Era uma vez um menino, muito planejado e esperado por seus pais. Nunca teve problemas sérios de saúde e seu desenvolvimento neuromotor sempre foi excelente, precoce, inclusive. Sentou, engatinhou, andou, falou, desfraldou tudo antes da média. Foi amamentado em livre demanda e exclusivamente até seis meses. Com 20 dias já dormia a noite toda, sucesso total!
Porém, alguns fatores começaram a chamar a atenção da mãe a medida que os meses se passavam. Ele não dormia durante o dia espontaneamente. A partir dos cinco meses precisava ser muito balançado/chacoalhado para pegar no sono.
Além disso, com o passar do tempo começou a fazer birras e pirraças desproporcionais aos fatos, segundo a mãe, e também mordia muito, só parou após os três anos. Neste período os ataques de birra e fúria foram aumentando em quantidade e proporção, sendo difíceis de serem controlados. A mãe recebia reclamações diárias da escola. Ele também não dividia os brinquedos e era egocêntrico. Desenvolveu bruxismo ao ponto de desgastar muito os dentes e por dormir mal a noite, acordava sempre irritado.
Diante do quadro ela foi em busca de ajuda profissional. Em consulta com uma neuropediatra, esta firmou que o menino não tinha nenhum problema, apenas precisava de limites e indicou um psicólogo. Começaram a terapia e os progressos não aconteciam. Na época ele já tinha mais de quatro anos e a situação estava cada vez mais difícil.
Para exemplificar, ele já acordava irritado, não queria ver ninguém, batia na irmã. Se o leite não estivesse no copo que ele gostava, jogava longe. Não queria ir para a creche e quando ia, tinha um comportamento que destoava do restante das crianças. Chorava muito, suava até, ficava bravo e jogava cadeiras, mesas e objetos nos colegas e professoras. Em seguida se acalmava e pedia desculpas.
Só de acompanhar a história da minha amiga, eu já sofria junto com ela. E além de todo esse transtorno que a família vivia, ainda tinha o preconceito e os julgamentos. Certa vez ela deixou ele sem ir para aula uma semana, só para não se deparar com os olhares das outras mães que já o viam como um “delinquente” e ela como uma mãe permissiva. Essa era a sensação dela diante das pessoas. E ainda, de que estava perdendo o filho, pois não enxergava uma solução.
Foi então que uma amiga sugeriu que ela o levasse a uma psiquiatra infantil para confrontar o diagnóstico da neuropediatra. E assim ela o fez, marcou uma profissional renomada e o diagnóstico dela, já na segunda sessão, foi enfático: autismo.

Acredito que a maioria aqui deve estar pensando: Nossa, ela deve ter ficado desesperada, desnorteada, triste com o diagnóstico. Realmente isso é comum, até porque você não sabe o que virá pela frente e o desconhecido é sempre assustador. Mas não, ela não reagiu assim.
Pela primeira vez ela se sentiu aliviada de verdade. Parecia encontrar respostas para perguntas nunca antes respondidas. O diagnóstico trouxe um sentimento de paz para o seu coração, porque tudo parecia fazer sentido, as pirraças, birras, os ataques de fúria. Ela me disse que teve vontade gritar pra todo mundo, postar nas redes sociais, dizer que se sentia escolhida a ensinar o filho a lidar com todas as suas emoções, porém, não o fez.
Mas por que não? Primeiro, porque o diagnóstico ainda não estava totalmente fechado, as opiniões eram contraditórias. A pediatra e a neuro dele não concordavam com a psiquiatra. O psicólogo dizia que com as características que ele apresentava e por serem muito pontuais ao longo do dia, ainda não podia afirmar. Ela também tinha medo do preconceito que o filho poderia ter que enfrentar.
E enquanto o diagnóstico não era finalizado, ela me contou que se tornou mais tolerante com o filho, lendo, estudando e pesquisando cada dia mais sobre o assunto. Errando ainda, mas tentando sempre acertar.
“Não teve um dia que chorei pela possibilidade do autismo, mas posso contar inúmeras vezes que chorei por meu filho ter sido agressivo, explosivo, impulsivo e pelos olhares de julgamento que recebi. Perceber como o mundo via o meu filho me doía, porque eu sei quem ele é e não era aquela criança transtornada que todos viam. Então fui em busca de ajuda psicológica pra mim e na segunda sessão ouvi algo óbvio, mas tão importante, que mudou minha vida e minha forma de perceber as coisas. O psicólogo disse o seguinte: ‘Independente do que o seu filho for ou tiver, ele deixará de ser seu filho? Você deixará de amá-lo? De levá-lo pra escola?’ E eu respondi: não. E foi aí que minha ficha realmente caiu. Ele é e sempre será meu filho. E meu professor de maternagem, com quem eu vivo a maternidade real. Amor, doação, não esperar nada em troca. Passei a compreendê-lo, a ajudá-lo a lidar com suas emoções. Aprendo muito, amo muito, vivo intensamente e sou grata a Deus por me permitir viver esse amor, essa busca por me tornar um ser humano melhor, por me despir de preconceitos, dos olhares e dos julgamentos externos e por nunca, nunca pensar em desistir”.


