Achar que crianças não sofrem e que adolescentes só fazem drama é um grande engano. Os menores também sentem o impacto das mudanças de comportamento impostas pela pandemia, e é um grave erro dos pais minimizar esses sentimentos, afirmam psicólogos, médicos e especialistas em educação.
“Há pais que não enxergam e não aceitam o problema que o filho está vivendo. Fazer a negação e dizer que aquilo é bobagem é muito comum em algumas famílias. Minimizar e desconsiderar o sofrimento emocional de um filho é um erro grave que pode desencadear consequências desastrosas”, alerta o terapeuta e psicopedagogo Cláudio Miranda.
Ele destaca ainda que a falta de interação familiar é um agravante no surgimento de sintomas de depressão e ansiedade na infância e adolescência.

A psicóloga Náira Delboni, da Unimed, frisa que a criança não está imune à tristeza.
“Faz parte das nossas emoções, mas tudo que passa do normal pode trazer prejuízos. Os pais que prestam atenção nos filhos vão notar sinais de alerta. Não pode achar que é fase ou frescura, tem de ter um olhar mais carinhoso e cuidar da saúde mental da criança”.
A doutora em Educação Edna Tavares explica que a criança, diferente do adulto, tem menos elementos linguísticos para expressar seus sentimentos e conflitos.
“Por isso, é importante estabelecer uma rotina de atividades, como caminhadas, jogos em família, retorno às atividades escolares e promoção de situações alegres e esperançosas”, orienta.
DICAS DOS ESPECIALISTAS
Organizar a rotina
- Tanto para crianças quanto para adolescentes, ter uma rotina é importante, para dar a sensação de segurança, o que diminui o estresse e os sintomas de ansiedade.
Brincar em família
- Seja qual for a idade do filho, separar um momento do dia para brincar, em família, com telas desligadas, além de conversar e cozinhar. Esses momentos dão segurança aos filhos e diminuem os níveis de cortisol, o hormônio do estresse.
Conversar
- Além de validar o sentimento da criança, o diálogo ajuda os pais a perceberem alterações de comportamento de maneira precoce.
Tarefas colaborativas
- Inserir os filhos nas tarefas domésticas é uma estratégia de inclusão e pertencimento. Deve ser colocada como colaboração, e não punição.
Procurar ajuda
- Quando necessário, os pais devem procurar ajuda profissional para orientações. Nem sempre o transtorno é confirmado, mas, se não cuidado, pode se tornar crônico.
Fonte: Especialistas consultados.
O que eles dizem
“As crianças não estão imunes à tristeza. Mas tudo que passa do normal, pode trazer prejuízos”
Náira Delboni, psicóloga
“Brincar ajuda a dar segurança, e diminui os níveis de ansiedade nas crianças”
Ramon Nunes Minarini, pediatra
“Um ambiente familiar, com pais que compreendem as dificuldades da criança, fará a diferença”
Fernanda Mappa, psiquiatra infantil
“Para crianças, o convívio social é vida! É convivendo com outras que aprendem a se socializar”
Edna Tavares, doutora em Educação
Pais também precisam se cuidar
Pais, mães e responsáveis pela família também estão apresentando sintomas de estresse, ansiedade e depressão. Por isso, eles precisam cuidar da própria saúde mental, alertam médicos e psicólogos.
“Se os adultos se queixam das limitações à liberdade, em função do isolamento social, podemos multiplicar esses sentimentos nas crianças e nos adolescentes. É preciso muita atenção, paciência e criatividade para que todos se mantenham saudáveis, com adaptações, para manter a higiene mental”, frisa o psiquiatra Jovino Araújo, da Samp.
O psiquiatra Roberto Santoro ressalta que os pais são o porto seguro das crianças. Se eles estão desesperados e ansiosos, os filhos também vão ficar. “É preciso manter o equilíbrio para ajudar as crianças nesse ponto”.
Por isso, é importante os pais também se cuidarem, para que a criança fique bem, confirma a psicóloga Náira Delboni.
O psicólogo Geraldo Sebastião Correa, do Centro Educacional Praia da Costa, diz que o suporte familiar é decisivo para auxiliar os pequenos na compreensão da nova realidade.
“Encorajar os filhos a falarem abertamente sobre sentimentos, elogiar, motivar e apoiar regularmente, porém, sem excessos, são algumas das medidas que podem ser feitas pelos pais”, sugere.
