No Brasil, a mamografia é o único exame cuja aplicação em programas de rastreamento apresenta eficácia comprovada na redução da mortalidade por câncer de mama. A demora em realizar esse exame pode atrapalhar um possível tratamento.
No Espírito Santo, porém, uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE-ES) constatou que há municípios em que as mulheres esperam mais de 60 dias para fazer a mamografia.
A auditoria revela que, nos últimos quatro anos, municípios capixabas realizaram quantitativo inferior de mamografias, considerando a população-alvo atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Dos 225.058 exames realizados entre 2017 e 2020, em mulheres de 50 a 69 anos, 98.517 demoraram mais de 60 dias entre o pedido de solicitação e a emissão do laudo, ou seja, 43,8%. Neste quesito, o Espírito Santo é o estado com a 4ª pior colocação nacional.
A auditora de Controle Externo do TCE-ES, Maytê Aguiar, explicou que, normalmente, na saúde, são adotados indicadores padronizados em todo o País, como o tempo de até 60 dias para realizar uma mamografia de rastreio.
“Esse indicador nos mostrou que 43,8% dos exames são feitos após esse prazo. É uma quantidade muito grande, quase metade dos exames que estão estourando esse prazo”, observou Maytê, que é coordenadora do Núcleo de Avaliação e Monitoramento de Políticas Públicas de Saúde do TCE-ES.
Ela explicou ainda que a mamografia de rastreamento é agendada e feita pelo município.
“Quando a paciente tem algum sintoma e é pedido o exame, é um caso de mamografia diagnóstica. A paciente entra no sistema do Estado e aí vai para o especialista. O foco da auditoria é a mamografia de rastreamento”.
Analisando a proporção de exames feitos nos últimos quatro anos, o tempo de espera entre a solicitação e a realização do exame e também entre a solicitação e a entrega do resultado, foram selecionados os municípios que tiveram os piores resultados em, pelo menos, dois dos três critérios avaliados.
São eles: Atílio Vivácqua, Fundão, Iconha, Jerônimo Monteiro, Mantenópolis, Mimoso do Sul e Muqui.
Maytê destacou que os municípios foram visitados. “Eles serão notificados e voltaremos para saber se houve melhora”, disse.
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Atraso aumenta o risco de morte por câncer de mama
A demora em realizar um exame de mamografia pode aumentar os riscos de morte por câncer de mama. Um estudo mostrou que um atraso de oito semanas na cirurgia desse tipo de tumor eleva o risco de morte em 17%; e de 12 semanas, em até 26%.
A oncologista Arianne Velasquez ressalta que a mamografia é o exame-chave para um diagnóstico precoce. “O autoexame e o conhecimento do nosso corpo são importantes para detecção de alguma alteração recente. No entanto, quando identificado um nódulo na palpação da mama significa que o mesmo já tem um tamanho equivalente a dois centímetros ou mais, o que pode levar a um tratamento mais agressivo e/ou a redução da chance de cura”, alerta.
“Precisamos que a população, assim como chefes de estado, tenham essa consciência de ter acesso rápido à mamografia”, destaca. A mastologista Janine Martins Machado, da Neon, pontua que, apesar de o Ministério da Saúde recomendar a mamografia de rastreamento para mulheres de 50 a 69 anos, esse perfil já restringe bastante o número de pacientes que deveriam fazer a mamografia.
“A Sociedade Brasileira de Mastologia coloca que, a partir de 40 anos, toda paciente deveria fazer uma mamografia de rastreio”. “A mamografia não imuniza as pessoas, porém, vamos chegar a um diagnóstico precoce. Se a paciente não faz a mamografia, eu diminuo o tratamento minimamente invasivo e parto para tratamentos mais agressivos”.
Para a oncologista Sabina Aleixo, o problema da atenção primária é não ter fluxo definido e fazer o rastreamento só quando a pessoa procura. “O ideal seria um rastreamento organizado, chamando a população da faixa etária preconizada para fazer os exames anuais”.
Um milhão de mulheres deixaram de fazer exame
No ano passado, cerca de 1 milhão de mulheres no País deixaram de realizar o exame de mamografia.
Os dados são da médica e coordenadora de Prevenção de Doenças Crônicas e Controle do Tabagismo do Ministério da Saúde, Patrícia Izetti. A informação foi passada ontem, durante o 8º Congresso Brasileiro Médico, Jurídico e da Saúde, realizado em Vitória.
“Percebemos que, ao longo de todo o ano de 2020, o número de exames e consequentes diagnósticos caiu drasticamente e, em sua maior parte, por conta do medo da população, que evitou ir aos postos de atenção primária à saúde”, afirmou Patrícia.
De acordo com a médica, esse número deve se reverter neste ano, pois gráficos já mostram um aumento do número de exames realizados.
Segundo a auditora de Controle Externo do Tribunal de Contas do Espírito Santo, Maytê Aguiar, mais de 40% das mamografias no Estado são realizadas no último trimestre do ano. “Isso mostra que há um empenho maior, em outubro, dos gestores em ofertar e as mulheres se conscientizam da importância do exame”.
Em Vitória, a prefeitura informou que oferta uma média de 830 exames de mamografia por mês. Em Cariacica, há vagas disponíveis para o exame num prazo de cinco a 20 dias a partir do agendamento.
Na Serra, o tempo médio de espera é de 30 dias. Já em Vila Velha, são ofertadas 1.500 vagas mensais para mamografia.
Saiba mais: os agendamentos nos municípios
Vitória
Para realizar a mamografia, a paciente passa por atendimento em sua unidade de saúde, que efetua o pedido para, posteriormente, ser agendado.
Cariacica
As mamografias são agendadas diretamente pela Unidade Básica de Saúde, com vagas disponíveis para um prazo de cinco a 20 dias a partir do agendamento.
Serra
As pacientes podem procurar a unidade de saúde mais próxima de sua residência para agendamento.
Vila Velha
A Prefeitura informou que são ofertadas 1.500 vagas mensais para mamografia nas unidades de saúde do município.
Fonte: Prefeituras consultadas.