Já se foram quase 50 anos dedicados a ensinar pessoas a dirigir e ela não pensa em parar. Claudeth Moura Fioroti, aos 80 anos, não vê a hora de a pandemia acabar e ela poder retomar as aulas particulares de direção.
Ela acredita ter sido a primeira instrutora de direção do Estado. Tudo começou de maneira “informal”, na sua cidade, Colatina, no Noroeste do Estado, em 1972, após tirar a sua habilitação.
Incentivadora da independência feminina, dona Claudeth começou ensinando às amigas. Anos depois, quando veio morar em Vitória, fez o curso especial para se tornar instrutora, comprou um Fusca e começou a dar aulas de direção. Em 1985, abriu uma autoescola, que funcionou até 2019.
Mas ela nunca parou de formar novos condutores. Além dar aulas práticas para iniciantes, se especializou em um perfil específico: pessoas habilitadas, mas que tinham medos e traumas de dirigir.
“Existem muitas pessoas que fazem a autoescola, passam na prova, tiram a carteira de motorista, mas, depois, nunca mais pegam num volante. São motoristas com 30, 40 anos de idade, em média, e que sabem dirigir, mas têm medo de encarar o trânsito”, explica a professora.
Dona Claudeth diz ser apaixonada pelo que faz. “Adoro dirigir. Até hoje, pego estrada, vou para Domingos Martins, Venda Nova. Mas eu amo mesmo é ensinar”.
Ansiosa para voltar a lecionar, ela já está vacinada contra a Covid-19. “Já tomei as duas doses, mas a maioria das pessoas que procura a minha aula ainda não tomou. Então, não posso dar aula, por enquanto. Não vejo a hora dessa pandemia acabar e eu poder voltar a dar as aulas”.
A servidora pública Nelice Andrade Carvalho, 55 anos, foi uma das últimas alunas de Claudeth antes da pandemia.
Ela lembra do medo “absurdo” que tinha de dirigir, 20 anos depois de tirar a carteira.
“Minha habilitação ficou na gaveta todos esses anos. Depois da autoescola, nunca mais sentei na frente de um volante. Tinha medo até de bater em carro parado, era um trauma absurdo. Mas queria ter essa independência. Então, me indicaram a dona Claudeth”, relata.
No começo, Nelice achou estranho ter aulas com aquela senhora de quase 80 anos, mas, depois, viu que foi a melhor escolha. “Ela ensinou do zero, no carro dela, desde sair da garagem, subir uma ladeira, tudo. Depois, comprei meu carro e concluímos as aulas nele. Hoje, eu sou uma motorista como qualquer outro”, comemora.
“Enfrentei muito machismo”
Para a dona Claudeth Moura Fioroti, ensinar a dirigir é como uma missão, assumida por ela há quase 50 anos. Nesse período, segundo seus cálculos, já foram mais de mil motoristas formados, sejam iniciantes ou habilitados que tinham medo de assumir o volante de um carro.
A Tribuna – Como foi o seu início como instrutora?
Claudeth Fioroti – Foi informal. Tirei minha habilitação em Colatina e, depois, resolvi ajudar minhas amigas. Dava livros para elas estudarem a parte teórica e ensinava a dirigir na prática. Quando eu vim com minha família para Vitória, fiz o curso, me tornei instrutora e abri a minha autoescola.
A senhora tirou habilitação em uma época em que não era comum mulheres dirigirem.
Fui a “metida” a tirar carteira, entrar no trânsito (risos).
Como foi enfrentar o machismo?
Enfrentei muito machismo. Ouvi muita gracinha, por ser mulher e por ser nova. Tive de enfrentar cantada de examinador e, quando era instrutora, via que eles tinham um comportamento diferente com meus alunos. Mas eu sempre cobrava respeito.
A senhora se especializou em ensinar pessoas habilitadas, mas que têm trauma de dirigir.
Muitos fazem a autoescola, passam na prova, tiram a carteira, mas, depois, nunca mais pegam num volante. São motoristas com 30, 40 anos de idade, em média, e que sabem dirigir, mas têm medo de encarar o trânsito.
Esse é o problema do processo de tirar carteira. Os alunos são treinados para fazer a prova, não para dirigir. Tem aluno que decora o trajeto da prova e, depois, quando vai dirigir em outro caminho, entra em desespero.
O que é preciso para perder esse medo?
O fundamental é dominar a máquina. Tem de entender que o carro está na sua mão e ele só vai fazer o que você manda. Ensino o que é dirigir de verdade no dia a dia. Acompanho meus alunos do momento de tirar o carro da garagem, até dar uma ré, estacionar e respeitar os outros carros.
Qual a principal mudança no comportamento dos motoristas nas últimas décadas?
Antigamente, os motoristas não tinham muito conhecimento de legislação, faltava instrução, mas havia muito respeito e educação na convivência do trânsito.
Hoje, os motoristas sabem as leis, têm instrução, mas são imprudentes, assumem os riscos. Não respeitam sinal vermelho, limite de velocidade. Falta educação.
Estado tem 242 mil condutores com mais de 60
A cada seis motoristas devidamente habilitados conduzindo veículos pelas ruas do Estado, um tem mais de 60 anos. É o que indica levantamento do Relatório Anual de Estatística de Trânsito do Departamento Estadual de Trânsito do Espírito Santo (Detran-ES).
Ao todo, segundo dados do relatório de 2020, há 1.507.243 motoristas habilitados no Estado, sendo 242.781 com mais de 60 anos. Desse total, 88.440 têm entre 60 e 64 anos, e outros 154.341, mais de 65.
O número de motoristas acima dos 60 anos mais do que dobrou no Estado nos últimos 10 anos. Em 2010, essa faixa etária correspondia a 101.413 condutores habilitados no Estado.
O novo Código de Trânsito Brasileiro, que entrou em vigor em abril deste ano, mudou os períodos de renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
A partir de agora, os motoristas com mais de 70 anos devem realizar a renovação da CNH a cada três anos. Já os condutores com idade superior a 50 anos e inferior a 70 devem continuar renovando o documento a cada cinco anos.
