Após um ano e meio de pandemia, os estudantes do ensino médio já tiveram perda de aprendizagem acumulada de 74% em Português e Matemática.
E o pior: sem ações para minimizar esse déficit, os alunos do 3º ano vão finalizar 2021 sabendo 20% a menos do esperado.
Os dados são de uma pesquisa inédita feita pelo Núcleo de Ciência Pela Gestão Educacional do Insper e Instituto Unibanco, divulgada ontem.
O cálculo foi feito com dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que analisa o nível de conhecimento de alunos das redes pública e privada no fim do ensino fundamental e médio.
De forma geral, os estudantes ganham, em média, cerca de 20 pontos em Português e Matemática nos três anos do ensino médio.
Com o ensino remoto, a pesquisa indica que os alunos aprendem 17% do que deveriam em Matemática, na comparação com as aulas presenciais. Em Português, a aprendizagem é de 38%. As projeções indicam perdas de 11 a 16 pontos em Português e de 12 a 20 em Matemática.
“Perdendo 10 pontos, é metade do que ele aprendeu em três anos. O impacto é gigantesco”, ressaltou o pós-doutor em Economia e pesquisador do Insper, Ricardo Paes de Barros.
Essa perda de aprendizagem, segundo a pesquisa, vai impactar na vida dos estudantes. Isso porque, de acordo com os cálculos, um ponto a menos em proficiência reduz o salário futuro em 0,5%.
“A perda de cada jovem, em 2020, foi de R$ 21 mil. No geral, a perda é de R$ 700 bilhões, duas vezes o que o Brasil gasta com educação”, ressaltou Paes de Barros.
O doutor em Educação e o professor Edebrande Cavalieri garante que o impacto já é imediato.
“Professores e pais precisam estar mais perto desses jovens. Esse impacto pode diminuir na medida em que as escolas refaçam o planejamento. Não podem ser apenas cuidados com os protocolos. É preciso rever métodos e adequação de tempo”, ressaltou o especialista.
Mudança de métodos
Classificando o impacto que a pandemia trouxe no aprendizado como “desastre”, o secretário de Educação do Estado, Vitor de Angelo, afirmou que a melhora passa pela retomada das aulas presenciais, mas com mudanças.
“Não podemos ir jogando para frente a solução. Mas não é para voltar às aulas para fazer mais do mesmo. Precisamos repensar nossa metodologia”, afirmou o secretário durante um webinário para a apresentação da pesquisa pelo Instituto Unibanco.
O secretário ressaltou que a perda de aprendizagem era esperada, mas que, no início da pandemia, a prioridade era garantir o vínculo dos alunos com a escola. “O vínculo é importante, mas agora não dá para ficar só nisso. Precisamos pensar com urgência na aprendizagem”, disse Vitor de Angelo, ressaltando os problemas.
“A perda de aprendizagem é mais rápida do que as nossas condições como escola pública de fazer frente a esses desafios. Qualquer resposta responsável para resolver o problema passa pela dimensão da urgência”, disse.
Para o vice-presidente do Sindicato das Empresas Particulares de Ensino do Estado (Sinepe), Eduardo Costa Gomes, o efeito da pandemia foi grave, mas menor para a rede privada. “O modelo remoto foi colocado de imediato, o que reduziu o prejuízo. Agora, o trabalho é reduzir mais, com atendimento personalizado ao aluno”.
O que diz a pesquisa
Perda de aprendizagem
- A perda de aprendizagem acumulada por conta da pandemia é estimada em 74% para alunos da fase final do ensino médio.
Durante a pandemia, Com o ensino remoto:
- Em Matemática, os estudantes aprendem 17% do esperado
- Em Português, os estudantes aprendem 38% do esperado
- Alunos do 3º ano
- Devem concluir 2021 sabendo 20% do esperado em Português. Em Matemática, poderão regredir.
Proficiência
- Alunos que começaram o 3° ano em 2021 têm 10 pontos a menos na proficiência em Português e Matemática comparado ao que poderiam atingir se não tivesse o ensino remoto.
- Renda
- A pesquisa diz que o impacto também é financeiro na vida dos estudantes.
- Um ponto a menos de proficiência reduz a remuneração do trabalho em 0,5%.
- Caso a perda de aprendizagem continue, cada aluno que se formar no ensino médio em 2021 terá uma perda de renda ao longo da vida de R$ 20 mil a R$ 40 mil.
- Perda de renda para alunos do ensino médio e fundamental soma mais de R$ 700 bilhões e pode chegar a R$ 1,5 trilhão.
Como foi feita
- A pesquisa “Perda de Aprendizagem na Pandemia” foi feita pelo Núcleo de Ciência Pela Gestão Educacional do Insper e Instituto Unibanco.
- Com base no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), os pesquisadores projetaram cenários do ensino remoto e híbrido.
- Para alunos que não participam das aulas, eles estimaram a perda de proficiência com base no conceito de autores em educação. Cada dia de falta representa a perda de 1,55 dia de aula.
- Para os alunos engajados, os autores consideraram a média de aprendizagem capturada durante o ensino remoto em comparação com o presencial.
