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DESAFIOS DA EDUCAÇÃO

Escolas enfrentam mais bullying e indisciplina após a pandemia

Com o retorno às aulas presenciais, pais e educadores notaram mudanças negativas no comportamento de crianças e adolescentes

O desrespeito às regras da escola e a falta de interesse nos conteúdos são alguns dos problemas relatados

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A euforia pelo retorno às aulas presenciais e o reencontro com os colegas deu lugar a um cenário até então inesperado: a explosão de indisciplina, ansiedade e incidentes envolvendo bullying, agressões, raiva e insatisfação entre os alunos.

Desde a retomada das aulas, educadores e pais constataram um aumento expressivo na indisciplina de crianças e adolescentes, com desrespeito às regras e o não cumprimento das tarefas.

“Eles estão muito mais indisciplinados e desrespeitosos com os professores e também com os próprios colegas. Tratam mal uns aos outros, estão mais individualistas. Muitos alunos também estão se sentindo superiores, principalmente os adolescentes”, contou a diretora pedagógica do Colégio PIO XII, Solaine Favarato.

Entre os alunos mais novos, a indisciplina envolve, principalmente, a falta de interesse nos conteúdos e atividades, como ressalta a doutora em Educação e diretora do Centro Educacional Sonho Meu, Edna Tavares. “As crianças já apresentam alguns retrocessos no desenvolvimento geral”.

E se antes existia uma expectativa pelo retorno da convivência com os colegas, muitos agora apresentam dificuldade em socializar pessoalmente. Hoje, muitos estão passando ainda mais tempo no celular durante o intervalo, além da própria indisciplina de usar o aparelho em sala de aula.

“Um dos aspectos fortemente observados é a dependência de celular e internet. O que era comum, após a pandemia se potencializou vertiginosamente. Uma aluna do 9º ano chegou relatar que prefere ficar sem comer do que sem o celular”, disse Edna.

O psicopedagogo Cláudio Miranda afirma que esse fenômeno de indisciplina, ansiedade e irritabilidade são consequências diretas da pandemia.

“Crianças e adolescentes começam a mostrar as sequelas físicas e psíquicas deste triste período. Todos os sentimentos represados estão se manifestando de forma mais ou menos intensa conforme o perfil psicológico de cada um, expressados de forma desordenada e gerando transtornos e conflitos”.

A psicóloga Naira Delboni lembra que o desestímulo é mais abrangente do que somente nas atividades escolares. “A pandemia desestimulou muito os alunos, não só com os estudos, mas com as amizades”, conta.

Distração vira sequela do pós-pandemia nas escolas

O professor pergunta uma, duas, três vezes. O aluno, mesmo sem fazer bagunça, não consegue responder. E não é porque ele não sabe a resposta, mas sim porque estava distraído, simplesmente pensando em outro assunto.

A distração vem sendo uma das principais sequelas do afastamento prolongado das salas de aula. 

A cozinheira Rosa dos Santos, 42, percebeu que seus dois filhos, Gabriel e Daniel, de 12 e 7 anos, enfrentam problemas de concentração logo após o longo período de aulas remotas. Isso causou uma dificuldade maior em assimilar conteúdos.

“Passei a ler e participar das atividades, monitorar cadernos e entender as dificuldades deles. Com isso, melhorou bastante”, contou.

Um dos motivos apontados para explicar esse problema é o excesso de tela durante a pandemia. Professora do Departamento de Neurociências da Faculdade de Medicina da USP, Maria Beatriz Linhares ressalta que as famílias vieram de um momento atípico, em que a adaptação com a tecnologia foi necessária. Entretanto, agora, os jovens precisam ser estimulados com a vida externa. “É preciso estabelecer relações sociais e neutralizar os impactos negativos”, diz.

Brasil fechou colégios por mais tempo

Nenhum país no mundo fechou escolas para crianças por tanto tempo durante a pandemia quanto o Brasil. A informação é de um relatório da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico.

Segundo o levantamento, o ano de 2020 registrou 178 dias sem aulas presenciais na pré-escola e nos anos iniciais do ensino fundamental. É o triplo de tempo na comparação com outros países como Itália, Espanha, Portugal, Irlanda e Chile.

O estudo teve como base somente o ano de 2020, ou seja, não fez a contagem dos dias sem aulas em 2021. No entanto, levantamentos realizados com estados brasileiros mostraram que, durante a segunda onda de covid-19, em abril do ano passado, grande parte das escolas públicas voltou a suspender atividades presenciais, só retomando no segundo semestre.

Outro problema grave ocasionado pela pandemia foi o aumento do abandono escolar. 

A evasão na faixa etária entre 5 e 9 anos aumentou quase 400%, passando de 1,41% em 2019 para 5,51% em 2020.

Alunos entre 10 e 14 anos mantiveram-se na margem (de 0,91% para 0,81% no mesmo período analisado, entre 2019 e 2021).

Vale lembrar que o percentual de alunos da rede pública que não teve aulas durante a pandemia é bem superior ao de estudantes das escolas particulares.

“A grande preocupação é que determinados resultados negativos podem se tornar duradouros se não houver investimentos adequados para a superação das desigualdades”, ressaltou o especialista em Sistemas Educacionais Edebrande Cavalieri.

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