O voluntariado sempre foi a vocação de Lorena Lima Daleprane, 39 anos, a primeira mulher da Polícia Militar do Estado a ingressar em uma missão da Organização das Nações Unidas (ONU). Por dois anos, ela colecionou desafios e deixou legado no Sudão do Sul, na África.
Membro da polícia desde 2009, a cabo é ligada à religião espírita e, antes da missão na África, já era envolvida em projetos de evangelização e voluntariado.
No Sudão do Sul, enquanto missionária, ela arrecadou fundos e liderou a construção de uma sala de aula, a “Exodus Junior Academy”, em Juba, capital do país.
Além disso, mobilizou a reconstrução dos telhados de quatro salas de aula. “Eu tive contato com a comunidade escolar lá e foi uma coisa muito emocionante e inesperada”, revelou.
Nesse período, foram muitas as dificuldades: diferenças culturais, pandemia do coronavírus e resistência das comunidades. Além disso, sentiu a saudade de casa aumentar quando soube que a mãe sofreu um acidente e precisou ficar um mês internada.
Apesar do comprometimento, a sua história com a ONU aconteceu por acaso: uma amiga sugeriu que ela participasse do processo seletivo porque a policial sempre gostou da língua inglesa.
A prova aconteceu em 2018 e Lorena foi a única capixaba a ser aprovada. Já em 2019, partiu para a capital do Sudão do Sul, onde fez um curso introdutório. Depois, foi realocada para a cidade de Bentiu, onde ficou por seis meses. Na sequência, retornou à capital. Lá ficou por mais um ano e três meses no Centro de Operação da Missão.
Veterana da missão da ONU, a tenente-coronel e chefe de Estado-Maior do Comando de Policiamento, em São Paulo, Fernanda Santos Pereira da Silva, conta que a policial capixaba representou muito bem a corporação.
“É sempre um motivo de orgulho quando uma mulher se engaja numa profissão como a nossa e se torna voluntária, abrindo mão da convivência com a família e partindo para um país em crise.”
Colega de trabalho, a cabo Larissa de Souza Gotardo também admira o trabalho de Lorena.
“A gente se empodera pelo coletivo e individualmente. Esse exemplo que ela tem dado para a gente nos faz repensar as nossas perspectivas e acreditar que tudo é possível”, afirmou.
Entrevista | Lorena Daleprane: “Me sinto muito honrada de poder encorajar as pessoas”
A Tribuna – Qual momento mais te marcou durante o seu período no Sudão do Sul?
Cabo Daleprane – Foram vários momentos. Mas teve um dia que uma comunidade foi atacada, porque lá eles têm uma questão tribal. Então, uma dessas etnias invadiu uma aldeia e todos os velhos, crianças e mulheres tinham fugido. Só os homens tinham ficado.
Eu cheguei lá para ver a real situação e, quando olhei aquele monte de rostos magros, com sede e fome, vi que estavam cansados. Aí, você se pergunta: “Meu Deus, o que eu posso fazer? O que está ao meu alcance fazer?” Esse sentimento de impotência, de ver a coisa e não saber como lidar…
Foi por isso que eu optei por correr atrás da obra da escola, porque acredito que só educando e instruindo um povo, você pode melhorar esse tipo de situação.
Quais são os seus planos agora? Você pretende voltar algum dia e participar de outras missões?
Acabei ficando nove meses a mais do que o previsto e retornei para a polícia. Agora vou trabalhar na Diretoria de Direitos Humanos e Polícia Comunitária, mas o futuro a Deus pertence.
Passei dois anos me doando de corpo e alma. Coloquei a minha vida e a minha alma nisso e agora pretendo aproveitar minha família um pouquinho, porque eu tive todo o suporte que qualquer pessoa poderia sonhar em ter. Minha família é minha base, e agora eu pretendo ficar por aqui.
Como você se sente sendo mulher e participando de uma missão na ONU? Sofreu algum tipo de preconceito?
O mundo é machista, mas a mulher, como o homem, tem muitas qualidades e tem a possibilidade de achar o lugar dela. Resistência a gente tem em qualquer lugar, mas a Organização das Nações Unidas (ONU) tem uma política de igualdade de gênero e busca trazer as mulheres para as missões.
Você acha que a sua história de voluntariado é uma inspiração para outras pessoas?
Sim! Fiquei sabendo que, a partir da minha história, muitas pessoas se inspiraram a estudar e a buscar o caminho para ir para uma missão de paz. Eu me sinto muito honrada de poder inspirar alguém e encorajar as pessoas porque sou uma pessoa comum. Eu me preparei uma vida, porque sempre estudei inglês. E quando veio a oportunidade, abracei, porque o impossível não existe.
Onde foi a missão da capixaba
Sudão do Sul
-
Está localizado no nordeste da África.
-
A capital do país é Juba.
-
Os idiomas oficiais são árabe e inglês.
-
O país é o mais novo do mundo. Conquistou a independência no dia 9 de julho de 2011.
-
Tem mais de 11 milhões de habitantes.
-
É um local de conflitos. Muitas pessoas foram obrigadas a deixar suas casas por causa dos problemas internos do país.
Cidade de Bentiu
-
Está localizada próximo da fronteira com a República do Sudão.
-
São aproximadamente 64 etnias diferentes no local.
-
Tem o maior campo de proteção de civis do mundo, com uma população em torno de 130 mil habitantes deslocados.
Fontes: Pesquisa AT e a missionária da ONU cabo Daleprane



Está localizado no nordeste da África.