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Desafios da maternidade

“As mães estão cada vez mais exaustas”, diz psicóloga

Especialista atribui esse sentimento à expectativa irreal sobre a maternidade e ao acúmulo de responsabilidades

Para combater a exaustão, Claudia Murta enfatiza que são necessárias políticas públicas para o enfrentamento à violência contra a mulher, para a humanização da relação mãe e filho, e para o empoderamento feminino |

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Ser mãe é a realização de um sonho para muitas mulheres. Entretanto, o cotidiano da maternidade é repleto de desafios. Não existe mãe perfeita, embora a sociedade projete um ideal de como deveria ser.

Para a psicóloga, pós-doutora em Filosofia e professora da Ufes Claudia Murta, essa expectativa irreal e o acúmulo de responsabilidades sobre as mães vêm fazendo com que elas fiquem cada vez mais exaustas. “A cobrança sobre a mãe sempre existe, independente da idade do filho. Elas são responsabilizadas por tudo”, observa.

A Tribuna – Qual o impacto que esse ideal de mãe tem sobre as mães reais?

Claudia Murta – Esse é um tema muito sério. Se programa o que seria a mãe ideal; enquanto isso, a mãe real não tem lugar. Trabalhei com um grupo de pesquisa e notamos que o que acontece é que as mães ficam muito angustiadas por não cumprirem esse papel predeterminado.

Fizemos uma pesquisa com gestantes e puérperas. Uma das coisas que percebemos é que o amor é construído com a presença do bebê depois que ele nasce. Várias disseram que o bebê as ensinou a amá-los. Mas dentro desse ideal do que é ser mãe, se crê que a mãe ama o bebê desde o início da gestação.

Quais os desafios que a mulher vive na maternidade real?

Amamentar é muito difícil e é um processo longo. A mãe recente (que acabou de ter um bebê) tem todo um corpo passando por mudanças e ela precisa entender o que está acontecendo. Há ainda as dores pós-gestação e às vezes ela não consegue andar direito. Ela precisa se recuperar, e ainda tem toda a emoção nesse momento.

Às vezes, a mulher fica abalada nos primeiros dias após o parto. É o período chamado de Baby Blues, em que ela fica transtornada e muito perdida. E as pessoas não têm paciência, só perguntam do bebê e se esquecem de pensar em como a mãe está.

São muitos problemas que a mãe enfrenta enquanto se cria um ideal de que ser mãe é como é retratado nos filmes. A maternidade real não é feita só de coisas boas.

A cobrança parte também da própria mulher?

Sim, tem a cobrança dela mesma! O bebê ainda está aprendendo a mamar, chora de duas em duas horas, requer dedicação integral… A mãe fica muito cansada e angustiada. Ela se sente culpada por não estar vivendo aquela felicidade toda que ela esperava viver quando o bebê nascesse.

Esses desafios ocorrem em todas as épocas?

Os desafios são diferentes dependendo da época da vida dos filhos. Esses que citei são de mães de recém-nascido. A cada dois anos, até os 18, o filho está em uma fase diferente.

A cobrança sobre a mãe sempre existe, independente da idade do filho, porque as mães são responsabilizadas por tudo.  Em geral, se cobra muito mais da mãe do que do pai. 

Temos de pensar no modelo de família que estamos assumindo. Cada vez mais, em várias classes sociais, as mães são o arrimo da família. A mãe trabalha, educa e muitas vezes não tem com quem partilhar os afazeres.

As mães hoje estão mais exaustas do que no passado?

Certamente. Quem ocupa função de mãe se encontra cada vez mais sobrecarregada. Às vezes ocupa até sozinha as duas funções: a materna e a paterna. E as exigências são muito altas em todos os sentidos. As mães estão cada vez mais exaustas.

Como combater a exaustão e a sobrecarga materna?

A primeira coisa é respeitar as mulheres, acabar com a misoginia e com a violência com elas. Tem de se dar espaço para que seja mulher, para que viva em sua totalidade sem ter de lutar para sobreviver.

Precisamos empoderar essa mãe empoderando essa mulher. Podemos fazer em pequenos grupos, mas são necessárias políticas públicas. Precisamos dar voz para essas mulheres.

Temos um projeto nesse sentido para trabalhar aqui no Estado nas áreas de educação, assistência e segurança, mas que ainda não foi implementada por causa da covid-19.

Outro ponto é trabalhar a noção de família que não seja baseada em preceitos antigos, e sim com qual modelo de família estamos vivendo e estamos lidando.

E quando a cobrança é interna, qual a orientação que deixa para as mães?

Muita gente vive no mundo da fantasia, cria um ideal de família perfeito e sonha quando na realidade não vive aquilo. É difícil sair da fantasia e entrar cada vez mais na realidade.

A mãe real tem que olhar para o mundo e conseguir fazer diferença entre os seus desejos e a sua realidade. Assim ela também poderá oferecer aos seus filhos uma educação para a realidade.

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