O retorno das atividades pedagógicas presenciais, previsto para começar a partir desta segunda-feira (1º), traz desafios para os professores além dos que eles já enfrentavam antes da pandemia.
Tendo que se ajustar a um modelo de ensino diferente, que combina presencial e remoto, os educadores encontrarão alunos em níveis variados de aprendizado e com necessidades psicossociais.

Para ele, os profissionais que atuam diretamente com os estudantes em sala devem ter voz ativa no planejamento da nova dinâmica escolar. “Nesse retorno gradual, que combina remoto e presencial, eles precisam receber treinamento para lidar com a nova realidade”.
Gabriel acrescenta que instituições, professores, alunos e famílias devem estar preparados para o retorno escolar e reforça a importância das orientações sanitárias para garantir a saúde e o bem-estar de todos.
A Tribuna – Quais serão os desafios no retorno escolar?
Gabriel Corrêa – O primeiro e mais importante no retorno imediato é garantir a segurança de todos. E isso é possível de ser feito onde a Covid-19 não está em estágio descontrolado.
Tem de ser pensado como trazer os alunos de volta e evitar a evasão. Os alunos passaram quase um ano longe da escola. É preciso fazer o acolhimento emocional, com um suporte psicológico. As escolas têm fator de proteção social. Nesse período, alunos enfrentaram dificuldade de nutrição, pobreza e, alguns, violência doméstica, entre outras.
Não podemos achar que se deve partir já para o ensino das disciplinas neste primeiro momento. Não é um retorno de férias normal. O retorno à rotina deve ser gradual, promovendo adaptação.
O terceiro ponto é o aprendizado. O ensino remoto não chega a todos. Mesmo aonde chega, não é igual ao presencial. As lacunas que existiam antes foram acentuadas. É preciso ter um olhar para diagnosticar cada problema agravado e criar apoio.
A Tribuna – Os professores já enfrentavam desafios antes da pandemia. Quais outras dificuldades surgiram neste período?
Gabriel Corrêa – O mais importante para o aprendizado do aluno são os professores, mais que estrutura e material. É importante que todos entendam a relevância deles. O maior desafio da volta às aulas é dos professores.
Destaco o desafio de ensinar para uma sala de aula de alunos com níveis de conhecimento muito diferentes. E, muitas vezes, eles contam com pouco apoio para dar conta dessas lacunas. Agora, as dificuldades serão ainda maiores. Neste momento de retorno, que precisa combinar remoto e presencial, eles precisam receber treinamento para lidar com essa nova realidade.
A Tribuna – Esse treinamento vai acontecer só agora?
Gabriel Corrêa – Por mais que algumas redes de ensino já venham se preparando desde o ano passado, a grande maioria deixou para a última hora. Os professores ainda não sabem como será trabalhado o ano letivo.
Ainda vemos muito descaso com os professores. Essa é a hora de priorizá-los e chamá-los para construir com eles como será o retorno à escola, pois são eles que conhecem a realidade dos alunos.
A Tribuna – Quais os pontos básicos que devem ser trabalhados por escolas, professores e família?
Gabriel Corrêa – Reforço a importância de todos seguirem os protocolos sanitários, para evitar que escolas virem locais de disseminação do coronavírus.
O segundo elemento muito importante é do lado do poder público em compreender que não vai voltar a ser como antes.
Pais também precisam participar da educação dos filhos, criando condições para o estudo e mostrando a importância do ensino, o que facilita o retorno deles.
A Tribuna – Fala-se muito em “não deixar ninguém para trás”. Isto se refere a lidar com a diferença no aprendizado ou à evasão?
Gabriel Corrêa – O que buscamos é que todos possam aprender o que deveriam aprender. O primeiro passo é estarem na escola. É fundamental combater a evasão, indo ativamente atrás do aluno que não se matriculou ou não frequenta as aulas.
Uma vez que o aluno está na escola, não pode manter a cultura de que alguns alunos não conseguem aprender. Temos de fazer de tudo para que o aluno aprenda.
A Tribuna – O Brasil está preparado para ter a tecnologia no ensino?
Gabriel Corrêa – Não. A pandemia tem escancarado as desigualdades que se refletem na educação. Enquanto existem alunos que conseguem estudar à distância, há milhões que sequer têm acesso à tecnologia adequada.
A Tribuna – Quais as intervenções em âmbito público para atender às necessidades dos profissionais e garantir o aprendizado?
Gabriel Corrêa – É preciso definir o que será trabalhado em 2021, uma vez que muitos elementos no currículo de 2020 sequer foram trabalhados. Tem de formar e qualificar os professores para essa nova fase.
Reforço a necessidade de comunicar, dialogar e engajar os professores. As estratégias para o retorno não podem ser construídas no gabinete da secretaria ou na diretoria da escola, pois, nesses locais não se conhece a realidade dos alunos. Os professores precisam ter muita voz nesse processo. Apenas assim, dá para construir algum plano de retorno e ter chances de sucesso.
A Tribuna – Quais mudanças no modelo de ensino devem ser mantidas mesmo após a pandemia?
Gabriel Corrêa – A pandemia mostrou que precisamos investir mais em tecnologia, que pode ser um instrumento complementar importante. Deve haver um esforço para que todos os alunos tenham acesso a tecnologias que facilitem o aprendizado.
Outro elemento que já estava claro é olhar para crianças e adolescentes de modo intersetorial e com cuidado integral, especialmente para os mais pobres. Pobreza e escolaridade dos pais, por exemplo, são elementos que afetam o aprendizado.
Por fim, a participação da família. Muitas foram forçadas a participar nesse período. É fundamental que se mantenha e seja mais incentivada.