Como você reagiria se, de repente, acordasse em uma cama de hospital e soubesse que seu coração ficou parado por 30 minutos? Morador do bairro Nova Ponta da Fruta, em Vila Velha, o tatuador e surfista Marcelo Venturini, de 46 anos, passou por esse susto na semana passada.
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Foi no último dia 1º, durante a manhã, enquanto tocava uma reforma na própria casa, que ele começou a passar mal. Assim que sentiu os primeiros sintomas, Marcelo pediu aos vizinhos para que o levassem ao Hospital Evangélico de Vila Velha (HEVV) e, dali em diante, já não se lembra de mais nada.
“Desacordei no momento em que senti minha pressão abaixar. Meus vizinhos, que também são amigos de infância, estavam comigo. Eles disseram que eu reclamava de dor no peito”, contou.
Mesmo sem problemas prévios de saúde, ele teve uma parada cardíaca, ocasionada pela obstrução de uma artéria do coração (o bombeamento de sangue pelo corpo foi impedido por coágulos).
“Levo a minha vida de forma muito equilibrada: ando de skate, surfo, não bebo e tenho uma boa alimentação. Nunca esperei que isso fosse acontecer”, citou.
Quem acompanhou de perto o caso do tatuador foi o cardiologista Diogo Barreto, que, para salvar o paciente, precisou fazer uma reanimação de meia hora.
“Houve uma ‘morte súbita abortada’, isto é, ele ficou sem pulso. É a máxima da emergência médica. O Marcelo foi reanimado devido ao trabalho de uma equipe extremamente treinada”, avaliou.
Depois de ser encaminhado para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e ficar intubado por três dias, Marcelo acordou, sem entender o que havia acontecido.
“Na hora, tentei levantar da cama do hospital e ir embora. Só quando explicaram a minha situação que fiquei mais calmo. A ficha não caiu até agora”, relatou.
Hoje, de repouso em casa, o tatuador celebra a nova chance que lhe foi dada e encara a situação de forma bem humorada. “Passei por outras histórias parecidas, como alguns acidentes de trânsito, e, ainda assim, estou vivo. Nada me abala mais”, disse, entre risos.
Ele ressalta também os “bons frutos” que colheu dessa experiência, já que conseguiu fortalecer os laços com a própria mulher, Danubia Aires, de 40 anos, e com o filho Yuri Venturini, 17.
“Tudo o que ocorreu fez com que eu me aproximasse mais do meu filho, da mãe dele e da minha esposa. Eles se apoiaram e eu me apoiei neles”, comentou.
Marcelo Venturini tatuador e surfista: “Disseram que sou milagre de Deus”
A Tribuna – Antes de ser internado, do que você se lembra?
Marcelo Venturini – Eu estava na obra da minha casa, adiantando alguma coisa. Após a minha pressão abaixar, comecei a ficar mal. Liguei para alguns amigos que moram aqui perto, eles me socorreram e me levaram para o Hospital Evangélico. Acordei cinco dias depois e fiquei sabendo que quase havia morrido.
Como foi descobrir que seu coração parou por 30 minutos?
Quando eu acordei, levei um choque. Foi gratificante ver que eu não havia ficado com nenhuma sequela, mesmo depois de dias na UTI. Viraram para mim e disseram até que sou um milagre de Deus. A ficha ainda não caiu. Estou na fase de somente agradecer por estar vivo.
Quais lições ficaram?
Por um lado, foi muito bom isso ter acontecido, porque os meus laços com outras pessoas ficaram fortes, e entre elas também. Isso me aproximou mais do meu filho, da mãe dele e da minha esposa. A família toda ficou unida.
Depois de tudo o que aconteceu, você sente algum medo?
Não tenho medo de nada. Todos nós temos o momento de ir e vir. Apesar de ter sido uma experiência muito forte, tento levar na esportiva e na brincadeira. Inclusive, já passei por situações parecidas, como uma bala perdida e um acidente. Sempre que acontecem coisas bizarras na minha vida, eu só toco o barco (risos). Falam que sou muito doido.
Agora, daqui para frente, o que vai mudar?
Vou ter de evitar comer tanto hambúrguer (risos). Até então, eu preciso ficar 30 dias de repouso e tomar, em média, quatro medicamentos. Mas quero voltar a fazer coisas simples do dia a dia.
Após 20 minutos, sucesso é menor
Quando alguma pessoa sofre uma parada cardíaca ou infarto, se não houver um socorro rápido e eficiente, as chances de vir a morrer são altas, conforme garantem os especialistas da área.
“Isso é na maioria das vezes, dependendo do quadro. A partir de 20 minutos, a taxa de sucesso já diminui bastante”, afirmou o cardiologista Diogo Barreto.
Ele salienta ainda que não é comum que uma pessoa passe por tanto tempo de reanimação, como foi o caso do surfista Marcelo Venturini, de 46 anos. Para evitar o problema, o mais importante é a prevenção. “O recomendado é que todo mundo faça check-up já a partir dos 30 anos”.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia estima que, ao final deste ano, quase 400 mil brasileiros morrerão por doenças do coração e da circulação.
“Hoje, as pessoas estão mais sedentárias, estressadas e comendo mal. Isso tudo pode evoluir para doenças cardíacas. É preciso ir sempre ao cardiologista, pois há doenças que, muitas vezes, ficam escondidas”, recomendou o cirurgião cardiovascular Melchior Luiz Lima.
Pacientes com histórico familiar de diabetes, hipertensão arterial ou fatores de risco apresentam mais predisposição para as doenças do coração e do sistema circulatório.
Opiniões
“O recomendado é que todo mundo faça um check-up já a partir dos 30 anos”, Diogo Barreto, cardiologista
“Hoje, as pessoas estão estressadas e comendo mal, e tudo isso evolui para doenças cardíacas”, Melchior Lima, cirurgião cardiovascular