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O tempero extraído da semente de urucum, o famoso colorau, um dos ingredientes da moqueca capixaba, foi colocado na mala do chef Victor Ferri, de 31 anos. Ele chegou nesta sexta-feira (05) no Catar, onde vai comandar diferentes cozinhas nos estádios que vão sediar a Copa do Mundo.
Paulista, mas morador de Guarapari desde criança, Victor se considera um capixaba de coração e revela que é o único brasileiro a compor a equipe de chefs da Federação Internacional de Futebol (Fifa) na Copa deste ano.
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A abertura do campeonato é no próximo dia 20, mas todos os chefs começam os preparativos nas cozinhas neste sábado (05). “Começaremos a testar tudo que foi proposto. Já existe um cardápio pré-definido pela Fifa, mas podemos ter substituições. Indicamos os pratos para substituir e, tendo esse espaço, minha indicação será a moqueca capixaba”.
“Lá temos o meca e a ideia é usar o filé do peixe para a moqueca. Como não tem urucum, o nosso colorau, vou levar na mala”, contou o chef antes de embarcar.
Essa é a segunda vez que Victor vai ocupar uma cozinha na Copa. Em 2014, quando o mundial aconteceu no Brasil, o chef passou por uma seleção criteriosa e, após quatro entrevistas, foi aprovado.
“Em 2013 fiz o processo seletivo da Fifa. Foi rigoroso, mas passei. Fiquei no estádio do Corinthians, que na época era Arena Brasil. Eu fiquei responsável pela área dos patrocinadores, dando suporte para as áreas das celebridades, ex-jogadores”, lembra ele.
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Dessa vez, ele não precisou se inscrever, mas foi convidado para passar pelo processo seletivo, e acredita que tenha sido mais fácil pelo fato de ter tido uma experiência com a organização durante a Copa no Brasil.
E além da bagagem, o que levou agora foram expectativas de uma experiência única. “Estamos falando da Copa mais cara do mundo, no país mais rico do mundo, com a maior renda per capita. Para a cozinha não houve limite de gastos. Teremos de caviar aos melhores champanhes franceses, e queijos de produção limitada da França e Itália. Já tenho o cardápio, mas ainda é segredo”, completa.
“Proibidos de falar com mulheres”, Victor Ferri, chef
Meses antes do embarque, o chef Victor Ferri recebeu uma cartilha com as regras que terá de seguir durante a Copa do Mundo no Catar e, há duas semanas, o cardápio que vai preparar para as celebridades que vão participar do evento. Entre os pratos, muitas comidas com caviar.
A tribuna: Você já recebeu o cardápio do que será servido na Copa?
Victor Ferri: Recebemos há duas semanas, mas tudo é segredo ainda. Posso dizer que haverá muitas estações (bufê) de frios, entradinhas com carnes, tem muita comida asiática, chinesa e japonesa no cardápio. Tem muita comida diferente, da cozinha internacional. De caviar aos melhores champanhes no cardápio da Copa.
Falou-se muito sobre uma cartilha de proibições. Vocês também recebem?
Sim. Temos regulamentos a seguir, e não podemos nem cumprimentar mulheres na Copa. A primeira regra na cartilha é: se não conhece, não fale com uma mulher. Não toque em uma mulher. Se você tocar, pode ser preso. Então, somos proibidos de falar com mulheres lá. Vai ser diferente essa parte de regras culturais, e eu tenho estudado para não errar em nada.
Na área da culinária também há regras?
Para os muçulmanos, o alimento não pode entrar e sair pelo mesmo lugar. Então, esse primeiro momento antes do início da Copa, vamos alinhar as regras na prática. Na abertura da Copa no Brasil, por exemplo, um conhecido meu, chef também, pegou o celular para tirar foto da Jennifer Lopez.
Quando ele levantou o celular, o segurança pegou o aparelho e levou ele embora. E não trabalha mais. Essas pessoas são públicas e elas querem se divertir em paz. Não podemos cercear o espaço delas de diversão, e elas precisam se sentir à vontade para curtir.
Experiências na Tailândia, Estados Unidos e China
A gastronomia trouxe ao chef Victor Ferri muitas oportunidades. Ele já conheceu mais de 40 países, morou na China, na Tailândia, nos Estados Unidos, e aprendeu a preparar pratos que jamais imaginou, como cérebro de macaco, cachorro e rato de rua.
Após se formar em gastronomia, em 2008, Victor passou três anos nas cozinhas de navios que fazem cruzeiros. Fluente em inglês e espanhol, após desembarcar teve sua primeira participação como chef na Copa do Mundo de 2014, e seguiu desbravando a culinária de outros países.
“Eu saí da Copa e meu chefe, que era um francês e morava na Argentina, me chamou para trabalhar com ele. Ele era o chef executivo do Hotel Hilton, da família da Paris Hilton, e hoje ele é chef executivo do World Rally Car. De onde recebi muitas indicações também”, revela ele.
Victor assumiu a gestão da cozinha do Estádio do Palmeiras e preparou cardápios para o show do Paul McCartney e Roberto Carlos. Trabalhou também na cozinha do Cirque du Soleil durante a temporada “Corteo” no Brasil, e já fez o Salão do Automóvel, em São Paulo.
Na Tailândia, abriu um restaurante e servia moqueca capixaba, mas o que a população mais consumia eram insetos.
“Aprendi a comer gafanhoto, e eles comem como se fosse pipoca. Comem animais, como rato de rua frito, escorpião e camarão vivo”. No café da manhã na Tailândia, o prato principal servido era sopa de arroz com vísceras de frango, fígado, rim, moela, coração, que, segundo o chef, é uma delícia.
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Na China, trabalhou para um restaurante que vendia pratos pela internet. Nos EUA, participou de um treinamento para abrir uma rede de restaurantes no Brasil. Depois disso, pegou mais um cruzeiro a trabalho e retornou para o Brasil. “Depois do último cruzeiro, voltei direto para Guarapari, que é para onde eu sempre volto”.
Espaço para torcedores bêbados
Entre as regras gerais do que é proibido no Catar, país que vai sediar a Copa de 2022, o chef Victor Ferri conta que quem se embriagar será encaminhado para uma área de bêbados, pois o Catar possui uma cultura que não aceita o consumo de bebidas alcoólicas em locais públicos.
Os torcedores poderão beber somente dentro dos estádios ou em áreas próprias espalhadas por todo o país. Ao final da partida, as bebidas serão comercializadas até um determinado horário.
Quem exceder na bebida, não será autorizado a circular pelas ruas do país. “A organização já está disponibilizando áreas próximas aos estádios para quem passar do limite. A organização vai encaminhar essas pessoas para essas áreas. Eles disseram que não querem essa imagem para o país. E lá as pessoas ficarão até voltar ao estado normal. Isso tudo está na minha cartilha”, revela o chef.
Fora da Copa, árabes e turistas podem ser presos caso sejam flagrados ingerindo bebida alcoólica na rua.
“Por ser um país árabe, os muçulmanos são contra bebida alcoólica. Vai ser autorizado durante as partidas, mas não vai ser incentivado. Os muçulmanos não veem a bebida alcoólica como uma coisa boa. Tanto é, que no Catar, só se pode consumir bebida alcoólica em locais autorizados pelo governo, que são grandes redes de hotéis, e com restrição”, ressaltou.
“Se você estiver consumindo na rua, por exemplo, e a polícia te ver, pode ser preso”, conta o chef de cozinha.