O caso Clarinha, mulher internada em estado vegetativo há mais de 20 anos no Hospital da Polícia Militar (HPM), em Vitória, ganhou um novo episódio na tentativa de identificá-la. Um exame de reconhecimento facial apontou semelhanças entre Clarinha e uma menina de 1 ano e 9 meses, de Minas Gerais, que foi sequestrada quando estava de férias com a família em Guarapari, em 1976.
O caso de desaparecimento de uma menina mineira chamada Cecília, na cidade de Guarapari, naquele ano de 1976, foi mostrado em uma reportagem do jornal O Tempo, de Minas Gerais, em 2017. Era fevereiro e a família passava férias em Guarapari, quando a menina sumiu, relatou a família ao jornal na reportagem.
Cecília era a filha caçula de um casal formado por uma advogada e por um contador. A menina brincava de bola com um dos irmãos, na época do desaparecimento, com 2 anos e 10 meses. O irmão jogou a bola, a menina foi buscar e nunca mais foi vista pela família.
O casal, que tinha quatro filhos, estava hospedado em um acampamento privativo na cidade. O local tinha até portaria, explicaram os familiares da garota desaparecida à reportagem de O Tempo.
Há 45 anos, os pais e os irmãos de Cecília tentam buscar informações sobre a menina. Com o passar dos anos, o casal ficou com a saúde fragilizada, mas voltaram ao Estado outras vezes na tentativa de pistas sobre o paradeiro da menina, conforme a irmã de Cecília, Débora São José de Faria disse ao jornal O Tempo, em outubro do ano passado. Na entrevista, ela ressaltou que os familiares ainda esperam que um dia Cecília apareça e a história tenha um ponto final
O desaparecimento da menina Cecília é o caso desse tipo mais antigo investigado pela Polícia Civil de Minas Gerais.
Resultado de exame é aguardado
Após o exame com a tecnologia de reconhecimento facial apontar semelhanças entre Clarinha e uma menina de 1 ano e 9 meses sequestrada em Guarapari, no ano de 1976, o Ministério Público do Estado (MPES),que atua no caso há anos para tentar identificar a paciente internada em estado vegetativo, enviou o material genético de Clarinha para a Polícia Civil de Minas Gerais, que mantém arquivado o perfil genético dos pais da criança desaparecida em Guarapari.
“O Ministério Público capixaba solicitou a comparação entre os perfis genéticos e, nesse momento, aguarda o resultado dos procedimentos adotados pela Polícia Civil mineira”, explicou o órgão ministerial.
A nova pista na tentativa de identificar Clarinha veio com a ajuda de uma equipe de papiloscopistas da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP) em atuação no Espírito Santo.
Em meados de 2020, a equipe tomou conhecimento do caso e, em contato com o MPES, obteve autorização para auxiliar na tentativa de identificação da paciente.
O Ministério Público explica que a equipe utilizou o processo de comparação facial, com buscas em bancos de dados de pessoas desaparecidas com características físicas semelhantes às de Clarinha.
“A partir dessas buscas, chegou-se ao caso de uma criança de 1 ano e 9 meses de idade desaparecida em Guarapari, em 1976. Na época dos fatos, a família dela, que é de Minas Gerais, passava férias no Espírito Santo”, disse o MPES..
Para a confirmação das semelhanças físicas entre a menina desaparecida e Clarinha, foi solicitada a realização de exame de reconhecimento facial por uma empresa especializada neste trabalho localizada no Paraná. “O exame concluiu haver ‘compatibilidade’ entre as imagens de Clarinha e a da menina desaparecida em 1976”, informou o órgão..
Relembre
A paciente internada em estado vegetativo, conhecida como Clarinha, chegou ao Hospital da Policia Militar, em 2000.
De acordo com relatos de testemunhas, ela estava fugindo de um perseguidor, também não identificado, e correu para o meio de uma avenida movimentada no centro de Vitória, onde foi atropelada por um ônibus.
Levada para o antigo Hospital São Lucas, passou por diversas cirurgias. No entanto, o cérebro foi afetado, impedindo que ela retornasse de um coma profundo.
“Sem documentos e com as digitais desgastadas, buscou-se, em um primeiro momento, encontrar algum conhecido entre as testemunhas do acidente, mas ninguém tinha informações da paciente. Em seguida, Clarinha foi transferida para o HPM, onde continua até hoje, sendo tratada com carinho pelo corpo médico e pelos enfermeiros”, explicou o Ministério Público do Estado.
Exames de DNA em pelo menos 18 famílias foram feitos
O órgão passou a atuar no caso a partir de demanda recebida do HPM, que pediu a ajuda ministerial para identificar Clarinha e seus familiares. A procuradora de Justiça Edwirges Dias, que na época atuava como promotora de Justiça Cível de Vitória, expediu ofícios para diversas instituições públicas que integraram uma campanha para saber quem é Clarinha.
Em outro momento, o caso foi encaminhada ao Grupo Especial de Trabalho Social (Getso) do MPES. Coordenado pela promotora de Justiça Arlinda Maria Barros Monjardim, o Getso atuou em diversas frentes, expedindo ofícios, fazendo diligências e cobrando perícias.
O MPES fez a divulgação do caso em veículos de imprensa locais e nacionais, além de pedir ajuda aos outros ministérios públicos, banco de dados de pessoas desaparecidas, delegacias e até a Polícia Federal.
Em 2016, após uma reportagem em rede nacional, 102 famílias procuraram o MPES suspeitando que Clarinha pudesse ser uma familiar desaparecido. Depois de uma investigação dos casos, a história de 22 famílias aparentava algumas semelhanças pelas fotos ou pela similaridade dos dados próximos ao perfil de Clarinha.
Quatro desses casos foram descartados mais a frente por incompatibilidade de informações ou porque os familiares foram encontrados. As famílias restantes foram submetidas a testes de DNA, porém todos tiveram resultado incompatível.
