
– Estou aqui pela palavra, disse. Não pelo silêncio.
– Como?
– Sim, no silêncio é que pude contemplar o inseto invisível que ataca o mundo.
– E o motivo?
– Vou queimar na nuvem o inseto!
– Insisti: – Letícia, e a vacina?
– Quando chegarem todas as doses para o povo, não haverá mais o vírus! E além disso, o vírus acaba o vírus.
Não entendi. Todos usamos máscaras, ficamos reclusos, evitando o aglomeramento…
– São sábias medidas da ciência!, retrucou Letícia.
Mas minha ciência é outra. Há um fogo em mim que inventa o tempo.
– Um novo tempo?
– Sim. E a luz não é do tempo, é da palavra. Eu sou palavra quando sonho.
– Ninguém sonha sozinho: a palavra sonha junto.
E a Nuvem Letícia sorriu. Estava saudoso de sua presença. Ou do assombro de vê-la branca, e os dentes e olhos puros, brilhando.
E ficamos sabendo que o tal de vírus foi queimado e extinto.
– Muitos morreram e nós choramos os mortos.
Mas é preciso viver. E, se a palavra vive, nós vivemos.
– Todos juntos na palavra!, exclamou Letícia. E o que se crê, já começa a existir.
E vi que a Nuvem me abraçou. Com a palavra que derramava luz.
Carlos Nejar é escritor da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Filosofia.