A Polícia Civil do Ceará concluiu o inquérito que apura a morte da estudante Isabelle Caracristi, 22, encontrada morta em 13 de setembro após cair do 23º andar de um condomínio no bairro Aldeota, área nobre de Fortaleza. O namorado dela, João Munhoz Neto, 34, foi indiciado sob suspeita violência psicológica e fraude processual.
A reportagem procurou a advogada Lígia Peixe nesta terça-feira (6), que representa Munhoz, pela manhã e à tarde, por meio de mensagens e ligações, para comentar as conclusões do inquérito, mas não recebeu resposta até a publicação. Em manifestações anteriores à Folha, a defesa negou envolvimento na morte e afirmou que ele colaborava com a investigação. Ela também contestou a acusação de violência psicológica e disse que os áudios enviados por Isabelle foram apresentados fora do contexto.
O indiciamento encerra uma investigação que, desde os primeiros dias, procurou esclarecer não apenas como Isabelle morreu, mas também o que havia acontecido na relação dela com o namorado antes da queda.
Segundo a investigação, em 13 de setembro, Isabelle havia passado parte do dia na casa da mãe, Isorlanda Caracristi. No fim da tarde, voltou ao condomínio onde morava com Munhoz e a família dele. Por volta das 18h30, o namorado saiu do prédio para ir a uma missa. A estudante permaneceu no local.
Às 19h12, Isabelle foi vista sozinha no elevador, com o celular na mão, seguindo para o 23º andar, onde ficava o terraço. Foi a última vez que apareceu nas câmeras do condomínio. A polícia estima que a morte tenha ocorrido por volta das 20h40. Munhoz voltou ao prédio às 22h48, depois do horário estimado da queda.
A perícia concluiu que houve suicídio. Não foram encontrados sinais de luta ou agressão física no corpo. As câmeras do condomínio também foram usadas para reconstruir os deslocamentos do casal antes da queda.
À época, a conclusão pericial, porém, não encerrou a investigação sobre o namorado. A polícia passou a apurar se o relacionamento era marcado por violência psicológica e se a conduta de Munhoz poderia ter contribuído para o suicídio da estudante. Ele chegou a ser preso preventivamente em 22 de setembro.
Parte dos elementos reunidos pela investigação veio do celular de Isabelle. Familiares e pessoas próximas relataram que a jovem dizia se sentir controlada e vigiada pelo namorado. Em entrevista à Folha, Isorlanda afirmou que a filha não tinha liberdade para fazer coisas sozinha e contou que o namorado havia pedido para usar o cartão dela e queria colocar uma empresa em seu nome.
Pouco antes de morrer, Isabelle enviou áudios a um primo e a uma amiga nos quais relatava o que dizia viver no relacionamento com o namorado. “Estão acontecendo coisas sérias, coisas graves, que eu venho guardando só para mim. São ameaças diretas vindas dele”, disse a estudante em um dos áudios.
A investigação também examinou a conduta de Munhoz depois da morte. Segundo a polícia, ele teria retornado ao condomínio para procurar o celular da estudante, enquanto a família dela não teria sido avisada imediatamente sobre a morte. Esses episódios passaram a integrar a apuração sobre uma possível interferência nas investigações.
O indiciamento é diferente da hipótese que havia levado à prisão de Munhoz em setembro. Durante a investigação, a polícia também apurou a possibilidade de induzimento ou instigação ao suicídio.
Munhoz deixou a prisão em 1º de outubro, depois que a 5ª Vara do Júri de Fortaleza acolheu manifestação favorável do Ministério Público. A decisão impôs medidas cautelares, como monitoramento eletrônico, proibição de deixar a comarca e distanciamento dos familiares da vítima.
Segundo a Polícia Civil, a investigação ouviu 29 pessoas e analisou cerca de 700 vídeos de câmeras de segurança. A Perícia Forense do Ceará produziu 17 laudos periciais, incluindo exames de necropsia, toxicologia, DNA e análises de áudios e vídeos. Ao todo, 22 peritos e auxiliares participaram do trabalho.