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Se perguntarem ao casal capixaba Priscila Rodrigues, 39 anos, e João Paulo Bogucki, 37, qual foi o dia mais marcante de suas vidas, a resposta é: 31 de março de 2022.
Era um dia frio e chuvoso na Ucrânia quando a administradora e o engenheiro marítimo conheceram o filho deles pela primeira vez, duas semanas após o nascimento, em meio ao cenário de conflitos entre a Rússia e Ucrânia, que se iniciou em 24 de fevereiro.
Desde o início da guerra, muitos hospitais e maternidades na Ucrânia foram danificados ou destruídos. Mesmo em meio a bombardeios e ataques aéreos, a vida continuou a mostrar a força que tem, por meio do choro dos recém-nascidos, que enchem as salas de parto montadas dentro de bunkers, estruturas no subsolo para proteção da população em situações de guerras e desastres ambientais.
O pequeno João Levi nasceu no dia 19 de março, com 3,8 quilos e 56 centímetros. Ele foi gestado por uma mulher ucraniana pelo processo de barriga de aluguel em Kiev, capital do país. Ela deu à luz em uma maternidade localizada dentro de um bunker, em meio aos bombardeios.
Após o início da guerra, alguns pais estrangeiros não conseguem buscar os bebês nascidos através do processo de barrigas de aluguel, existente na Ucrânia. Para Priscila, foi mais que um alívio conseguirem buscar o bebê, foi um sonho realizado.
“Foi uma emoção sem tamanho, termos nosso filho nos braços em meio a uma guerra. Com certeza, foi o dia mais feliz da nossa vida”, disse a administradora.
A Tribuna – Qual foi o sentimento ao pegar o filho de vocês nos braços pela primeira vez?
Priscila Rodrigues – Quando eu peguei o meu filho nos braços, todas as lágrimas derramadas naqueles anos de tentativas ficaram muito pequenas perto da felicidade que eu estava sentindo. Toda dor que a gente passou ficou mínima perto da felicidade e da alegria do coração cheio de amor que a gente estava ali naquele momento, e que a gente vem vivendo todos os dias.
Tudo o que vocês viveram para enfrentar a viagem até a Ucrânia faz sentido agora?
Com certeza! Eu acredito que Deus sabe de todas as coisas e tudo tem seu tempo, e na hora certa a vitória chega. Foi um caminho de muito sofrimento. Mas depois, tudo fica muito pequeno.
Estávamos com medo, mas era o nosso sonho que estava lá, não dava para esperar. Nosso filho foi muito desejado.
Como foi a viagem?
Ficamos na Ucrânia durante uma semana. Saímos do Brasil no dia 26 de março e fomos para Viena/Áustria, onde passamos a noite. No dia seguinte, seguimos viagem de trem até a última estação da Polônia e de lá pegamos outro trem com destino a Lviv. Fomos recebidos pela Embaixada Brasileira, que nos deu todo suporte durante o período que ficamos na Ucrânia.
O que vocês presenciaram em meio à guerra?
Em Lviv, a cidade estava funcionando normalmente. Mas nas ruas tinham muito soldados, vários monumentos protegidos e várias vezes durante o dia e à noite tocava o alarme na cidade alertando sobre risco de ataques. Quando o alarme tocava, todos do hotel desciam para o abrigo e ficávamos lá durante um tempo. Quando a guerra aconteceu, a gestante já estava em Kiev, na reta final da gravidez. Não dava para sair de lá.
Enquanto se organizavam para irem buscar o João Levi, como se sentiam emocionalmente?
Estávamos confiantes e com fé o tempo todo de que tudo daria certo, mas ao mesmo tempo ficávamos apreensivos por ser uma situação bem complicada da qual nunca imaginávamos que poderíamos passar.
Vocês iam para a Ucrânia antes dela ganhar o bebê?
Não. Na verdade, já estávamos com tudo organizado para irmos depois do parto, pois meu marido trabalha embarcado e ele só chegaria depois de três dias da data prevista do parto.
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Como era a frequência de contato de vocês com a clínica que fez o processo de gestação por barriga de aluguel?
Todo o contato é feito somente através da clínica e eles nos informavam sobre toda a situação. Assim que a guerra começou, ficamos bem assustados, pois estávamos na reta final da gravidez.
Com o início da guerra, alguns pais estrangeiros não têm conseguido ir buscar os bebês nascidos de barriga de aluguel na Ucrânia. Como foi para vocês terem conseguido isso?
Foi uma emoção sem tamanho, termos nosso filho nos braços em meio a uma guerra. Com certeza foi o dia mais feliz da nossa vida.
O bebê já foi consultado aqui no Estado? Como ele está?
Sim, ele está bem, graças a Deus. Agora está com 5.165 quilos e 57,5 centímetros.
Por que escolheu a barriga de aluguel?
Eu engravidei uma vez naturalmente, que resultou em aborto com 10 semanas de gestação. Após algumas investigações, descobri que tenho endometriose profunda. Depois de um tempo tentando engravidar, decidimos fazer fertilização in vitro. Foram quatro tentativas em São Paulo, mas todas sem sucesso. Depois de assistirmos a uma reportagem sobre barriga de aluguel na Ucrânia, nos interessamos e fomos pesquisar a respeito da clínica. Entramos em contato e decidimos que iríamos para Ucrânia realizar o nosso sonho de ter nosso filho. Todo o processo foi bem rápido e seguro.
Entenda
Apoio da Embaixada
- O casal Priscila Rodrigues e João Paulo Bogucki, morador de Vitória, viajou até a capital ucraniana para buscar o filho, que foi gestado por uma barriga de aluguel ucraniana.
- No dia 26 de março, o casal viajou para Viena/Áustria, e no dia seguinte seguiu viagem para a Polônia (Przemysl). De lá, os dois pegaram outro trem com destino a Lviv e foram recebidos pela Embaixada Brasileira, que deu o suporte durante o período que ficaram na Ucrânia.
- No dia 31 de março, o casal conheceu o filho deles, duas semanas após o nascimento.
- Por suas leis favoráveis, a Ucrânia é muito procurada por estrangeiros que buscam o processo de gestação de substituição, a chamada barriga de aluguel, proibida em vários países, inclusive no Brasil.