- Vitória, ES 22°C

Vitória 22°C

Anúncio
Cidades

Geração 60+ começa projetos e mostra que não há idade para realizar sonhos

Idosos mostram que a terceira idade se tornou um momento de começar projetos, descobrir interesses e realizar desejos

Rita e Luiz Polese, ambos de 74 anos, decidiram buscar novos aprendizados
Foto de perfil de Beatriz Brandão

Beatriz Brandão

Beatriz Brandão é estudante de jornalismo na Universidade Federal do Espírito Santo e é repórter multimídia no jornal A Tribuna. Tem experiência em assessoria de imprensa, rádio e jornalismo digital.

Última atualização

Chegar aos 60, 70, 80 ou 90 anos não significa abandonar planos. Pelo contrário: para muitos idosos, essa fase se tornou um momento de começar projetos, descobrir interesses e realizar vontades que foram adiadas.

No mês em que se comemora o Dia Internacional da Pessoa Idosa, histórias assim se encontram para mostrar que nunca se é “velho demais” para fazer alguma coisa.

O casal Rita e Luiz Polese, ambos de 74 anos, é um exemplo. Casados há mais de 50 anos, os dois mantêm uma rotina ativa e decidiram, já na terceira idade, buscar novos aprendizados.

Rita, que sempre gostou de música, retomou as aulas de violão e começou a aprender piano. Já o italiano virou um projeto dos dois, que decidiram estudar a língua ligada às origens da família.

“A gente não para. Ainda temos muita vontade de aprender. E sentimos que também podemos contribuir para mudar o que está à nossa volta”, diz Rita.

Além de trabalhos de caridade e da participação em movimentos sociais, a rotina dos dois ainda inclui academia, pilates, viagens, visitas a exposições, shows e encontros com amigos.

“Acho que não conseguimos ficar parados. Frequentar essas atividades nos faz muito bem, porque exercitamos a memória, conhecemos pessoas e fazemos coisas que gostamos muito”.

Esse cenário acompanha o aumento da longevidade da população brasileira. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida no País passou de 45,5 anos, em 1940, para 76,6 anos, em 2024.

No Espírito Santo, projeções do IBGE também indicam que, em 2026, 731.351 pessoas têm 60 anos ou mais no Estado. Desse total, 328.093 são homens e 403.258 são mulheres.

Para o geriatra Roni Mukamal, superintendente de Medicina Preventiva da MedSênior, o aumento da longevidade reforça a importância de manter interesses, projetos e uma rotina ativa ao longo do envelhecimento.

“Quando uma pessoa se propõe a estudar um idioma, aprender um instrumento, conviver com outras pessoas ou iniciar uma atividade diferente, ela mobiliza habilidades cognitivas, emocionais e físicas”.

Já a psicóloga Naira Delboni acrescenta que essa fase também pode representar uma oportunidade de redescoberta.

“Ao longo da vida, muitas pessoas constroem parte da identidade em torno de papéis como profissão, maternidade, paternidade ou cuidado com a família. Quando esses papéis mudam, outros interesses podem ganhar espaço”.

Aprender melhora a autoestima

Realizando um sonho de infância, a aposentada Maria Leide Scardua, de 70 anos, começou a fazer aulas de vôlei
Realizando um sonho de infância, a aposentada Maria Leide Scardua, de 70 anos, começou a fazer aulas de vôlei Foto: Leone Iglesias/AT

Aprender algo novo após os 60 anos pode ajudar a fortalecer a autoestima, ampliar a autonomia e trazer mais confiança para enfrentar desafios do dia a dia.

A psicóloga Naira Delboni explica que isso acontece porque, ao se permitir experimentar algo novo, a pessoa passa a reconhecer os próprios avanços.

“Essas experiências podem fortalecer a confiança em nós mesmos e a percepção de que ainda podemos aprender e desenvolver novas habilidades”.

E os benefícios também alcançam a parte cognitiva. Segundo Naira, novas atividades estimulam funções como atenção, memória, raciocínio e capacidade de aprendizagem.

“Quando aprendemos algo novo, estimulamos o cérebro a sair de padrões já conhecidos, a estabelecer novas associações e a desenvolver habilidades”.

Além dos ganhos cognitivos, há também impactos no desenvolvimento emocional.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), inclusive, destaca que a educação continuada e o engajamento mental podem contribuir para prevenir sintomas depressivos e aumentar a sensação de autoeficácia e de utilidade entre pessoas idosas.

A psicóloga Ana Carolina Maffazioli explica que, enquanto algumas capacidades físicas tendem a diminuir com o avanço da idade, habilidades emocionais podem continuar sendo desenvolvidas ao longo da vida.

“Quando aprendemos coisas novas, em qualquer momento da vida, estamos estimulando esse desenvolvimento emocional e, consequentemente, diferentes tipos de inteligência”.

Para o presidente da Associação de Parentes e Amigos de Pessoas com Alzheimer, Doenças Similares e Idosos Dependentes (APAZ), Christiano Barbosa, esse movimento resgata ainda a sensação de propósito.

“A pessoa passa a estabelecer metas e a conviver com elas fazendo coisas que gosta. Isso é muito importante para manter a vida com um sentido”.

Mudança de carreira abre novos caminhos na maturidade

Mudar de profissão, empreender ou começar uma nova carreira depois dos 60 anos têm se tornado parte da realidade de uma parcela cada vez maior da população.

Esse é o caso de Airton Machado, de 63 anos. Farmacêutico por formação, ele passou décadas atuando no setor até seguir um caminho completamente diferente, abrindo uma cafeteria no bairro Jardim Camburi, em Vitória.

A mudança começou após perder o emprego, em 2019. Nos anos seguintes, Airton ainda tentou se recolocar na área, mas enfrentou dificuldades.

“Então eu pensei: ‘não posso ficar parado, preciso fazer alguma coisa’. E surgiu a ideia de empreender, como eu já havia feito antes”.

Como já gostava de cafés especiais, Airton começou a pesquisar possibilidades de negócio e decidiu investir em uma franquia.

“Eu gostava de café, mas não tinha conhecimento dos detalhes. Foi aí que fiz cursos de barista, de regulagem de moinhos e de diferentes métodos de preparo”.

Hoje, ele reconhece que a rotina como empreendedor é mais intensa, mas diz encontrar satisfação em acompanhar o crescimento do negócio e a resposta dos clientes.

“Dá satisfação ver os resultados do nosso trabalho, os clientes satisfeitos e fazer coisas novas e interessantes com os cafés”.

Assim como Airton, cada vez mais pessoas com 60 anos ou mais permanecem ou retornam ao mercado de trabalho.

Um levantamento com base em dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta um crescimento de 68,9% na participação dessa faixa etária no mercado de trabalho.

Isso ainda dialoga com uma barreira enfrentada por pessoas mais velhas: o medo de recomeçar.

Para o presidente da Associação de Parentes e Amigos de Pessoas com Alzheimer, Doenças Similares e Idosos Dependentes, Christiano Barbosa (APAZ), ainda existe resistência em relação aos idosos que desejam iniciar novos projetos.

“Precisamos fazer justamente o inverso: estimular as pessoas idosas a aprender coisas novas e promover sua independência”.

A psicóloga Naira Delboni destaca que recomeçar na maturidade não significa tentar voltar a uma fase anterior, mas reconhecer que ainda existem possibilidades pela frente.

“Envelhecer não deve significar deixar de fazer planos, mas reconhecer que se tem sabedoria para escolher novos caminhos”.

Vida ativa fortalece vínculos e combate o isolamento

Para além dos benefícios físicos, manter uma vida ativa após os 60 anos também ajuda a ampliar vínculos sociais e a reduzir o risco de isolamento.

Essa preocupação ganha ainda mais relevância diante de um cenário em que cada vez mais idosos moram sozinhos.

Dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que cerca de 28,7% dessa população vive sozinha.

A psicóloga Ana Carolina Maffazioli explica que, ao longo da vida, mudanças na rotina, na família e no trabalho podem diminuir o contato social.

Por isso, frequentar novos espaços, desenvolver habilidades e conhecer outras pessoas pode ser importante para manter o nível de convivência.

“Quando a pessoa chega nessa fase da vida e não está disposta a desenvolver habilidades, frequentar novos lugares e conhecer mais gente, ela corre o risco do isolamento social, que é muito prejudicial à saúde como um todo”.

Benefícios de estar em atividade

Estímulo ao cérebro

Aprender uma nova habilidade trabalha funções como atenção, memória, raciocínio e coordenação, além de contribuir para a chamada reserva cognitiva.

Autoestima

Perceber que ainda é possível aprender, superar dificuldades e desenvolver novas habilidades aumenta a confiança e a percepção de capacidade.

Identidade

Com mudanças como aposentadoria ou saída dos filhos de casa, novos interesses podem ajudar a pessoa a descobrir capacidades e desejos que antes ficaram em segundo plano.

Novos propósitos

Ter projetos não significa necessariamente assumir grandes compromissos. Um esporte, um curso, uma viagem ou um hobby podem dar novos sentidos à rotina.

Vínculos sociais

Atividades em grupo favorecem novas amizades, convivência e participação na comunidade, ajudando também a combater situações de isolamento.

Benefícios ao corpo

Começar a se exercitar mesmo em idades mais avançadas pode ajudar a preservar força muscular, mobilidade, equilíbrio e capacidade funcional, que são essenciais para manter a qualidade de vida.

Autonomia

Escolher atividades de acordo com os próprios interesses reforça o protagonismo e a possibilidade de continuar tomando decisões sobre a própria vida.

Bem-estar emocional

Novas experiências podem trazer satisfação, prazer e sensação de realização, além de contribuir para uma rotina mais ativa.

Sem limites

O envelhecimento traz mudanças e pode exigir algumas adaptações, mas, por si só, não elimina a capacidade de desenvolver novas habilidades e descobrir interesses.



Mais Lidas

Ver tudo ›

    Bem-vindo(a) ao
    Tribuna Online!

    Seu bloqueador de anúncios está ativo.

    A publicidade ajuda a manter nosso jornalismo. Libere os anúncios para apoiar o Tribuna Online.

    Obrigado por apoiar o jornalismo local.