Vitória, Cintya Schulz, julga necessário uma atenção maior não só aos idosos, mas também às famílias.
“A nossa preocupação é sempre com a família, porque são eles (integrantes) que vão dar assistência, suporte, aos idosos. Precisamos fortalecer os vínculos afetivos desses familiares”, afirmou.
Disque 100: mais de 2 mil denúncias
Em apenas um ano e três meses, o Disque 100, do Ministério da Mulher e dos Direitos Humanos, recebeu 2.232 denúncias de violências praticadas contra idosos no Espírito Santo.
A partir dessas denúncias, foram descobertas 5.053 violações praticadas contra idosos no Estado. Em todo o País, o órgão recebeu 106.860 denúncias nesse período.
Coordenadora dos Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos da Serra, Roseane Costa da França vê com bons olhos o número de denúncias, uma vez que isso significa que os casos estão sendo cada vez mais notificados.
Para que mais denúncias cheguem ao município, Roseane informou que a Prefeitura da Serra tem atuado de forma preventiva.
“Temos informado sobre os direitos deles (idosos), bem como toda a sociedade, por meio de reuniões, palestras, e assim temos buscado fortalecer os vínculos das famílias”, explicou.
Além dos Centros de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), que prestam apoio necessário aos idosos por meio de núcleos, o município conta com quatro casas de acolhimento.
Dentre os atendimentos feitos pelos núcleos, 41% foram vítimas de negligência e/ou abandono; 23% exploração financeira e 19% violência intrafamiliar.
Outros casos
Idosa é vítima da própria sobrinha
Uma senhora de 75 anos, moradora da Praia da Costa, em Vila Velha, foi vítima de violência financeira praticada pela sobrinha. O caso chegou à assistência social da prefeitura por meio de denúncias. Foi descoberto que a familiar pegava o cartão de aposentadoria da idosa e não usava o dinheiro para comprar alimentos e remédios para a vítima.
Casal sofre negligência, mas recebe assistência
Um casal de idosos, uma senhora de 79 anos e o marido, de 80, está sendo atendido por um grupo de assistentes sociais de Vitória após denúncias de negligências. O idoso, que está acamado, era cuidado pela mulher, mas ela desenvolveu doença degenerativa e não consegue dar apoio ao marido.
O casal tem um filho, que reside na mesma casa. Porém, ele não contribui para questões básicas, como alimentação e higiene.
Maus-tratos do filho à mãe cadeirante
Uma senhora cadeirante de 73 anos, moradora da Serra, foi vítima de maus-tratos, cometidos pelo próprio filho, de 39 anos. Ele era quem administrava o dinheiro da aposentadoria da vítima, mas usada para outros fins.
Revoltados com as condições em que vivia a idosa, moradores denunciaram o caso à assistência social do município.
CRIMES RECORRENTES
Negligência
Falta de atenção às necessidades da pessoa idosa, colocando em risco a vida ou a saúde dela, por meio de condições degradantes ou privação de alimentos ou cuidados indispensáveis.
Violência psicológica
Caracterizada por insultos, ameaças e outros tipos de agressões verbais e gestos que afetam a autoimagem, a identidade e a autoestima do idoso.
Violência física
Caracteriza-se por provocar dor, golpear, lesar, causando várias consequências para a vida da pessoa idosa, como perda ou abuso dos direitos humanos, o medo e a depressão.
Violência financeira
Exploração da renda e apropriação do patrimônio do idoso, às vezes obrigando-o a contrair empréstimos e outras dívidas ou a se desfazer de seus bens.
Abandono
Abandono de incapaz ocorre contra quem não tem capacidade de exercer a vida civil de maneira autônoma, não só idosos como crianças e deficientes mentais.
Principais motivações
Atritos familiares, interesse financeiro por parte de quem comete o crime.
Perfil das vítimas:
Têm entre 60 e 90 anos.
Boa parte são do sexo feminino.
A maioria vive com filhos e irmãos.
Quem são os autores?
Familiares, irmã, irmão e filhos.
558 casos de violência e maus-tratos contra idosos no Espírito Santo foram reportados à Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), por meio de boletins de ocorrência de janeiro a outubro deste ano.
Entre os principais atos de violência sofridos está a física, com 505 casos, maus-tratos (42) e abandono (11). Essa última prática violenta teve aumento em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram registrados nove casos, segundo dados da Sesp.
Fonte: Sesp e especialistas