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Jeito de Mãe

De mãe para mãe de APLV

Quando percebi que tinha algo de errado com meu filho, comecei a pesquisar os diversos sintomas que ele apresentava, pois mesmo todos os pediatras ...

Última atualização

Quando percebi que tinha algo de errado com meu filho, comecei a pesquisar os diversos sintomas que ele apresentava, pois mesmo todos os pediatras dizendo que ele não tinha nada, meu coração e intuição diziam o contrário, afinal, era eu que vivenciava tudo diariamente. Foram idas e vindas em vários médicos. Cada um falava algo diferente e indicava uma fórmula diferente também. Foi então que cheguei em um gastropediatra, especialista em refluxo, um dos principais sintomas do Henrique. Após me ouvir, o que de cara fez total diferença pra mim, e examiná-lo, ele concluiu que possivelmente se tratava de alergia ao leite, a mais comum entre os bebês.

Ele então me passou uma dieta super restrita, cortando vários alimentos causadores de refluxo e após este período, orientou que eu reintroduzisse um por vez, a cada três dias. Com a dieta vi uma “mágica” acontecer. A melhora no quadro do meu filho foi absurda. Quando chegamos ao 15º dia iniciei reintrodução pelo leite de vaca, pois meu coração dizia ser o grande vilão. Dito e feito. Ingeri em um dia e no outro já vi o pesadelo voltar à minha vida. Voltei ao médico e o diagnóstico foi fechado clinicamente. Meu filho era alérgico à proteína do leite de vaca (APLV).

Ao ouvir isso foi um misto de sentimentos. Por um lado, a tristeza, por ele ter a alergia, mas por outro um grande alívio, pois descobrir o que o fazia sofrer tanto só traria benefícios e qualidade de vida para ele e para nós. Começava aí, uma verdadeira imersão nesse mundo tão distante e desconhecido por mim, que não sou alérgica.

E eu que achava que apenas cortar leite e derivados da dieta, fato nada simples, já que “tudo” leva leite, resolveria a questão. Doce ilusão, isso era apenas a ponta do iceberg. Era muita informação, muitos termos novos, produtos nunca imaginados que continham leite e também receitas reinventadas por mães que não mediam esforços por seus filhos. Eu era apenas mais uma naquele universo de guerreiras que eu descobria em grupos na internet, o que me confortava, pois o sentimento de solidão e isolamento nesta luta diária é uma das partes mais dolorosas.

E nessas horas, muitas vezes não podia contar nem com o apoio dos mais próximos, não por mal, mas por desconhecimento do assunto mesmo, ainda pouco debatido e difundido no Brasil. Fui taxada de neurótica, exagerada e mais vários outros adjetivos que me deixavam extremamente triste. Um mundo de explicações, muitas vezes em vão, discussões, isolamento.

Como eu amamentava exclusivamente meu filho, pois não cedi ao sistema que quis me empurrar as fórmulas, quem fazia a dieta era eu. Como sair pra comer em qualquer lugar e não ter a certeza dos ingredientes ali presentes? E com o tempo, eu descobri que minha comida não poderia ser preparada com os mesmos utensílios que já tiveram contato com o leite, pois a proteína não saia na lavagem, mesmo com água fervendo. Oi? Como assim? Fui apresentada ao universo dos traços. Aquilo parecia insano e era tão assustador ao mesmo tempo. Como sofri e ainda era julgada por tudo ou pelo menos não compreendida.

Mas com o tempo fui estudando e aprendendo cada dia mais. A felicidade de amamentar o meu filho e vê-lo tão saudável me bastavam. Foi fácil? Claro que não! Mas valeu todo o esforço pra mim e sei que vale pra muitas também. Então hoje, quero reforçar três pontos aqui sobre esse assunto. O primeiro é que se você quer de verdade amamentar e seu filho é alérgico alimentar, calma, você vai conseguir. É possível sim! Temos rede de apoio virtuais (inclusive tenho um grupo e uma página) e existem vários outros pela internet, assim como profissionais maravilhosos no Brasil, mesmo que poucos. E hoje ainda temos rótulos claros, graças ao movimento Põe no Rótulo, formado por mães de alérgicos que se uniram por esta causa.

O segundo ponto é: Se você não quiser ou conseguir fazer a dieta, não se sinta mal ou menos mãe por isso. Realmente não é fácil e é mais saudável e honesto com você e seu filho que esta decisão seja tomada ao invés de ficar furando a dieta e causando reações no bebê ou se abalando psicologicamente para sustentar algo que não está sendo possível pra você.

Em terceiro lugar, quero contar que após muita luta, dieta, testes, reações, uma internação de quatro dias por ingerir um alimento que eu não sabia que continha leite e muita, muita luta, o meu filho se curou ou como é falado hoje, passou a tolerar o leite sem reação alguma. Isso aconteceu após os dois anos de idade e hoje, com mais de quatro, ele bebe pouco leite e não gosta de queijo, mas ama sorvete, picolé e bolo de chocolate!

E o que ficou disso tudo? Além da sensação de que valeu a pena todos os esforços pelo meu filho, saber que ajudei muita gente neste caminho e ainda ajudo é gratificante demais. Semana passada, por exemplo, logo que as aulas voltaram, uma mãe que eu ajudei lá atrás, quando ela descobriu a alergia do filho, tardiamente, mandou a seguinte mensagem no grupo da turma: “Vou fazer o aniversário do meu filho na escola e gostaria de saber se alguma criança tem restrição alimentar”? Ela não sabe, mas eu chorei quando li isso. Fiquei realmente emocionada. Sabe por quê? Porque sei que o filho dela não tem mais alergia, mas a preocupação em pensar no outro estava lá e estará sempre presente depois do que passamos. Quanto orgulho eu senti desse simples gesto e por saber que de alguma forma eu faço parte desta história! Portanto, mamães de alérgicos alimentares, força! E para quem não vivencia, empatia! Até a próxima!

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