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Conviver e enfrentar uma depressão é difícil em qualquer período da vida, mas na gestação pode ser ainda mais complicado.
Segundo a psicóloga e mestre em Psicologia Joanna Fernandes Reblin Maretto, a chegada de um filho traz diversas mudanças para a vida dos familiares, principalmente para a mulher, e o pré-natal psicológico é fundamental para cuidar do emocional dos envolvidos.
A Tribuna – Como é feito o pré-natal psicológico?
Joanna Fernandes – Ele é muito individual de cada profissional. Mas a ideia central é que a gestante possa se preparar não só fisicamente, que é quando ela realiza o pré-natal com o ginecologista, mas também emocionalmente para a chegada do filho.
É importante ressaltar que o preparo é para toda a família. Então o pré-natal psicológico, apesar de ter um foco maior na mulher, também envolve o pai, os avós e todos os familiares envolvidos naquele nascimento.
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Então o foco do pré-natal psicológico é a prevenção?
Exato! A ideia é prevenir o adoecimento psíquico no geral, desde a depressão pós-parto até os transtornos de ansiedade e psicose, por exemplo. Então nós trabalhamos questões envolvendo as mudanças que ocorrem com a chegada do filho e os impactos que serão sentidos, principalmente em relação à expectativa. A maternidade ainda é muito romantizada, como se tudo fosse simplesmente lindo e perfeito, mas a verdade é que é muito difícil. Então nós usamos esse apoio psicológico para alinhar as expectativas com a realidade.
As mulheres devem fazer o pré-natal psicológico mesmo sem se sentirem deprimidas?
Sim. Principalmente aquelas que já possuem histórico de quadros anteriores de ansiedade e depressão. O histórico aumenta a probabilidade de a mulher desenvolver o transtorno.
Por que a depressão durante a gravidez é mais complicada?
Principalmente pelas mudanças de vida que acontecem com a chegada do filho. Afinal, a mulher vai ser responsável por uma outra vida e isso potencializa os sentimentos. Ela começa a se questionar muito, tanto em relação a sua carreira quanto as suas escolhas. Como vai retornar ao trabalho, como vai ser sua rotina com o nascimento da criança, entre muitas outras questões. As mudanças que ocorrem são muito grandes e afetam diretamente as novas mamães.
A pandemia aumentou o número de gestantes com depressão?
Aumentou sim, tanto em relação à ansiedade quanto depressão. Num primeiro momento foi pelo desconhecido, a gente não sabia quais eram os impactos tanto no bebê quanto na gestante. Depois tiveram vários casos graves de gestantes com covid, então o medo sobre o que poderia acontecer com a saúde de ambos aumentou muito.
Além disso, teve também a questão do isolamento social. O fato das mulheres precisarem ficar distantes da família, não tendo ninguém por perto na hora do nascimento ou visitando nos primeiros dias, trouxe um impacto emocional muito grande.
Há dados sobre casos de depressão durante a gravidez?
Em torno de 15% das mulheres sofrem com a depressão perinatal.
Quais os principais sintomas da depressão gestacional?
Para a depressão ser diagnosticada é necessário ter um conjunto de sintomas. Além disso, varia muito para cada mulher.
No geral, há uma perda de vontade para fazer as coisas, tristeza e falta de apetite. Também pode ocorrer a não vinculação da mãe com o bebê, quando ela não sente vontade de cuidar do filho, ou quando sente que não existe nenhum vínculo com a criança. Esses são os sintomas mais comuns.
Existe uma tristeza que acontece após o parto chamada blues puerperal. Qual a diferença dela para a depressão?
Na primeira semana de vida do bebê, entre 50% e 85% das mulheres sentem uma melancolia, e apresentam um choro que elas relatam não saber o motivo.
Esse momento é conhecido como blues puerperal ou baby blues ou, ainda, tristeza materna. Sua base é hormonal, sendo um momento de adaptação ao evento ocorrido, ou seja, o parto. Além disso, é também um momento de adaptação a essa nova rotina de cuidados de um recém-nascido. Dura em torno de 14 dias e o tratamento é apoio e compreensão.
Já a depressão pós-parto pode acontecer ao longo do primeiro ano de vida do bebê, tem duração maior do que 14 dias e tem forte relação com o contexto social das novas mães. Nesses casos, é necessário o acompanhamento profissional e, em muitos casos, o uso de medicação.
Há um projeto de lei em tramitação sobre tornar obrigatório nas unidades de saúde o atendimento psicológico durante a gestação?
Sim, esse projeto agora está para votação no Senado. O principal foco é prevenir o adoecimento dessas gestantes. Então a ideia é que sejam feitas consultas de triagem para mulheres que apresentam predisposição para desenvolver transtornos de ansiedade ou depressão.
Qual o perfil das mulheres que possuem a predisposição?
Mulheres que estão enfrentando problemas financeiros ou conflitos familiares, aquelas que não estão recebendo apoio adequado ou estão em gestação solo, quando não têm o apoio do pai da criança.
Tem também aquelas que já possuem algum histórico de transtornos, como já citei. Esses são os fatores que a gente chama de fatores de risco.
O auxílio psicológico deve ser feito apenas durante a gestação?
Depois também! Durante a gestação esse auxílio psicológico é mais preventivo para que possamos rastrear as mulheres que têm maior predisposição. Para essas mulheres, principalmente, é fundamental que aconteça o acompanhamento depois do nascimento da criança.
A depressão perinatal, sem tratamento, pode afetar a relação entre a mãe e o bebê?
Pode sim! Muitas vezes a mãe não tem forças para cuidar do bebê ou não consegue se vincular emocionalmente ao filho. A gente sabe que o vínculo inicial é muito importante para a criança. Mas uma mãe com depressão vai ter mais dificuldade de criar esse vínculo.
Como é o tratamento?
O tratamento depende do grau. Às vezes é feito com psiquiatra e uso de medicamentos, mas a psicoterapia é fundamental.
Tem algo que você gostaria de ressaltar?
Acho importante frisar essa parte preventiva. Não é só para as mulheres que apresentam a depressão, é para mostrar esse processo de forma mais consciente. A chegada do filho traz muitas mudanças e refletir sobre essas mudanças é muito importante para o momento pós-parto.
QUEM É
Joanna Fernandes Reblin Maretto
- Joanna Fernandes é psicóloga clínica perinatal e mestre em Psicologia.
- Ela também é especialista em psicologia analítica e idealizadora dos projetos Gestar em Roda e Maternar em Roda.
- Há quatro anos atua com gestantes, realizando o pré-natal psicológico e sendo uma das pioneiras no Estado.
- Atualmente faz esse trabalho com mulheres grávidas no Instituto Ilítia.